quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O talento, sua falta e a arte

(Esta é uma adaptação de um texto publicado no blog Palavras Gentis, nos idos de novembro de 2003.)

algum tempo assisti a um filminho bastante interessante cujo título original é “Max” (foi lançado em 2002, com John Cusack e Noah Taylor no elenco - não consegui descobrir o título em português, se é que existe) e que tem uma trama bem legal, tratando, ficcionalmente, da vida de Adolf Hitler como pintor ou seja: teria o sucesso como artista evitado que se envolvesse seriamente com a política?

Será que sua aceitação no meio artístico da época teria evitado que seu impulso natural de se tornar "grande" tomasse o rumo de uma guerra mundial e do extermínio de seres humanos em escala industrial?

Foi a completa falta de talento como pintor, como artista, que fez com que viesse a aprimorar sua capacidade retórica e, por assim dizer, propagandista, fazendo com que se envolvesse com a polítca incendiária da República de Weimar? Que desenvolvesse o movimento nazista?

É claro que o filme é um exercício ficcional, que abusa da “liberdade histórica” em nome do enredo, mas ainda assim dá um pouco o que pensar: será que todo grande artista é, lá no fundo, um cruento ditador? Ou que todo ditador, ou todo político-filho-da-puta (ôps, olha a redundância), toda pessoa que deixa a "autoridade" subir-lhe à cabeça e para agir como autêntica "otôridade" seria apenas mais um artista frustrado?

Talvez alguns de nossos alcaides sejam apenas um bando de pintores gorados, de cantores de banheiro cujos esforços infrutíferos para aparecer no programa do Chacrinha tenham se acumulado no fígado, ou no intestino grosso: daí o cheiro de desforra e de vingança que cobre muitas administrações desses verdadeiros feudos em que transformaram cidades e estados, cujos cargos políticos e administrativos são distribuídos como presentes e cala-bocas a um bando de incompetentes e facínoras.

Quem sabe tenhamos escapado de algo pior que o golpe militar de 64: Roberto Carlos poderia ter se transformado num grande político e chegado ao poder no lugar de algum dos presidentes militares e se tornado um Stálin tupiniquim, perpetuando-se no poder e descontando toda sua fúria e recalque nos descendentes daqueles que não compraram seus discos.

Brincadeiras à parte, o que gostei do filme (além da atuação de Noah Taylor como Hitler) foi que me deixou pensando por alguns momentos sobre a arte e aquilo que leva muitos a tentar caminhar nesse terreno imprevisível e falsamente mapeado para, no final, saírem frustrados, e se isso vale realmente a pena.

Sempre achei, como Oscar Wilde, que a arte, qualquer uma (principalmente a dança, que acho simplesmente insuportável, injustificável), fosse algo completamente inútil.

Alguns asseguram que essa inutilidade é que possibilita a alguma coisa ser considerada arte (outros defendem que apenas o fato de se colocar algo num museu ou galeria já caracteriza o objeto como arte, vide Marcel Duchamp); e devo esclarecer que a "inutilidade" da arte é naquele sentido utilitarista-concreto da coisa, ou seja, podemos viver sem as obras-primas de Jackson Pollock ou as partituras de Phillip Glass, mas não sem comida, água, oxigênio, álcool etc.


Porém, mesmo achando que a arte em geral não possui uma "utilidade" concreta, reconheço que esse vício de criação e interpretação artística já mudou a vida de muita gente, mesmo que num sentido restrito, local ou íntimo, e que, se não fosse por esses milhares (milhões?) de artistas frustrados que andam pelas ruas e que trabalham e se casam e bebem e têm filhos e pagam impostos e compram porcarias e votam e xingam a sogra, talvez essa droga de planeta fosse um lugar bem pior, onde notas musicais não fossem cantaroladas e onde imagens e palavras não alcançassem aquele lugar bem lá no fundo da alma, que muitas vezes esquecemos que existe, e que quando é estimulado, por bem ou por mal, ajuda a todos nós a agüentar mais um dia de sol e incerteza.

Ou seja: a arte, afinal, vale a pena.


Au revoir...



