quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Amar ao próximo...

"Honey, that ain't no pistol..."




Saudações, Terráqueos...



Fuçando na "rede" encontrei estes dois excelentes exemplos de tolerância para com os nossos "irmãos infratores".

Vou arrumar um igual ao segundo para colocar lá em casa...



Atenção: "Beaten, stabbed and stomped." Seria essa a ordem correta?


Mas o pilantra sempre conta com a má pontaria das pessoas.

See ya...
Oam patapai

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Gênesis publicitário

"We gonna have a rock 'n' roll party tonight!!!"



O texto abaixo, infelizmente, só fará sentido para os que trabalham, ou trabalharam, em agência de publicidade: sobrevivendo numa dieta à base de pizza através das madrugadas. E, por isso mesmo, é a eles dedicado...


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Diziam que no início havia a Palavra.

Mas também havia o Layout.

E ele era grandioso, equilibrado e harmonioso. Ressaltava a marca, transmitia a ideia e não interferia no texto.

E Nosso Senhor, o Diretor de Criação, viu que o Layout era bom e se orgulhou do trabalho de seu Diretor de Arte e de seu Redator; e quis então que o Cliente o visse e o aprovasse. Por isso chamou seu mais belo Atendimento e disse: “Eis o Layout, toma-o em tuas mãos, pois que é bom e está de acordo com o briefing. Leva para que o Cliente o veja e o aprove. Pois essa é minha vontade”.

Então o Atendimento recebeu o Layout e o admirou. E disse: “Mas Senhor, essas cores não parecem ser as mencionadas pelo Cliente...”

O Pai da Criação se aproximou do Atendimento e disse: “Vais contra a palavra de teu Deus?”

E muito suavemente o Atendimento respondeu: “Altíssimo, o Cliente especificou que queria tons de verde.”

“E tu por acaso enxergas vermelho?” – trovejou o Senhor.

“Parece azul aos meus olhos, Santíssimo.” – afirmou o Atendimento, recuando discretamente.

“Assim te parece, pois tens a vista toldada pela leiguice. As porcentagens de CMYK estão corretas, assim como os Pantones escolhidos, eu assim vos digo.”

“Tens certeza, Magnífico? Não estaria então descalibrada vossa celestial impressora?”

“Não.” – fez ressoar o Senhor – “Calibrada anteontem ela foi. As cores estão perfeitas e correspondem às cores na tela, e eu assim vos afirmo.”

E o Atendimento acatou o que disse o Senhor e partiu para levar o Layout ao Cliente. E partindo apressado ainda disse num último fôlego: “O Cliente certamente não gostará desses títulos.”

E a ira do Senhor sobreveio rápida e implacável, mas o Atendimento já saíra apressado, com os vouchers de táxi numa mão e o Layout na outra.

E, como era a hora do crepúsculo, houve júbilo no Estúdio, pois o Atendimento não voltaria naquele mesmo dia, e todos poderiam retornar a seus lares em horário decente.

E assim terminou o primeiro dia.


No segundo dia, animado com a criação, confiando nos e-mails do Atendimento e ignorando os apelos da Mídia e da Produção Gráfica a respeito do orçamento, o Diretor de Criação pôs-se a gerar diferentes formatos e aplicações para o Layout, e fez brotar cartazes, anúncios, rodapés e filipetas. E abusou das mídias, das facas especiais, das gramaturas dos papéis, das quantidades de dobras e das aplicações de verniz; fazendo então com que o Diretor de Arte e o Redator enlouquecessem de tanto refazer, ajustar e reaplicar.

E enquanto o Senhor elaborava em furor sobrenatural, o receio do Estúdio ia aumentando hora a hora, enquanto o Atendimento se desculpava: “Já liguei, eles estão vendo, é que tem que passar por todas as áreas, e eu não posso pressionar o Cliente, né, gente?... calma”.

E somente ao final do dia o Atendimento apanha os vouchers e vai para o Cliente.

Mas no Estúdio não houve júbilo nem aleluias, e sim confusão e fúria, já que avisados foram pelo Atendimento: “Alguém vai ter que ficar esperando pelas alterações... esse trabalho tem que sair hoje...”. E de nada adiantou explicar que as alterações eram para o Diretor de Arte e o Redator, e que havia prazo com a gráfica, e que a Mídia não havia aprovado os custos com o Cliente, e que o Estúdio era dispensável, pois o Atendimento, como de hábito, se fez surdo ao bom senso e ao que é racional; e tudo em nome do Cliente.

