quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Onze de outubro de 2008: Uli Jon Roth em Nova York - Postagem nova e melhorada



Acordei de excelente humor (o que é raro) no meu segundo dia em Gotham, por volta das nove da manhã. Havia dormido como uma pedra e me sentia muito bem. Rapidamente me vesti e desci para procurar um lugar para tomar o café da manhã.

Na verdade não escolhi nada, simplesmente voltei ao Gramercy Bagels e repeti o sanduíche de pastrami do dia anterior, agora com mais traquejo na hora de pedir (escolhi o bagel com cebola e uma salada muito boa, que vem em um copo plástico e cujo nome não me lembro), e sempre cercado pelos cadetes da academia de polícia de NY, os próximos a se juntarem aos “The New York Finnest”, como diz o distintivo.


Após este lauto café da manhã, parti para minha primeira “aventura consumista”: dar uma conferida na Strand Bookstore (http://www.strandbooks.com/), que fica na rua 12, esquina com a Broadway, perto do hotel, para minha sorte.

Caminhei calmamente, observando a cidade e seus habitantes naquela manhã de sábado movimentada. O clima estava ameno: ideal para perambular por aí, a esmo, mas consegui me controlar e mantive o rumo principal.

Desci a terceira avenida e virei na rua 14, em direção à Broadway. Cheguei à Union Square, lotada com pessoas espalhadas por toda sua extensão, uma mistura de jovens estudantes de cinema (a New York Film Academy fica por ali), pessoas entrando e saindo da estação do metrô da praça, vendedores ambulantes (livros, fitas VHS, bugigangas, camisetas, bolsas, comida), distribuidores de panfletos, turistas, pedintes, e uma menina de verde carregando um cartaz que não consegui ler direito). À minha esquerda vislumbrei uma das lojas da Virgin Megastore: ótimo, já tinha localizado um dos alvos da viagem, mas ficaria para outro dia.

Fui até a Broadway e desci para a rua 12, onde encontrei a Strand, com sua fachada gigante e toldo vermelho (“18 miles of books”, é o que diz).

O lugar é o verdadeiro paraíso para os apreciadores de livros e fanáticos do gênero: estantes enormes até o teto, bancadas com sugestões, tudo dividido por assuntos, uma beleza. Os preços são excelentes, muitos livros usados em ótimo estado e inúmeros lançamentos com valores abaixo da tabela.

Comecei pelos lançamentos e novidades, com calma, e fui progredindo em direção ao fundo da loja: cinema, história, literatura americana, literatura mundial, biografias, clássicos etc.

Fiquei umas duas horas enfurnado por lá, rodando em êxtase entre milhares de livros e, como era de se esperar, juntando vários deles debaixo do braço (alguns quilos).

Acabei com uma pilha ridícula diante de mim. Teria que fazer uma seleção cuidadosa. Não podia (ou não deveria) gastar tanto.

Depois de muita avaliação acabei por selecionar poucos títulos: uma biografia do Kafka, uma biografia do Jack Kerouac, uma biografia do Mack Sennet (diretor e produtor de cinema dos anos 10 e 20, que contratou Charlie Chaplin e deu a ele papel em seu primeiro filme, de 1914), dois livros de culinária, um exemplar do On the Road: The Original Scroll, do Jack Kerouac e uma edição comentada do Drácula, do Bram Stoker. Deixei muita coisa para trás. Pobreza é uma merda.

Marchei resignado para o caixa, mas ainda catei uma “sacola de mensageiro” no merchandising da loja.

Havia lido na rede que o atendimento na Strand era terrível, com funcionários mal educados e bastante grosseiros. Não tive o azar de me deparar com algum funcionário enfurecido, mas realmente o staff não era dos mais amistosos. Davam informação com uma indisfarçável cara de enfado, como se estivessem abrindo uma exceção terrível para você, um chato comprador em potencial.

Anyway, paguei e fugi para o ar da cidade.

Logo ao sair, e dar alguns passos sob o peso da minha mochila carregada de “literatura”, me deparo com a Forbidden Planet, que é uma loja famosa que vende livros/DVDs/quadrinhos/bonecos/camisetas/miniaturas/posters etc. relacionados a filmes de terror, ficção científica, fantasia, anime (a grande onda do momento) e super-heróis.

Como um de meus objetivos na viagem era encontrar alguns filmes de terror antigos, fiquei bem animado e decidi entrar. Decepção.

A loja é até legal, não se enganem, mas não é tudo o que imaginava: pequena, a parte de DVDs é minúscula (eu devo ter mais em casa) e só tinha anime.