Oam Patapai

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Grimoires: magia, feitiçaria e o Tinhoso

Acabei de ler um livro chamado “O Clube Dumas”, de Arturo Pérez-Reverte, escritor espanhol, publicado pela Martins Fontes em 1995, e que foi a base para o filme “o Último Portal” (The Ninth Gate, 1999), do Roman Polanski

Sei que muitos odiaram o filme, mas não se enganem: o livro é um trabalho interessante, muito melhor que a película (apesar do final também ser anticlimático), que trata, entre vários assuntos (bibliofilia, livros raros, Alexandre Dumas pai, demonologia, satanismo, solidão, moral etc.) de “grimoires”, que são nada mais nada menos do que os famosos “livros de magia”, com descrições de encantamentos, poções, rituais, invocações, adivinhações, poderes “especiais”.

A erudição do autor é um dos atrativos d’O Clube Dumas, principalmente para os amantes de livros e os viciados em leitura, com muitas referências e homenagens incrustadas nas páginas, misturando livros reais com livros fictícios (no melhor estilo de Lovecraft e Borges).

Porém, não é sobre isso que quero discorrer, e sim sobre “grimoires’, livros “demoníacos” etc. e a fascinação que eles exercem.

No livro, Lucas Corso, o personagem principal, é contratado para autenticar um livro antigo e raro, publicado em 1666, e chamado “De Umbrarum Regni Novem Portis” (As Nove Portas do Reino das Sombras), cuja tiragem fora quase toda queimada, assim como seu ousado impressor, em 1667, sobrando apenas três exemplares.

Em sua peregrinação atrás dos outros dois exemplares para comparação, Corso esbarra em alguns eruditos em demonologia e discute os livros e o conteúdo dos mesmos.

Por curiosidade pesquisei na web acerca dos livros mencionados (vários fictícios) e descobri que muitos livros considerados “grimoires” estão à disposição na Amazon-ponto-com (o “Livro de São Cipriano”, seja capa preta, de aço, de “whatever”, famoso aqui no Brasil é um “grimoire”, de origem espanhola/portuguesa, provavelmente do séc. 18, mas não achei na Amazon), assim como existem várias páginas na internet que discutem o assunto, algumas tentando dar uma base séria aos visitantes, com exposição histórica e fundamentada, e outras simplesmente de gente, digamos, bastante empolgada com “assuntos proibidos”, “ocultos”: mais adeptos de pseudo-ocultismo do que outra coisa.

H. P. Lovecraft, escritor americano bem conhecido dos fãs de literatura de horror, criou o famoso “Mito de Cthulhu”, uma série de histórias razoavelmente interligadas que faziam referência a seres antiqüíssimos e malévolos que (grosso modo) esperavam o momento de voltar à Terra e reinar novamente. Dentro deste ciclo mitológico, criou também um “grimoire”: o Necronomicon, escrito pelo árabe louco Abdul Alhazred.

Esse “grimoire” fictício foi tido como real e causou algumas confusões tanto no mundo erudito como no mundo dos “fãs”, sendo que hoje é possível encontrar algumas versões do mesmo por aí (sim, na Amazon-ponto-com), por diversos autores inclusive. Muita gente acredita (ou prefere acreditar) que o livro existe “de verdade”, ou seja, que foi escrito “realmente” pelo árabe doido, e que “funciona”.

Vários dos “grimoires” disponíveis no mercado, porém, têm passado e origem um pouco melhores que o Necronomicon, já que existem edições comprovadamente antigas, algumas do séc. 13.

Analisando alguns desses livros com passado comprovado, percebe-se que que são verdadeiros catálogos de influências de várias culturas, tanto pagãs, ou bárbaras, quanto cristãs, judaicas e muçulmanas. Seus autores foram verdadeiros compiladores de tradições ditas “mágicas”, coletando fórmulas, rituais, preces, amuletos etc.

É possível encontrar receitas para tratar doenças, preces de cura, fórmulas para proteção contra demônios, rituais para invocação de demônios ou anjos, instruções para construção de amuletos, regras de convívio, regras alimentares, descrições de plantas e animais (sejam reais ou imaginários), entre outras coisas.

