"I need no burning crosses to illuminate my nights..."

A chuva que espantou a turba foi a mesma que o despertou: sentia agora o frio que avançava lentamente pelo corpo. Tentou se mover mas as pernas não reagiram; um braço estava inchado e pendia inerte, com a mão retorcida e os dedos intumescidos, quase negros. O outro braço, rasgado do pulso ao ombro, vertia sangue que se misturava à água que caia em gotas pesadas e granizo doloroso.
Ainda de bruços, procurou virar o corpo com o braço lacerado. O cotovelo cravou-se na lama e afundou um pouco: sua cabeça pendente foi de encontro ao solo, ao gosto da terra. Cuspiu fragmentos de tecido, esterco e alguns dentes. Fez nova tentativa, utilizando o resto de força que não ruíra com as pancadas, e conseguiu encarar a chuva, que lavou-lhe a sujeira dos olhos, enquanto bufava de dor e cansaço.
Descansou por alguns minutos, querendo ajustar os sentidos, e ergueu um pouco a cabeça, mirando as pernas insensíveis em posições inesperadas e desajeitadas. Apoiou-se no braço inchado e uma dor profunda cortou seu ombro e foi morrer do outro lado do peito, fazendo-o emitir um gemido – quase um guinchado, um miado estridente – não humano.
Naquela posição não conseguia manter os olhos abertos devido à chuva, mas abriu a boca arrebentada e deixou a água escorrer pela garganta, lavando a mistura acre acumulada. O gosto de sangue era mais forte que o de esterco. Após algum tempo expeliu uma boa quantidade de dejetos que haviam se juntado no estômago. Não se lembrava do que o haviam obrigado a engolir. Recordava pouco da surra, do chicote e das queimaduras, mas conseguia sentir as imprecações e os insultos, apesar do zumbido e do berro agudo dos tímpanos perfurados.
Ainda de bruços, procurou virar o corpo com o braço lacerado. O cotovelo cravou-se na lama e afundou um pouco: sua cabeça pendente foi de encontro ao solo, ao gosto da terra. Cuspiu fragmentos de tecido, esterco e alguns dentes. Fez nova tentativa, utilizando o resto de força que não ruíra com as pancadas, e conseguiu encarar a chuva, que lavou-lhe a sujeira dos olhos, enquanto bufava de dor e cansaço.
Descansou por alguns minutos, querendo ajustar os sentidos, e ergueu um pouco a cabeça, mirando as pernas insensíveis em posições inesperadas e desajeitadas. Apoiou-se no braço inchado e uma dor profunda cortou seu ombro e foi morrer do outro lado do peito, fazendo-o emitir um gemido – quase um guinchado, um miado estridente – não humano.
Naquela posição não conseguia manter os olhos abertos devido à chuva, mas abriu a boca arrebentada e deixou a água escorrer pela garganta, lavando a mistura acre acumulada. O gosto de sangue era mais forte que o de esterco. Após algum tempo expeliu uma boa quantidade de dejetos que haviam se juntado no estômago. Não se lembrava do que o haviam obrigado a engolir. Recordava pouco da surra, do chicote e das queimaduras, mas conseguia sentir as imprecações e os insultos, apesar do zumbido e do berro agudo dos tímpanos perfurados.

Não tivera intenção de se aproximar tanto da aldeia: já fora expulso de outras como aquela, sempre escorraçado como um animal doente. O frio e a fome, porém, haviam embotado seu instinto de preservação. Vacilara e deixara-se apanhar por supersticiosos e desesperados aldeões, que acharam naquele andarilho sujo e roto a razão de toda sua desgraça: a praga que os assolava devia ser um aviso dos céus.
As cicatrizas em sua testa eram como o próprio estigma de Caim; a orelha retalhada incriminava ainda mais: seria ele, afinal, o Judeu Errante, amaldiçoado a vagar pela Terra até o Juízo Final? “É ele, é ele... é o Judeu...” berraram. Já que em sua aparência nada encontraram que negasse sua suposta identidade: barba sebenta, cabelos longos e imundos, nariz quebrado – “...nariz de judeu, nariz de judeu...” – e a derradeira vestimenta malcheirosa e, por isso, característica, resgatada há dias de um cadáver de um velho.
Era “Ele”, era o Judeu Errante a levar desgraça e morte por onde passava. Era “Ele”, o desgraçado, o impuro, o maldito, o rejeitado, o culpado.
Era “Ele”, era o Judeu Errante a levar desgraça e morte por onde passava. Era “Ele”, o desgraçado, o impuro, o maldito, o rejeitado, o culpado.