Dei uma volta, tirei umas fotos (comentário gigante: enquanto rodava no muquifo, um ator americano chamado Jon Stewart entrou na loja com o filho de uns 10 anos. Ele é um comediante famoso na gringolândia e tem um programa chamado The Daily Show na TV. Bem, eu havia acabado de perguntar se poderia tirar umas fotos dentro da loja, e haviam liberado. Até aí tudo OK. O problema foi que o gringo me viu tirando a câmera do bolso e ligando; então, obviamente pensou que eu queria tirar fotos dele, ou com ele, ou do filho dele, sei lá, e me olhou com uma cara realmente desagradável. Percebi a confusão e, como o cara estava com o moleque e eu também não queria confusão e nem ficar me explicando para ninguém, simplesmente guardei a câmera de volta e esperei a figura sair da loja), achei um livro legal para comprar (que por acaso não é de terror nem de ficção científica) e resolvi voltar para o hotel para dispensar o butim.

Voltei por outro caminho, observando a cidade e seus peculiares habitantes.

Em Nova York, uma coisa excelente de se observar são seus cidadãos, dos mais diversos tipos e com gostos definitivamente peculiares para o vestuário.

Você encontra engravatados da Wall Street; patricinhas derivadas das Paris Hiltons da vida; punks (sim, com moicanos e tudo); rappers (trajados de acordo); pessoas idosas, muitas naqueles carrinhos motorizados que costumam aparecer nos filmes; gente fazendo cooper no meio da calçada; judeus ortodoxos; árabes em túnicas brancas; muitos latinos; e duas coisa que me chamaram a atenção especialmente: uma quantidade alarmante de gente doida na rua, falando sozinha (não, não era aquele celular no ouvido, não, eu prestei atenção), e diversos concorrentes a “louco assassino do ano”.

É sério. Vocês já devem ter visto fotos do cara que fuzilou John Lennon: olhar vago, pinta de deslocado e aqueles óculos enormes. Pois é, vi muitos destes em NY. Sendo que um em particular foi o melhor de todos: devia ter um metro e oitenta, mais ou menos, magérrimo, com uma camisa branca, canetas saindo do bolso da camisa (juro, não é sacanagem), calça marrom, o pouco cabelo lambido na testa, óculos enormes, mãos trêmulas e aquele olhar perdido, típico de gente biruta. Um misto de seminarista tarado com nerd punheteiro.

Era fácil imaginá-lo em casa, com o armário coalhado de quinquilharias, lembranças bizarras, recortes de jornal espalhados por todo o canto, um diário com escrita miúda e uma TV antiga no canto da sala, na frente da qual passa as noites se masturbando enquanto assiste a programas religiosos. Assustador. Deveria ter fotografado o dito cujo, discretamente, é claro.

O número de figuras bizarras e, de vez em quando, inquietantes nas ruas da Grande Maçã não se limitava aos lunáticos evidentes; tem de tudo, pelo menos na aparência: gângsteres, membros de gangues, terroristas, carteiros atiradores, viciados etc., principalmente no metrô.

Mas você se acostuma, e passa a “apreciar” a fauna, o que ajuda a matar o tempo, principalmente nas transferências subterrâneas.

Cheguei ao hotel com as pernas doendo absurdamente (achei que tinha destruído minhas panturrilhas para sempre, já via muletas se aproximando).

Derrubei a carga no cubículo a mim designado (quarto 520) e fui atrás de almoço. Encontrei outro restaurante bem perto do hotel e me sentei para um tradicional brunch nova-iorquino: ovos com filé. Excelente.

Ainda dei uma volta pelas redondezas após sair do restaurante, para ajudar na digestão, mas fui para o quarto dar uma descansada antes de partir em direção a “uptown”.

Planejara ficar uma meia hora enrolando no quarto, dando uma olhada nos livros, para então tomar o rumo do local do show. Acabei numa dormida involuntária que por pouco não esculhamba meu planejamento.

Acordei e parti apressado em direção ao objetivo principal do dia: Uli Jon Roth and friends, no B.B. King Bar Grill, na rua 42.

Decidi seguir pela quinta avenida e fui subindo por Manhattan. A tarde estava excelente, com o trânsito bem movimentado e muitos de nós (turistas) atravancando calçadas, lojas e restaurantes, sempre munidos de câmeras diversas para fotografar ou filmar familiares, amigos e agregados, ou simplesmente registrar a cidade.

Curiosidade: durante toda minha estada, cruzei com muitos pais e mães empurrando carrinhos de bebê pelas ruas, e notei que quase sempre as crianças que estavam acordadas mantinham os olhos vidrados para cima, observando curiosamente, e realmente pude constatar o porquê (no começo pensei apenas que os moleques estivessem grogues): o “céu” de NY é demais. Digo com aspas porque não é apenas o azul ou as nuvens, são os arranha-céus que chamam a atenção, recortando o céu e marcando o visual dos pedestres como se andassem em vales ou cânions. Algumas vezes me lembrava das descrições de arquiteturas ciclópicas e intrincadas de H.P. Lovecraft e elas pareciam se encaixar perfeitamente naquele ambiente (ele viveu por um breve período em NY, chegando ao Brooklyn em 1924; não sei como era a cidade na época e se isso influenciou em alguma coisa, mas tudo bem).

Cheguei à rua 42, mas ainda havia tempo de sobra até começar o show, por isso resolvi fazer um reconhecimento dos arredores: azar o meu.