E assim terminou o segundo dia, com algumas infelizes almas esperando à toa, já que o trabalho, obviamente, ficou para a manhã seguinte.


No terceiro dia o Atendimento apresentou as mudanças ao Diretor de Criação e foi alvo da ira d’Ele: “Tu dissestes que o Cliente não queria produzir fotos.”

“Nada disso, ó Eterno, eu disse que ele “preferia” não produzir...”

“Não há nada disso no briefing!”

“Sim, meu Senhor, infinita é vossa percepção, não há, mas passei essa informação verbalmente, durante a reunião da semana passada.”

“Reunião?!?!?!?” – bradou o Pai da Criação, fazendo estremecer o Universo – “Aquela bagunça? Oito pessoas a beber do café com adoçante e a falar ao mesmo tempo sobre tudo? Onde tens a cabeça? Um e-mail tu deverias ter enviado, já que és pródigo nisso.”

“Perdão, ó Amantíssimo.”

“E a marca? Revitalizada e tornada mais leve, mais legível e mais moderna ela foi! Por que não haveriam de apreciá-la?”

“Apenas não gostaram, ó Senhor de Todas as Coisas. Talvez tenham-na achado moderna demais...”

“Mas vender a ideia tu não tentastes? A convencer o Cliente a aceitar a mudança não te esforçastes? Não expusestes tu a ousadia da renovação?”

“Claro que sim, Pai Celestial. Tentei e argumentei ao máximo.” – mentiu o Atendimento.

E o Senhor respirou fundo e se acalmou, já prestes a enviar o Anjo da Morte atrás do Cliente. E disse: “Tudo bem então, pra quando?”

“É urgente, Altíssimo, já prometi ao Cliente, temos que entrar em produção hoje.”

“O quê?” – rugiu o Senhor.

“Estamos atrasados, ó Poderoso.”

E então Diretor de Criação pôs o Diretor de Arte a retrabalhar o Layout, e fez com que o Estúdio ficasse na hora do almoço, e todos comeram das pizzas frias e tomaram dos refrigerantes quentes, e houve quem reclamasse que não haviam pedido pizzas vegetarianas.

Finalmente, depois de muita saliva gasta em imprecações, novas peças foram impressas e novas pranchas foram montadas, e o mais belo dos Atendimentos chegou do shopping só para pegar as peças, os vouchers e voar para o Cliente, deixando todos apreensivos: pois o Estúdio não ia dormir mesmo; a Produção Gráfica ainda não tinha todos os orçamentos das gráficas; e a Mídia precisava autorizar inúmeras inserções.

E assim terminou o terceiro dia, com todos maldizendo e amaldiçoando o Atendimento antes de irem embora, pois que este ligou depois das dez da noite para avisar que o Cliente concordara em dar mais prazo, e que tudo ia ficar para o dia seguinte. E particularmente virulentas e impiedosas foram a Mídia e a Produção Gráfica.



E no quarto dia quis o Diretor de Criação que todos chegassem na hora e que estivessem preparados para as alterações e, quem sabe, para a finalização das peças.

E eis que surge apressado o Atendimento, que fora direto para o Cliente, com mais alterações.

“Eu não disse que o Cliente ia reprovar os títulos?”

O Redator, sentindo-se ofendido e magoado, apela ao Senhor.

“Poderosíssimo, como poderiam ontem estar os títulos bons e hoje não?”

“Boa pergunta, filho meu. Tens resposta, meu mais belo Atendimento?” – diz o Senhor, ainda calmo.

“Altíssimo, como sabeis, nossos trabalhos passam por várias áreas do Cliente. Alguém não havia visto os títulos ainda, apenas isso.”

O Redator, porém, argumenta: “Mas mandei uma lista separada com inúmeras opções de títulos, eram quase cinco páginas. Reprovou todas, o Cliente? Ele leu pelo menos? Mostrastes a lista?”

“Claro, meu irmão Redator.” – mentiu o Atendimento – “O Cliente é muito severo quanto às palavras. Jamais faria com que labutasses à toa. E ele também pediu alterações nos filmes e nos spots”.

E pôs-se o resignado Redator a trabalhar em novos títulos, spots e filmes, com o coração pesado, enquanto o Atendimento retornava saltitante a sua mesa, sob os olhos desconfiados e incandescentes do Senhor.

“Atendimento, não trouxestes alterações de Layout?” – indagou o Diretor de Criação.