O populacho então arrastou o andarilho para o centro da aldeia, para diante dum sacerdote que aspergiu água benta, misturada à saliva que cuspia, enquanto vociferava, pedia e ameaçava, recorrendo à clemência do Todo Poderoso e garantindo martírio ao apavorado bode expiatório, numa fúria beata e psicótica.
Condenação imposta e louvada, iniciaram prontamente a expiação que pedia suplício, sevícias e humilhação: chutes, cusparadas, chicotadas, xingamentos, maldições. Pancadas quebraram ossos. Metal perfurou e cortou carne. Empurraram fezes por sua garganta; queimaram seus pés e suas roupas, e apagaram o fogo com urina. Tentaram pregar suas mãos às costas.
Decidiram tirá-lo da aldeia. Levariam o desgraçado para queimá-lo longe dali, num lugar mais acima, no vale, nos vestígios de uma velha construção de colunas derrubadas e parcialmente enterradas – um templo arcaico, o lar de antigos demônios e certamente a toca de muitos males e maldições.
Arrastado por léguas, já havia desfalecido quando teve a espinha partida por uma pedra. Procuraram diminuir as agressões: precisavam dele vivo para que seus berros de dor e arrependimento fossem ouvidos no Firmamento. Assim, Deus aceitaria que eram um povo temente e obediente, servos e propagadores da Palavra.
Madeira foi reunida no caminho e, chegando ao local escolhido, puseram-se a montar a pira para a imolação. Alguns tentaram fazê-lo tornar à consciência, mas em vão.
Em alguns minutos poderiam ter um fogo alto, forte e bem visível, digno do pecado a ser expiado, mas a chuva veio subitamente e com força.
Condenação imposta e louvada, iniciaram prontamente a expiação que pedia suplício, sevícias e humilhação: chutes, cusparadas, chicotadas, xingamentos, maldições. Pancadas quebraram ossos. Metal perfurou e cortou carne. Empurraram fezes por sua garganta; queimaram seus pés e suas roupas, e apagaram o fogo com urina. Tentaram pregar suas mãos às costas.
Decidiram tirá-lo da aldeia. Levariam o desgraçado para queimá-lo longe dali, num lugar mais acima, no vale, nos vestígios de uma velha construção de colunas derrubadas e parcialmente enterradas – um templo arcaico, o lar de antigos demônios e certamente a toca de muitos males e maldições.
Arrastado por léguas, já havia desfalecido quando teve a espinha partida por uma pedra. Procuraram diminuir as agressões: precisavam dele vivo para que seus berros de dor e arrependimento fossem ouvidos no Firmamento. Assim, Deus aceitaria que eram um povo temente e obediente, servos e propagadores da Palavra.
Madeira foi reunida no caminho e, chegando ao local escolhido, puseram-se a montar a pira para a imolação. Alguns tentaram fazê-lo tornar à consciência, mas em vão.
Em alguns minutos poderiam ter um fogo alto, forte e bem visível, digno do pecado a ser expiado, mas a chuva veio subitamente e com força.