Perambulando pelas ruas encontrei uma tabacaria e entrei. Escolhi uns três charutos para consumo posterior e comprei um cachimbo para Mr. Nascimento, que tinha pedido que levasse, além de sua encomenda principal, “quinquilharias” para seu deleite.

Até aí, tudo bem, o problema foi que, continuando o reconhecimento, me deparei com uma das filiais da Barnes & Noble (http://www.bn.com/), uma cadeia de livrarias que também possui, em algumas lojas, uma grande seleção de dvds. Dancei bonito.

Entrei pensando em apenas olhar e matar o tempo, mas quando cheguei na seção de dvds me lasquei: perdi o controle e estourei o orçamento. Achei muitos títulos que são inéditos no Brasil, muitas edições especiais, muitos filmes de terror antigos, filmes mudos clássicos. Foi bem difícil selecionar e deixar boa parte da colheita para trás. Droga.

Alguns dólares mais leve depois, bati em retirada para o local do show: B.B King Bar and Grill, na rua 42, entre a sétima e a oitava avenidas.
Cheguei lá uns 40 minutos antes do evento e fui ao guichê pegar o ingresso que havia comprado ainda no Brasil, pela web.

O lugar é bem legal: fica no subsolo e tem um longo balcão perto da entrada, num nível um pouco mais elevado que o espaço à frente do palco, e com uma excelente visibilidade do mesmo. De acordo com um garçom, a casa comporta 600 pessoas sentadas (quando o show é com mesas) ou 2.000 em pé (sem mesas). Nesse dia, particularmente, seria com mesas, no esquema de quem chega primeiro pega os melhores lugares.

Imediatamente ao entrar, fui interceptado por um garçom que me perguntou onde queria ficar, se estava acompanhado etc. Como estava só, o cara me conseguiu um lugar ótimo, em frente ao palco, duas mesas a partir dele e na companhia de três americanos (é isso mesmo, as mesas não são “exclusivas”, comportam umas 6 ou 8 pessoas, e você as compartilha com estranhos).

Bom, como era o “novato” na mesa, me apresentei e sentei. Os caras eram bem tranqüilos e foram bastante simpáticos: um deles havia namorado uma brasileira e conhecia algumas palavras, expressões e palavrões; outro estava com uma camisa muito velha do Scorpions (“...I kept this from junior high...”) e encontrava velhos conhecidos o tempo todo; o terceiro estava preocupado com a esposa (ligou para ela umas duas vezes) que, me pareceu, não estava muito contente com o fato do sujeito estar no show (“...I have to take my kids to school tomorrow, you know...”). Esqueci o nome deles agora, mas acho que um era Mike; bom, não interessa. Pedi uma Guinness ao garçom, um petisco de camarão e esperei, batendo papo com os gringos.

Exatamente às 20h (a pontualidade foi incrível) as luzes se apagam e soa a introdução.Só posso descrever o show de uma maneira: INACREDITÁVEL...

Para quem não sabe: Uli Jon Roth foi guitarrista do Scorpions, banda alemã de heavy metal, durante os anos 70, com a qual gravou 4 discos de estúdio. Em carreira solo desde 1979, ele estava ali para apresentar seu mais novo disco, Under a Dark Sky.

Mas vamos ao show: eram dois vocalistas, Mark Boals, que já cantou com o Malmsteen (que, aliás, é fã do Uli Jon Roth), e Liz Vandal, uma mina que eu não conheço, mas que canta muito (interessante: nos duetos de voz, ela fazia voz grave, enquanto o Mark Boals fazia os agudos), além de baixista, guitarrista-base (que fazia alguns duetos com o Mestre), tecladista e baterista.

O velhinho, é claro, estava tocando muito, para caralho ou mais, fantástico.Após as duas primeiras músicas, Uli Jon conversa um pouco com o público e diz que, após tocarem umas músicas do disco novo (muito boas por sinal), obviamente executarão alguns clássicos do Scorpions para o deleite de todos, depois do que se seguirá a parte “and friends” do show, com convidados subindo ao palco para “duelar’ com o alemão.

O show seguiu arrebentando e deixando o público hipnotizado.

Após de algumas versões extraordinárias de músicas do Scorpions, começando com Fly to the Rainbow e incluindo Pictured Life, In Trance e We`ll Burn The Sky (esta cantada pela tal Liz Vandal, e que foi uma das melhores coisas que eu já presenciei), começam a entrar os convidados.






Primeiro, Chris Caffery, do Savatage, sobe para uma versão absurdamente maravilhosa de Catch Your Train (Mark Boals arrepiando). Depois entra um tal de Joe Stump, que não conhecia, mas que tocava muito. Infelizmente, sua guitarra deu pau em cima do palco, o que fez com que Uli Jon tivesse que improvisar um pouco até o cara conseguir tocar (o Chris Caffery, que também estava no palco, ainda tentou emprestar sua guitarra, mas o tal Stump recusou). Problemas sanados, mais um som para a galera. Detalhe: várias músicas do Jimi Hendrix foram executadas na noite.