“Senhor do Universo, as alterações de Layout, se houverem, virão mais tarde. Ainda avaliam as mudanças nas peças.”

E o Senhor retornou a sua sala e esperou, enquanto observava o Atendimento falar longamente ao telefone e passar tarefas e mais tarefas aos estagiários e assistentes.

O dia passava, e a cada minuto o Estúdio e a Produção Gráfica tornavam-se mais desesperançados e desconsolados.

E então chega o motoboy com os Layouts a serem alterados, e o Senhor os toma nas mãos e Sua voz retumba encolerizada: “Que malditos sejam eles e suas proles!!!”

O mais belo dos Atendimentos desliza cautelosamente em direção ao Senhor e diz: “Santíssimo, não fiqueis assim, fiz tudo o que pude, mas confuso é o Cliente, e também pouco atento ao nosso sacrifício, mas sei que tudo podeis e tudo fazeis...”

“Tudo faço e tudo posso porque não és tu que ficas em casa acordado e esperando layouts para aprovar pela internet...”

“São poucas as alterações, Divino Pai.”

“Poucas para ti e teu Cliente. Veja as modificações de formato, de cores e de fontes. Veja os pedidos de retoques e de novas opções de fotos. És cego ou por acaso debochas de teu Deus?

“Jamais debocharia de Ti, Poderosíssimo, apenas inferi que as alterações fossem fáceis e prometi para hoje mesmo. O Cliente ficará esperando até a hora que for...”

E houve choro e ranger de dentes enquanto o Diretor de Arte ajustava furiosamente os Layouts e o Estúdio tentava auxiliar nas alterações de formato, e a Produção Gráfica lutava para conseguir os orçamentos para os novos formatos e quantidades. E tudo sob o olhar intenso do Diretor de Criação.

O crepúsculo foi sendo deixado para trás e o mais belo Atendimento saiu no horário porque tinha que ir à academia, e todos se penitenciaram e se resignaram às pizzas frias e aos refrigerantes quentes.

Mas ao badalar das 23 horas, liga o Atendimento e diz que o Cliente já fora para casa, pois cansado estava, e que tudo ficaria para o dia seguinte, à primeira hora.

E todos clamaram contra o Atendimento e todas as suas gerações, e disseram: “Malditos sejam os que te abençoarem e benditos sejam os que te amaldiçoarem.”

E o Pai da Criação nada disse, estranhamente. Apenas apagou a luz de sua sala e dispensou o Estúdio com um gesto grandioso.

E assim terminou o quarto dia.


Na manhã do quinto dia o Atendimento encontrou tudo conforme pedira o Cliente, e ainda assistiu aos últimos Layouts sendo montados por aborrecidos e inconformados madrugadores do Estúdio. Depois, foi serelepe para o Cliente, sem esquecer os vouchers.

E todos tombaram apreensivos, e não aliviados, com a saída do mais belo Atendimento.

Correu então a manhã e incomunicável ficou o Atendimento, cujo celular parecia desligado ou fora da área de serviço.

Aflita estava a Produção Gráfica com prazos e preços, o Estúdio temia pelo almoço e a Mídia rezava para que não tivessem que, a essa altura, uma vez mais alterar planos tantas vezes refeitos.

E eis que chegam notícias do Atendimento: “Só mais alguns ajustes, para o almoço ninguém sai.”

Muitas lamúrias correram pelo ambiente.

Então eis que aparece o Atendimento, pouco antes de o Redator entrar afobado e com olhos vermelhos: “Agora é sério, gente. Tá saindo hoje, no mais tardar amanhã cedo.”

E todos se põem a trabalhar.

Mas quis o Cliente pedir alterações de Layout que só o Diretor de Criação poderia aprovar, mas o Altíssimo não havia chegado e não atendia aos telefonemas.

Vozes se levantaram: “Ó meu Senhor, Criador de tantos universos, não nos abandone à sorte e à mercê do Atendimento! Livra-nos deste destino, ó Pai Amantíssimo!”

Mas aparentemente o Diretor de Criação estava adormecido como um rochedo, e ignorou as súplicas.

“Pode deixar.” – disse o mais belo dos Atendimentos – “Eu sei o que o Cliente quer. Posso muito bem coordenar as alterações com o Diretor de Arte ou alguém do Estúdio, pois eu represento o Cliente dentro da agência, não é mesmo? Quem se habilita?”