A autoria de muitos destes “grimoires”, é claro, fica difícil de comprovar: os autores, por motivos óbvios, tinham certo receio de assumir suas obras abertamente, afinal, se os leitores já iam para a fogueira, imaginem os escritores. Por isso, estes trabalhos costumavam ser atribuídos a reis, santos ou filósofos (de preferência, já falecidos): uma característica típica da época, que servia para dar certa credibilidade à obra (existe um tratado de alquimia cujo autor seria São Tomás de Aquino, assim como o Rei Salomão seria o autor de “A Chave de Salomão” – que existe em português, caso estejam curiosos).

Uma curiosidade bem interessante é que em alguns destes livros, principalmente nos mais antigos, os “rituais” não são necessariamente “demoníacos” ou anticristãos, já que Deus é mencionado e até mesmo respeitado e invocado, sendo a ele pedida a permissão para se atuar por meio de fórmulas e preces “específicas” (ou seja: não sancionadas pelo poder religioso dominante), muitas vezes oriundas de cultos cristãos não reconhecidos pelo “Poder de Roma” ou de antigas seitas semitas.

A Igreja Católica, em particular, conseguiu, com o tempo, fundir magia, paganismo e satanismo num mesmo objeto; mas isso não é (ou era) verdade. A chamada “magia” nada mais é do que um rótulo que se aplica comumente aos rituais e cerimônias de origem pagã: invocações das forças da natureza, da “mãe-terra”; celebrações de entidades das florestas (o carnaval era uma originalmente festa pagã que foi “cooptada”, adaptada aos gostos cristãos – se bem que hoje é só sacanagem, mas vá lá) entre outras manifestações.

O satanismo, por outro lado, como o próprio nome indica, se refere a Satã, e é bem mais difícil de se definir, já que existem vários tipos de “satanismo”: alguns se referem ao culto ao capeta da tradição cristã, outros o identificam com antigas práticas pré-cristãs, ou ainda a outra entidade fora da tradição cristã, ou ainda a um tipo de neo-paganismo, ou ainda a tudo o que venha a afrontar a moral cristã estabelecida.

Porém, os papistas, para questão de simplificação, derrubaram tudo no mesmo pacote: se não aceitam, é satanismo, magia negra, coisa do cramulhão, obra do tinhoso etc.

Ressalva: não confundam satanismo com demonologia, que é o estudo das figuras demoníacas características de cada religião, ou seja, cada uma delas tem sua própria lista de capetas, todos devidamente catalogados, com descrições, interpretações, “modus operandi” e devidos “antídotos” (já imagino até um título de livro: “Exorcismo: modo de usar”). Mais ou menos assim: demonologia é uma “ciência”, satanismo não.

Bom, mas de volta aos “grimoires”.

A fascinação que “livros proibidos/banidos/censurados” causam nas pessoas é evidente. Nada melhor do que ler algo escondido dos “outros”, algo pecaminoso, que não se deveria ler.

Uma das reações à censura de qualquer tipo é: por que não posso ter acesso a isso? Seguida de: será que isso não é bom para mim ou para os censores? Que encaminha para: eles têm medo disso, por isso não querem que eu conheça. Que pode culminar em: então é isso, informação/conhecimento deve ser Poder (uma das várias interpretações da atuação da serpente/satã em relação ao casal primordial é justamente essa: acesso a informação/conhecimento era tabu; ou seja, o diabo deu conhecimento ao homem, que se lascou no processo).

E nada melhor para se sentir “poderoso”, “perigoso”, “especial” e “corajoso” do que ler um livro com ditos “ensinamentos secretos”, “segredos antigos” e outras baboseiras. Daí a proliferação dos “livros de magia”, sejam de mentirinha ou não (quanto à origem, e não quanto aos “efeitos”; que fique bem claro).

Apesar de tudo, porém, acredito que os “grimoires” comprovadamente escritos há séculos devem ser uma excelente fonte de estudo para historiadores, sociólogos, antropólogos etc; afinal, seu conteúdo resistiu à “caça às bruxas” histórica perpetrada pelos papistas e seus colegas luteranos e traz até nós muitas informações interessantes sobre crenças antigas, sobre a relação do homem com o sobrenatural e, por que não, sobre a evolução do próprio pensamento religioso.

Obrigado pela atenção.




Oam Patapai