O melhor, porém, ficou para o final: Alex Skolnick, do Testament, sobe ao palco para encarar o alemão em uma versão estendida e linda de All Along The Watchtower, seguida de outro som do Hendrix (o Uli Jon Roth é tão fanático pelo Jimmi que foi casado com Monika Dannemann, a última namorada e a última pessoa a ver Hendrix com vida).





Encerrados os encores e as jams, com o público implorando por mais, o Mestre se despede e indica que subirá até o saguão para fotos e autógrafos.

O show começara exatamente às 20h, e acabara às 22h (ainda haveria outra apresentação no lugar, de outra banda, cujo público já se encontrava enfileirado na calçada em frente ao B.B. King); cerca de 15 minutos antes do fim, o garçom já traz sua conta, sem discussão.

Subi rapidamente, seguido por um dos gringos, e comprei o cd mais novo do alemão, enquanto a galera começava a se aglomerar esperando Uli e o resto da banda.

O alemão chegou junto com o Mark Boals, e consegui o autógrafo dos dois, no cd, é claro. Depois, entrei na fila para tirar umas fotos e, após consegui-las, fui para a calçada, incentivado pelos seguranças do local, bastante educados, mas com uma disposição pouco amistosa ou tolerante.

Do lado de fora, ainda ajudei o gringo que vinha na minha cola a tirar umas fotos e consegui falar com o Skolnick, com o Chris Caffery (que disse que iria ao Brasil em junho ou julho de 2009) e com a Liz Vandal.

Dei um tempo por ali, troquei endereço de e-mail com o gringo e decidi que era hora de voltar para o hotel.

Saí então andando empolgado pela noite nova-iorquina, apreciando Times Square e o movimento entre teatros e restaurantes, e decidi comer num daqueles carrinhos de comida árabe que se espalham pela cidade. Comprei um churrasquinho safado (esqueci o nome, mas não passa de um churrasquinho safado) com pão e uma garrafa de suco e fui comendo. Resolvi descer pela Broadway até o hotel. No caminho, verifiquei que ainda estava com fome e parei em uma deli (de delicatessen, mas que nos EUA designa um tipo de loja que vende quase tudo: comida pronta, enlatados, frutas, jornais, pães, leite, refrigerantes, cerveja, loteria etc.) para comprar algumas guloseimas.

Cheguei ao Hotel 17 cansado mas feliz, com minhas pernas reclamando e latejando (já iria me acostumar).

Peguei um pouco de gelo no saguão, subi, tomei uma ducha, comi alguma coisa, dei uma conferida no que arrebatara durante o dia, calculei meu prejuízo e decidi ir dormir. Pensar em problema com grana, só no dia seguinte.

Apaguei.



Oam Patapai

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Back in the New York Groove - Remaster Edition

I bid you welcome...


Bom, começa hoje a reedição dos posts de Nova York, agora mais detalhados e com acentos e cedilhas.


Enjoy...



Como alguns poucos já sabem, saí de Brasília às 18h do dia 9 de outubro num maldito airbus da TAM (apertado? Não, não...) com destino a São Paulo (Guarulhos), na minha primeira e única escala rumo a Nova York, ansioso e pronto para minhas primeiras férias de verdade.

O vôo foi normal, nada de excepcional (fora o fato de que eu detesto voar), e para minha surpresa, não precisava pegar a bagagem em Sampa: ela ia direto pros States (não sabia se isso era bom ou ruim: acabou sendo bom). Mas, pelo menos, teria uma folga da mochila tão abarrotada quanto pesada pelo meu cabedal. Em São Paulo, após esperar algum tempo, adentrei a sala de embarque para aguardar a hora de “abordar” o avião da Japan Air Lines a mim designado e comecei a me preocupar levemente: havia uma quantidade expressiva de judeus por ali. Será que iam para Nova York? E em que avião? Não que tenha algo contra judeus, mas a idéia de viajar num avião cheio deles - nesse exato momento da história, onde seqüestros e bombas se tornaram “corriqueiros” - me deixou cabreiro.

Continuei observando a fauna local e tentando adivinhar quem iria no meu avião: obviamente muitos dos japoneses por ali, já que meu vôo para NY era uma escala da travessia para Tóquio; alguns judeus provavelmente; um grupo de peruas talvez; uma mulher absolutamente inconveniente, falando alto e vestida com um uma roupa colada e uns três números menores (reclamando da temperatura e repetindo à náusea que NY era “liiiiiiiiiiinda, vocês vão adorar, adorar”), tomara que não.

Continuei minha avaliação, e qual não foi minha surpresa quando vislumbrei entre os presentes o Dr. Ulisses Guimarães, que foi presidente da Câmara dos Deputados e Ministro da Indústria e Comércio do Brasil. Pensei em como ele andava sumido e como era inusitado encontrá-lo ali, em Guarulhos, esperando um embarque internacional.