E o medo percorreu os corações da agência, e ninguém emitiu um som, e todos procuraram se esquivar.

“Vocês. Vamos fazer as alterações juntos.” Alguns foram escolhidos e, por isso, amaldiçoados. Almas torturadas.

Eis que sob a influência do Atendimento, que quis se igualar ao Diretor de Criação, todos trabalharam naquela tarde.

Layouts foram modificados, roteiros foram reescritos e tudo foi novamente colado em pranchas, para mais uma vez ser enviado ao Cliente.

E, ao final do dia, o mais belo Atendimento partiu apressado e empolgado, com os vouchers, para sua missão dizendo: “Ligo daqui a pouco, esperem aí, hein? Ninguém sai.”

O silêncio sepulcral que dominou o ambiente refletiu o medo e o desespero de todos. Era sexta-feira, afinal, e ninguém queria trabalhar no sábado. E nada do Senhor, o Diretor de Criação.

Mais uma vez a escuridão chegou, e dessa vez ninguém aguentava mais pizza, e por isso comida chinesa foi a escolha. Mas quentes continuaram os refrigerantes, pois negligentes foram os que se esqueceram de pedir gelo.

Então, no meio da noite, o Atendimento faz contato de um ambiente ruidoso – sons de talheres, copos e garrafas – dizendo que o Cliente deixara para aprovar no dia seguinte, porque naquele dia era aniversário da sogra e ele não tinha como faltar e, além disso, precisava da aprovação de um gerente qualquer, maldito seja, que saíra mais cedo e desaparecido ainda estava.

Os gritos que se seguiram fariam corar o mais iníquo dos homens e a mais pérfida das mulheres. E houve bateção de portas e de punhos, e chutadas foram as cadeiras e as cestas de lixo, porque era sexta-feira e ninguém ia poder beber das fermentações alcoólicas consagradas ao dia, e porque trabalhar no sábado é uma merda.

E assim terminou o quinto dia.


Na manhã do sexto dia o Diretor de Criação surpreendeu a todos. Chegou antes e esperou o mais belo Atendimento com o coração transbordando da mais divina ira.

O ar estava pesado e raios e línguas de fogo corriam pelo ambiente como serpentes inquietas.

“Como ousas interferir em meus Layouts???!!!” – fulminou o Senhor assim que o Atendimento surgiu sorridente e suave.

“Meu Divino Pai, não pudemos encontrar-Vos ontem de maneira alguma! Tudo tentamos e muito fizemos nós, Vossos filhos; mas havia urgência!”

“Urgência??? Urgência????? Há dias tu e teu Cliente falam em urgência, mas nada de urgente acontece. Estes filhos de Caim não conseguem aprovar o mais humilde dos spots! Tratam os layouts como o próprio Onã não os trataria, locupletando minha paciência e estorvando a boa vontade de todo mundo! Um dilúvio enviarei para esses bastardos da Babilônia aprenderem a ter consideração pelas pessoas e pelo trabalho delas.”

“Acalmai-Vos, ó Altíssimo. Se perdermos essa conta, pode ser que tenhamos de diminuir o pessoal.” – chantageou o Atendimento.

“Não mande teu Deus ter calma, ó maldito de retórica viperina.”

“Perdão, Divino Criador do Universo, mas acabo de vir do Cliente e está tudo praticamente aprovado, até o final do dia irá tudo para a produção.”

E a Produção Gráfica e o Estúdio se entreolham tomados por lágrimas de ódio.

“Como queres que acredite em tuas palavras? Toda essa semana apenas mentistes para teu Pai e atormentastes teus irmãos de agência.”

“Agora é para valer, Santíssimo. Já está tudo engatilhado e as alterações são apenas ajustes insignificantes.” – mentiu o Atendimento.

“Então vamos lá.” – suspirou o Pai da Criação.

E o caos e a correria surgiram no lugar: o Diretor de Arte e o Redator se atracavam com textos grandes demais para os layouts e ajustes de cores e fontes; o Estúdio lutou horas com os formatos tortuosos e com fotos que, quando não estavam em baixa resolução, vinham erradas do fotógrafo; a Mídia pedia a cabeça do Atendimento a cada mudança de veiculação, a cada cancelamento de mídia, a cada prazo perdido e prorrogado; a Produção Gráfica monopolizou os telefones e contatou todas as gráficas possíveis para segurar pessoal para rodar o material no fim de semana; e a Revisão de textos leu em horas o que não leu em semanas.

