quinta-feira, 9 de julho de 2009

Medos e delírios

"Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
I'm not sleepy and there is no place I'm going to."







Entrevistador: Todos os escritores que entrevistamos durante esses anos, quase sem exceção, afirmaram que não conseguem escrever sob a influência de bebidas ou drogas – ou que, pelo menos, aquilo que escreveram teve que ser reescrito mais tarde. Qual seu comentário a respeito disso?

Hunter S. Thompson: Eles mentem. Ou talvez vocês tenham entrevistado um espectro muito pequeno de escritores. Isso é como dizer: “Todas as mulheres que entrevistamos com o passar dos anos juraram que, quase sem exceção, nunca praticaram sodomia” – sem explicar que todas essas entrevistas foram feitas num convento. Vocês entrevistaram Coleridge? Vocês entrevistaram Poe? Ou Scott Fitzgerald? Ou Mark Twain? Ou Fred Exley? Faulkner disse que o que ele bebia o tempo todo era, na realidade, chá gelado e não whiskey? Por favor. Quem diabos vocês pensam que escreveu o Apocalipse? Um bando de clérigos absolutamente sóbrios?


Entrevista por Douglas Brinkley e Terry McDonell para a Paris Review.






Hunter S. Thompson talvez seja mais conhecido hoje como o autor de um livro que originou um filme com Johnny Depp do que como jornalista e criador do chamado “jornalismo gonzo”, onde, grosso modo, a objetividade é substituída pela subjetividade do jornalista, que se torna parte da própria matéria, sendo narrador em primeira pessoa de tudo o que acontece.



Dr. Thompson, como preferia ser chamado (após conseguir o título de “doutor” na Universal Life Church), nasceu no Kentucky, U. S. of A., em 1935. Prestou o serviço militar na aeronáutica, mas foi dispensado com honras em 1958, pois era “talentoso como cadete, mas não muito ligado nas políticas militares”.

Após sua saída da caserna, arriscou-se na imprensa e trabalhou em vários jornais, seja em Porto Rico ou no Brasil, até deparar-se com sua grande chance em 1965: escrever um artigo sobre os Hell’s Angels, a famosa gangue de motoqueiros de Los Angeles, que daria muito o que falar em 1969 graças a uma ideia infeliz e idiota dos Rolling Stones.

O artigo foi publicado, e logo ofertas para escrever um livro sobre os Angels pipocaram de diversos cantos, levando Hunter a se aprofundar no assunto e passar um bom tempo em companhia dos motoqueiros, mais ou menos um ano, até ser espancado por eles, que ficaram chateados quando se deram conta que não iam lucrar em nada com o tal livro.

Com o sucesso da empreitada, Dr. Thompson se torna conhecido e passa a escrever para diversos jornais e revistas, nesse meio tempo criando o estilo que ficou conhecido como “jornalismo gonzo”.




Seu trabalho mais conhecido, Medo e Delírio em Las Vegas, é publicado em 1972 (com ilustrações bizarras de Ralph Steadman), e traz a narrativa rápida, delirante, nervosa e paranóica de Raoul Duke (pseudônimo de Hunter), jornalista enviado a Vegas cobrir uma corrida (seguida por um congresso sobre a “ameaça das drogas” destinado a policiais) e que, para a jornada, leva seu “advogado samoano” e um porta-malas repleto de drogas de todos os tipos (e que tem uma das melhores frases de abertura de todos os tempos: “Estávamos em algum lugar perto de Barstow, à beira do deserto, quando as drogas começaram a fazer efeito.”).

O livro é um mergulho na América sob o ponto de vista de um alucinado narrador, que passa todas as páginas sob o efeito de um ou outro psicotrópico, tentando cumprir seu dever de jornalista e, ao mesmo tempo, descobrir o “Sonho Americano”.

Após o sucesso de Medo e Delírio, Dr. Thompson continuou com o jornalismo e publicando trabalhos em diversas revistas e jornais, principalmente na Rolling Stone. Com o tempo, tornou-se mais e mais recluso, evitando aparições e trabalhando em mais livros, sempre cercado de muitas armas, que eram suas paixões.





Para não quebrar a velha tradição dos escritores bebuns e doidões, Hunter S. Thompson deu cabo de sua vida em 20 de fevereiro de 2005, com um tiro nos miolos, enquanto falava ao telefone com a esposa. Seu filho e sua nora estavam em outro cômodo no momento, e pensaram que o ruído do tiro fosse o som de um livro caindo.


Como desejava Dr. Thompson, seu corpo foi cremado e suas cinzas foram, depois, disparadas de um canhão, junto com fogos de artifício, ao som de Mr. Tambourine Man, de Bob Dylan. Um final de acordo com a vida tresloucada do autor.


Em tempo:


A editora Conrad publicou alguns livros do Dr. Thompson no Brasil (Hell’s Angels, Medo e Delírio em Las Vegas, A Grande Caçada aos Tubarões e Rum: Diário de um Jornalista Bêbado entre eles) e existe uma edição de Medo e Delírio de 1984, chamada Las Vegas na Cabeça, que pode ser encontrada na Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br/).




Dois filmes foram produzidos com base em seus textos: Uma Espécie em Extinção (Where The Buffalo Roam, 1980), com Bill Murray e Peter Boyle, dirigido por Art Linson; e Medo e Delírio em Las Vegas (Fear and Loathing in Las Vegas, 1998), com Johnny Depp e Benício Del Toro no elenco e dirigido pelo ex-Monty Python Terry Gillian.







Por enquanto é só...



Oam patapai