Pensando bem, era não só uma coisa inusitada ou surpreendente, mas uma impossibilidade, pois o Dr. Ulisses morrera em 1992; se bem que seus restos nunca foram encontrados. Aparentemente, a morte (ou desaparecimento) havia feito bem a ele: estava mais magro, mais corado e bem mais alerta do que a última vez em que o vira na TV. Não consegui me decidir se queria que fosse no meu vôo ou não.

Enquanto avaliava as possibilidades de companhia tão peculiar, tão paranormal, finalmente chamam para o embarque, com a primeira classe e a classe executiva na frente, e a classe econômica (nós mortais) por último.

A troca do vôo da TAM, um maldito airbus, pelo 747-400 da Japan Air Lines foi um verdadeiro choque: para melhor e, como não poderia deixar de ser, para pior.O avião é gigantesco, o serviço de bordo é bastante cordial e mesmo viajando na classe econômica tive direito a TV na poltrona, um grude excelente e até videogame (aliás, existem duas câmeras no exterior do avião uma em baixo e uma no nariz, e é possível acompanhar a decolagem e o vôo, mas como a viagem foi noturna, só assisti à decolagem e a um pouco da chegada). Essa é a parte boa. Agora a ruim: não consegui lugar no corredor e minha “bela” poltrona era tão apertada que dormir era simples e totalmente impossível; sem falar que a mulher biruta e vulgar da sala de embarque ficou na poltrona EXATAMENTE atrás da minha (...ah, o destino e seu senso de humor...); e nada do Dr. Ulisses.

Minha maratona de 9 horas para Nova York começara: de pé esquerdo, mas tudo bem.

Fiquei sentado entre duas senhoras japonesas, digo, uma era mesmo japonesa, a outra era nipo-brasileira, descendente, e ambas iam para Tóquio. A nipo-brasileira (não perguntei o nome) foi bastante simpática e me ajudou a desvendar os pratos que foram servidos (aliás, muito bons). Se a viagem foi ruim para mim, que mal cabia na poltrona, para elas não foi muito melhor.

Para piorar, nossa querida “sem noção” falava alto e futricava no bagageiro acima com uma freqüência deveras irritante.

Dormir era impossível, logo, decidi assistir a um filme, sim, sim, filme. Eram vários à disposição, e escolhi o novo do Indiana Jones. Não sei se era meu cansaço que começava a acumular, ou as dores causadas pela posição em que era obrigado a ficar, mas o filme estava bastante chato, sem graça: parecia um pastiche dos anteriores. Desisti lá pela primeira hora.

Resolvi mudar para a música. Ouvi um pouco, e logo uma comoção próxima intimou minha atenção: minha cruz falastrona e espaçosa resolvera que queria trocar de lugar. A poltrona que não era confortável para mim também não era para ela (“...nossa, muito ruim, num tô agüentando, gente, que quié isso...”). Convocada a chefe das comissárias, tentaram encontrar um lugar para a queixosa (ah, a cordialidade e a polidez nipônicas) na aeronave lotada. Pensei em sugerir um lugar no lado de fora, mas poderia ser mal interpretado.

Como manda o bom azar (...esse comediante...), o local encontrado era duas cadeiras à frente da minha, à esquerda, perto da porta de emergência (parece que o tal lugar não é ocupado com freqüência, devido à posição, sendo na verdade ainda mais estreito que a cadeira econômica, mas tem um bom espaço para as pernas, que parecia ser o motivo da chateação da louca). Dez minutos depois, a maldita porta-voz de puteiro se arrepende e bate em retirada para seu antigo poleiro, com o devido estardalhaço (“...ai, ali não, ali não, é pior, meu Deus, que quié isso...”). Aumentei o volume do iPod.

O dia foi se aproximando e a exaustão se instalou totalmente. Antes do café-da-manhã ainda consegui cochilar uns 20 minutos numa posição digna da yoga, mas pouco adiantou.

Aterrissamos no JFK (o aeroporto, e não o filme do Oliver Stone), em Queens, por volta das 7 da manhã (horário local). Agora era desembarcar, ir atrás da bagagem torcendo para que não a tivessem enviado para Bora-Bora e encarar o serviço de imigração gringo e a respectiva aduana.

Fiquei imaginando a paranóia dos funcionários americanos pós 11 de setembro: iriam me obrigar a abrir a mochila estufada que carregava? Tirar a roupa? E se implicassem com meus petrechos pessoais? Ou com meu dinheiro (era muito, ou era muito pouco)? Enquanto aguardava na fila ia elaborando novas maneiras de se constranger um turista, observando a impaciência e a rudeza dos funcionários do aeroporto (“...number twelve please...over there...I said twelve...ten, eleven, twelve...no sir, TWELVE...yes...wait behind the yellow line...BEHIND, sir...yes, yes...thank you...”). Chegou a minha vez de seguir para o guichê (“...sixteen, sir...thank you”) e fui tentando parecer calmo:

- Good morning, sir, how are you?

- Just fine, thank you.

- It’s your first time in the country? (Olhando o passaporte e depois colocando-o numa máquina.)