“Mídia, o Cliente quer saber se dá para remanejar o filme do telejornal de hoje para o programa de variedades de amanhã.”

“É claro que não!!!!!!!!!!! A emissora não remaneja nada em cima da hora, você sabe muito bem disso!” – desesperou-se a Mídia.

“O Cliente falou que não vai pagar.” – disse, de maneira afetada, o mais belo Atendimento.

“É claro que vai!!!” – rosnou a Mídia.

“Acho difícil, hein? Esse Cliente blá, blá, blá, blá, blá...”

E a Mídia ignorou o Atendimento e foi tratar de assuntos mais importantes, como os formatos de mídia exterior que foram passados errados pelos próprios fornecedores ou as reservas que ainda não haviam sido confirmadas.

E à medida que iam sendo abraçados pela noite, arquivos eram finalmente enviados por e-mail, FTP, CD e DVD. E discussões surgiam, e nomes eram execrados, e atitudes eram criticadas, mas no meio da madrugada todos foram embora, irritados, esgotados e desesperançados, pois no dia seguinte viriam as provas de gráfica e os filmless dos anúncios.
E assim terminou o sexto dia.



No sétimo dia, que Nosso Senhor pensara em guardar para descansar ou ir à praia ou dormir até o meio-dia, a agência estava de novo cheia.


E perguntou o Diretor de Criação: “Onde estão as provas de gráfica?”


Então Ele as tomou e as apreciou. E até que estavam razoáveis. Algumas carregadas no magenta, outras com pouco azul. Nada que fizesse desabar os céus.


Os textos também estavam basicamente corretos, com uma ou outra vírgula fora do lugar, o que seria sanado na gráfica e sem que o Cliente notasse.


Disse, pois, o Senhor: “Que leve tu, meu mais belo Atendimento, estas provas ao Cliente e que as faça aprovadas sem questionamento. E não digas ao Cliente de nossas observações e nada fale sobre as alterações na gráfica e sua possibilidade. Eu assim vos digo.”


“Sim, Potentíssimo, cumprirei Vossas ordens à risca.” – mentiu o Atendimento, que saiu apressado, mas sem esquecer os vouchers.


E todos se sentiram em júbilo ao serem dispensados pelo Diretor de Criação e a Ele ergueram preces e agradecimentos, já que a tarde do domingo, pelo menos, poderia ser salva.


Assim deveria ter acabado o sétimo dia, porém...


Enquanto em casa, acomodado em Seu trono celestial, bebendo da terceira cerveja do dia e esperando pela semifinal da copa das Doze Tribos, o Diretor de Criação recebe um telefonema do Atendimento: “Amantíssimo, tudo quase OK. O Cliente só pediu para mudar uns títulos e trocar a marca, que eles acabaram concordando que deve ser mesmo modernizada. Nas cores, eu disse que não daria para mexer para hoje, mas quem sabe amanhã, né? Já liguei para o Estúdio, para a Produção Gráfica e para a Mídia: muito pouco educados eles foram comigo. Acho melhor que o Senhor, meu Pai, reforce os telefonemas. Prometi para hoje mesmo, acho que é pouca coisa, só trocar umas besteiras. Se não der, pode ficar alguma coisa para amanhã. Será que dá para remanejar o filme do domingo? Alguns anúncios vão sair com a marca antiga, mas a gente muda o que der para mudar. Não consegui achar a Revisão. O Senhor acha que...”


Foi o bastante.


Pois mesmo o saco do Criador do Universo se enche e transborda.


E batendo com o punho no trono, com isso causando muitos relâmpagos, o Senhor despejou a fúria divina sobre o mais belo dos Atendimentos: “Que tu, ó alma de serpente, meu mais belo Atendimento, vá habitar o mais profundo dos infernos com todos de tua linhagem, onde ficarás mais perto das botas que lambes; e que lá reines como quiseres, no meio da mentira e da adulação, e possas idolatrar teu falso deus: teu Cliente. E que ninguém confie em tuas palavras, e que todos se entristeçam em tua presença e que fujam sempre que puderem, e que sejas alvo de piadas nas agências onde trabalhares, e que teus ouvidos queimem com as reclamações.”


E então o Senhor do Universo bateu o telefone, arrancou o fio da parede, desligou o celular e ligou pronta e cerimoniosamente o “foda-se” celestial.


“Que se dane o Cliente.”


E assim terminou o sétimo dia.





Oam patapai