Desalentados, os exaltados puseram a se dispersar quando os fracos pingos deram lugar a enormes gotas e pedaços de granizo.
Os relâmpagos que marcaram o horizonte e o som das trovoadas tornaram a hesitante dispersão em fuga: teriam feito algo errado? Enfureceram o Senhor ao invés de apaziguá-Lo? Não haviam sido severos o suficiente? Seriam os aldeões os verdadeiros amaldiçoados?
O andarilho, abandonado à própria sorte, agora repassava seu calvário e tentava se mover, sobreviver. Deixou-se ficar de rosto para cima, recebendo a chuva com surpreendente gratidão. Percebeu que um dos olhos mal captava a luz em volta.
Com custo e dor, procurou se arrastar para um lugar coberto, uma moita à direita, mas o esforço foi demais. Parou para descansar e chorou.
Tentou se lembrar de alguma velha oração: palavras que ouvira um dia com desatenção. Vasculhava a memória: casamentos, funerais, palavras sussurradas pela mãe, celebrações diversas, litanias perdidas numa outra vida. Nada.
Não se recordava também das estranhas rezas, de estranhos povos, que presenciara várias vezes em sua vida de andarilho.
Nem foi capaz de evocar a ladainha das mulheres que haviam se prostrado em frente a sua casa, e que lá ficariam até que sua família fosse obrigada a fugir dali, sob pedradas e cusparadas.
Pensou em um deus, o deus de sua mãe – e não o de seu pai –, negligenciado desde muito e motivo de troça e escárnio; e no qual nunca confiara e em quem raramente acreditara.
Antes de desfalecer e se entregar, desesperado, rezou como pôde: com palavras improvisadas e sentimentos sinceros e pediu por sua vida e por sua alma; e implorou e, arrependido, prometeu. Jurou tornar-se alguém digno caso vivesse; e se por fim não fosse merecedor, que pudesse, ao menos, deixar algo de bom e positivo para trás.
A chuva amainou um pouco, e o andarilho foi diminuindo lentamente a respiração, até expirar sem ruído.
O corpo permaneceu no local por muitos dias, até que a natureza se encarregasse de dar-lhe fim. Os supersticiosos aldeões procuraram manter-se afastados, apenas algumas crianças mais destemidas e curiosas se aventuraram ao local. Algumas delas disseram, antes de apanharem dos pais temerosos, que parecia que bichos não haviam atacado o cadáver e que o cheiro que exalava não era de carniça: um cheiro esquisito, doce. O lugar tornou-se então proibido, amaldiçoado, sendo aos poucos esquecido.
Muitos anos depois, quando alguns exaustos cavaleiros, a caminho de alguma cruzada, pernoitaram no local, um deles reconheceu no solo uma silhueta humana claramente delineada, margeada por vegetação mais alta: em seu centro, ramos de pequenas flores coloridas se misturavam a uma gramínea bastante verde.
Acharam estranho e curioso. O que seria? Por quem seria? Foram embora no dia seguinte ainda intrigados com o fenômeno.
A notícia se espalhou.
Numa noite, depois que uns curiosos deixaram o local – indecisos entre o milagre e o embuste –, aldeões, liderados por um clérigo qualquer, se aproximaram e salgaram a terra com vigor, tentando apagar os últimos vestígios indesejáveis de uma aberração da natureza, de uma das artimanhas do demônio.
A princípio, o sal na superfície matou a vegetação; depois que penetrou no solo, impediu que qualquer planta voltasse a crescer no lugar durante anos e anos. Exceto no local da silhueta: o sal não afetou a mancha vegetal em forma humana.
Viajantes e camponeses decidiram então que era um milagre, e devotos e peregrinos tornaram a estrada que por ali passava um caminho obrigatório. E logo surgiram explicações e lendas sobre a silhueta, que foi atribuída a santos e mártires, a heróis e guerreiros, a anjos e patriarcas.
E não demorou muito para que alguns padres se apossassem do sítio e o declarassem como um marco da presença de Deus na terra e, por conseguinte, um bem da igreja; assim como não demorou para que uma capela começasse a ser erguida no local.
E não seria uma capela qualquer: pedras vindo de longe, enormes, fariam suas paredes; artistas dos mais talentosos produziriam seus afrescos; ouro e prata comporiam seu altar e os petrechos utilizados na Santa Missa: seria a maior já construída, e tudo sob a Graça Divina.
Mas os bárbaros, quando vieram, pouco se importaram; e saquearam tudo à sua volta, derrubando, queimando, estuprando, degolando e escravizando. E, num escárnio supremo, ainda utilizaram o canteiro de obras da capela como sede transitória, não podendo ver a silhueta, agora encoberta com os destroços de sua fúria.
E nem os mouros, gerações depois, se preocuparam em vasculhar os escombros, que foram aterrados para a construção de uma bela mesquita.
E muito menos os cristãos, ao reconquistarem território perdido e tomarem a mesquita, se lembraram das lendas e das histórias, e o prédio transformou-se – através do tempo – de mesquita em quartel, de residência nobiliárquica em mosteiro, de hospital em seminário, de prédio público em museu.
Mas há quem diga – velhos guias e antigos zeladores possivelmente –, aos sussurros e somente para uns poucos confiáveis, que num dos vários túneis construídos sob a edificação ao longo de décadas – um dos mais estreitos e esquecidos, sob o lado oeste do prédio – pode-se presenciar um fenômeno curioso: uma leve penugem de musgo de um verde muito claro, que parece crescer somente ali, no chão de pedra antiga, e cujo traçado lembra, estranhamente, uma silhueta humana.

That's all folks...
Oam patapai