- No, I came here about…

- Why are coming to the United States? (Olhando o passaporte e conferindo com minha cara.)

- Turism.

- How long are you staying?

- Twelve days.

- OK, sir. You can go. Thank you.

Oba, uma etapa já foi, imigração, agora é a alfândega. E não se deixem enganar pelos “thank you”, eles foram formais, gelados, indiferentes.

Progredi em direção a um funcionário da alfândega, que estava sentado folgadamente em cima de uma mesa e indicava a uma família exausta (pais e dois filhos pequenos), displicentemente, a direção que deveriam seguir: direto para a inspeção de bagagens, umas mesas um pouco para trás do sujeito, onde enormes funcionários aduaneiros já reviravam os pertences de algum coitado.

O casal com dois filhos pequenos era obviamente suspeito, já que trazia três malas grandes, sacola com fraldas e mamadeiras e, para completar, um ameaçador carrinho de bebê. Eles pediram por isso.

Me aproximei:

- Hi, sir. How are you?

- Fine, thank you.

- That’s all your luggage? (Apontando para minhas duas mochilas.)

- Yes.

- So, you’re a light traveler.

- I think so…

- That’s Ok, sir. You can go. Have a nice stay.

Agradeci e fui em frente, pensando que era pegadinha. Mas não. Fora liberado sem mais nem menos. Acho que não tenho cara de terrorista nem de imigrante ilegal.

Foi um verdadeiro alívio, pois imaginava muita chateação com os gringos. Alguém havia me contado (não me lembro exatamente quem) sobre sua experiência para entrar nos Estados Unidos, e isso me deixou um pouco apreensivo. Pelo relato, os caras eram muito rigorosos, barrando a minúcia policial em muito, e apegados a detalhes. Eram tão minuciosos que algumas pessoas poderiam se sentir obrigadas a apresentar o funcionário aos pais, tamanha era a "intimidade". Anyway, já estava fora do alcance deles.

Perdi alguns minutos tentando me localizar e parti para procurar uma condução para o hotel. Achei o tal do Air Train, um trem que faz o circuito completo ao redor do aeroporto, e embarquei ainda tentando adivinhar onde saltaria para pegar a van que me largaria no hotel. Com um pouco de sorte desci na plataforma certa e encontrei o guichê da Super Shuttle, onde uma dama com cara de cantora de blues me fez pagar (“...it’s nineteen dollars, honey...”) por uma carona. Tive que aguardar enquanto iam “lotando” a van, e fui comprar algo para beber, mas a espera foi curta. Em poucos minutos chamaram meu número e partimos para Manhattan sob o sol de outubro.

Os 40 minutos de viagem até o hotel foram desafiadores. Passada a adrenalina da recepção no país, o esgotamento das quase 20 horas sem dormir chegou para ficar. Lutei para permanecer acordado: lasquei volume no iPod.

Consegui chegar ao hotel alerta, mas ainda eram 10h da manhã, e o check-in era apenas às 15h (...ah, fuck...). O recepcionista do hotel porém já estava acostumado e preparado para estes “imprevistos” e pôs uma identificação nas mochilas e guardou-as no depósito, onde ficariam calmamente esperando meu retorno.

Como havia muito tempo para matar até a hora H, saí procurando um lugar para comer.

Uma coisa boa em Nova York é que existe praticamente um restaurante/deli/café/diner/bakery em cada quarteirão. As opções são quase inesgotáveis.

Meu hotel ficava na rua 17, entre a segunda e a terceira avenidas (no chamado Gramercy District), com um nome bem peculiar: Hotel 17 (criativo, não?). Progredi em direção à terceira avenida e tomei a direção “uptown”, subindo da rua 17 para a 18, 19 etc. Uns três quarteirões depois me decido por uma bakery (a padaria deles): Gramercy Bagels.





Entrei e me misturei a um bando de cadetes da academia de polícia de Nova York: a tal academia era por perto, pois de manhã e à noite era praticamente impossível não localizar grupos de cadetes percorrendo as ruas em seus uniformes cinza e suas sacolas pretas com o cassetete acoplado ao lado.

Escolhi um sanduíche no cardápio suspenso acima dos atendentes e aí começou meu aprendizado acerca das peculiaridades alimentícias americanas. Sim, porque é comum, ao se pedir um sanduíche ou um prato, ter que especificar tudo o que se quer: qual tipo de pão; qual tipo de salada; qual tipo de carne; de molho; com ou sem pimenta; se o café é descafeinado; se o leite é integral; light ou com baunilha; qual sopa; se o chocolate é com nozes, avelãs etc.; o ponto da carne; o ponto dos ovos; quantos ovos na omelete, e por aí vai.

O atendente ouve meu pedido e começa: qual bagel eu quero? (Bagel é um pão bastante comum nos States, principalmente onde a imigração judaica é mais presente.)

- Como assim?

- Normal, com cebola, com alho, com farinha integral, com isso com aquilo?

- Pedi normal.

- Qual a salada?

- Lá vamos nós de novo: qualquer uma.

- Pode ser sauerkraut?

- Pode.

- O senhor quer o pastrami assim ou assado? Esse sanduíche permite que o senhor escolha entre estes tipos.

- Desisti: olha, eu sou um turista, e não estou acostumado com isso, pode fazer do jeito que você quiser.

- Ok, senhor, vou caprichar.

E caprichou mesmo, o sanduíche estava delicioso. Lavei a goela com um chá gelado de limão e me senti muito melhor, pronto para a primeira missão na Grande Maçã: comprar uma máquina fotográfica para mim.

Deixei a bakery e rumei em direção à rua trinta e quatro esquina com a nona avenida, onde fica a B&H, uma loja de eletrônicos famosa entre os muambeiros/turistas.

Caminhei sem pressa, admirando a cidade e curtindo a manhã. A temperatura estava bem agradável para quem esperava um frio dos diabos ao chegar. Tudo certo até agora, tudo bem (ou quase).

Quase quinze quarteirões depois, a poucos metros do local escolhido, minhas pernas resolvem me trair: câimbras alucinantes explodem na panturrilha esquerda. Não estava acreditando. Justo agora? Longe do hotel? Era só o que faltava.

Arrastei-me por mais alguns quarteirões puxando a perna rebelde (...já já passa, não é possível...) mas aí a que era obediente também se amotina: câimbra nas duas panturrilhas. Puta que pariu. Alguém estava rindo em algum lugar.

Levei uns 30 minutos para percorrer os últimos três ou quatro quarteirões, como uma múmia, andando como se estivesse, a todo custo, evitando uma diarréia, me apoiando em latas de lixo e postes para tentar recuperar o comando das pernas. Consegui chegar, milagrosamente, à loja e entrei. Estava entupida de gente, na grande maioria turistas, uma verdadeira sucursal da Torre de Babel.

A loja em si é bem interessante e merece um parágrafo: em primeiro lugar, pertence obviamente a judeus, já que noventa por cento dos funcionários são judeus; em segundo lugar, o “acervo” é realmente estonteante, parece ter praticamente tudo no que diz respeito a eletrônicos e equipamentos fotográficos e óticos; e o sistema de venda também é ótimo, com esteiras correndo abaixo dos balcões e levando a mercadoria do depósito para o vendedor e para o cliente, para depois ser enviada para o balcão onde o comprador a retira antes de sair da loja. Uma “linha de montagem” bem peculiar e funcional.

Bom, procurei pelas câmeras digitais (que estavam no segundo andar, é claro, para facilitar minha vida) e entrei na fila para as “point and shoot” câmeras, as famosas “câmeras de turista”, fáceis de utilizar e compactas.

Aguardei um pouco e fui atendido finalmente por um senhor judeu bastante simpático (...not expensive, not expensive...) que ouviu minhas “detalhadas” especificações (preço e marca) e conseguiu exatamente o que eu queria. Perfeito, e em menos de cinco minutos. Comprei ainda algumas bugigangas (memória, capa, pendrive) e fui encaminhado ao caixa, onde validei um vale-brinde que o cara do hotel me deu e ganhei uma sacola, bem vagabunda, com o logotipo da loja.

Agora a dolorosa volta para o hotel.

Por algum delírio inexplicável, ainda pensava em caminhar de volta, mas foram necessários apenas alguns passos fora da loja para me convencer de pegar um táxi.

Consegui alcançar a beirada da rua e apanhei um dos famosos, e numerosos, táxis amarelos nova-iorquinos, um dos ícones da cidade. E realmente eles parecem estar por toda a parte: é praticamente impossível não ver um táxi amarelo nas ruas. Aliás, nas ruas os carros de passeio parecem ser uma minoria. Uma minoria oprimida, pois os taxistas têm uma percepção única a respeito das leis de trânsito e das regras da boa convivência, ou seja: eles são malucos.

Chega a ser perigoso chamar um táxi. O trânsito pode estar congestionado, o sinal pode estar fechado, pode ser um cruzamento, o taxista pode estar do outro lado da avenida, ou na direção contrária à sua, que, se você chamar, rá rá rá, lá vem ele, cortando meio mundo, fazendo um retorno absurdo, freando na frente de caminhões enormes, para te pegar. É inacreditável. Indescritível. Pode saber: ouviu buzina e gritaria, tem sempre um táxi no meio.

Entrei no táxi gemendo e indiquei ao motorista (Gupha era o nome da figura, com aquele sotaque caricato que parece gozação) o endereço do hotel.

Cheguei são e salvo (e dolorido) e onze dólares mais pobre (gorjeta incluída), mas ainda faltava tempo para o check-in. Praticamente me arrastei para fora do táxi e resolvi almoçar num restaurante numa esquina perto do hotel, chamado Gramercy Cafe (nome original, não?).







Manquei como pude até o lugar e sentei, me preparando para uma boa refeição (tomara). Pedi um “blue fish” com purê de batata e brócolis e torci para ser bom.

Uma curiosidade dos restaurantes em Nova York é que, quando você se senta, imediatamente um garçom traz um copo com água e gelo. Não é preciso pedir. É compulsório. Outra coisa interessante é que vários pratos costumam ser servidos com uma entrada de salada ou sopa, já incluída no preço: não adianta dizer que não quer, o preço é o mesmo, azar o seu.

O prato chegou e era muito bom, ainda bem. Tentei comer devagar para apreciar o sabor e enrolar até poder fazer meu check-in.

Outra curiosidade nova-iorquina: assim que você termina de comer, o garçom vem e pergunta se quer mais alguma coisa, se não quiser, ele já deixa a conta na mesa, sem você pedir. Ou seja: saia logo que tem gente pra sentar. E isso aconteceu em todos os lugares onde ranguei.

Levantei com cara de dor e gemendo, para divertimento dos garçons, e fui lenta e pausadamente em direção ao hotel: hora de check-in, finalmente.

O pessoal da recepção foi gentil e amistoso. Fiquei um pouco apreensivo porque havia feito reserva pela internet e não responderam meu e-mail enviado uma semana antes, mas deu tudo certo. Consegui um quarto bom, limpo e minúsculo, onde cabia a cama, uma escrivaninha e uma pia (banheiro coletivo). Nada de armário, só uns cabides num suporte ao lado da porta. Pelo preço estava ótimo (as tarifas de hotel em NY são muito altas), e eu não pretendia ficar “curtindo” o hotel mesmo: o negócio é rodar pela cidade. Quanto ao banheiro, havia dois no meu corredor, um bem em frente ao quarto, que eram mantidos limpos pela equipe do hotel (deviam saber quando alguém os utilizava, pois sempre tinha alguém limpando e preparando para o próximo hóspede).







Finalmente, após quase 30 horas sem dormir, tinha uma cama à disposição. Tomei um banho e literalmente apaguei até as 23h.

Acordei desnorteado e faminto. Resolvi descer e dar uma volta pelas imediações, fazer um reconhecimento do terreno, e procurar algum lugar para comer. As pernas ainda doíam, mas o pior já passara, apenas torcia para as câimbras não voltarem. Acho que foi temerário sair assim, mas não dava para ficar no quarto: a cidade me chamava.

Desci e perguntei ao cara da recepção se era seguro andar pela região. Ele me garantiu que os arredores eram tranqüilos.

Saí do hotel, virei à esquerda e fui em direção à segunda avenida. Tomei a direção “uptown” e saí marchando calmamente, observando a noite de NY numa sexta-feira.

A noite estava ótima, nada de frio, um clima muito bom para andar (o frio de rachar só me achou na quinta-feira seguinte). Rodei a esmo até as duas da manhã e realmente me pareceu uma vizinhança tranqüila, com bastante gente na rua, indo para boates, pubs e, depois, procurando um lugar para comer, alguns já bastante tortos pelos efeitos da intoxicação alcoólica tradicional do começo do fim de semana.

Descobri um “diner” bem legal na esquina da segunda avenida com a rua 23, chamado Cosmos Diner (http://www.cosmosdiner.com/), que fica aberto 24 horas.




Para os que desejam saber o que é e como é um “diner”, segue uma definição, em inglês. Se virem para traduzir: “diner is a prefabricated restaurant building characteristic of North America, especially on Long Island; in New York City; in New Jersey, and other areas of the Northeastern United States. Diners are characterized by a wide range of foods, mostly American, a casual atmosphere, a counter, and late operating hours.”

O lugar é daqueles que se vê bastante nos filmes: mesas e balcão de fórmica, ambiente descontraído, cardápio bem variado. Pedi um prato de camarão (sim, sim, camarão às duas da manhã, sou um cara destemido) que estava delicioso e fiquei fã do Cosmos Diner. Voltei algumas vezes, sempre de madrugada, e já estava ficando amigo do garçom e do cara do caixa.

Dei mais umas voltas para ajudar a digerir o camarão (as pernas se comportaram bem, nada de câimbra, mas as dores me acompanhariam pela próxima semana) e depois rumei para o hotel, parando para comprar uma garrafa de água e uns Gatorades (potássio para as câimbras – o ideal era banana, mas não sou muito fã).

No hotel, no primeiro andar (o meu era o quinto), tem uma máquina de gelo à disposição dos hóspedes. Eu a utilizei bastante, enchendo o balde de plástico vagabundo que tinha no quarto, ou, às vezes, enchendo sacos plásticos para abarrotar a pia de gelo e tentar tomar um suco de laranja mais ou menos gelado pela manhã (não sei porque, mas parecia que o gelo em Nova York derretia mais rápido: cansei de abarrotar a pia de gelo, tudo em vão).

Subi, bebi um Gatorade e dormi profundamente (sim, apesar do camarão). No dia seguinte, dois programas: compras e, depois, o show do Uli Jon Roth no BB King Blues Club & Grill (http://www.bbkingblues.com/). Começava a odisséia nova-iorquina.


Oam Patapai


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