quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Onze de outubro de 2008: Uli Jon Roth em Nova York - Postagem nova e melhorada



Acordei de excelente humor (o que é raro) no meu segundo dia em Gotham, por volta das nove da manhã. Havia dormido como uma pedra e me sentia muito bem. Rapidamente me vesti e desci para procurar um lugar para tomar o café da manhã.

Na verdade não escolhi nada, simplesmente voltei ao Gramercy Bagels e repeti o sanduíche de pastrami do dia anterior, agora com mais traquejo na hora de pedir (escolhi o bagel com cebola e uma salada muito boa, que vem em um copo plástico e cujo nome não me lembro), e sempre cercado pelos cadetes da academia de polícia de NY, os próximos a se juntarem aos “The New York Finnest”, como diz o distintivo.


Após este lauto café da manhã, parti para minha primeira “aventura consumista”: dar uma conferida na Strand Bookstore (http://www.strandbooks.com/), que fica na rua 12, esquina com a Broadway, perto do hotel, para minha sorte.

Caminhei calmamente, observando a cidade e seus habitantes naquela manhã de sábado movimentada. O clima estava ameno: ideal para perambular por aí, a esmo, mas consegui me controlar e mantive o rumo principal.

Desci a terceira avenida e virei na rua 14, em direção à Broadway. Cheguei à Union Square, lotada com pessoas espalhadas por toda sua extensão, uma mistura de jovens estudantes de cinema (a New York Film Academy fica por ali), pessoas entrando e saindo da estação do metrô da praça, vendedores ambulantes (livros, fitas VHS, bugigangas, camisetas, bolsas, comida), distribuidores de panfletos, turistas, pedintes, e uma menina de verde carregando um cartaz que não consegui ler direito). À minha esquerda vislumbrei uma das lojas da Virgin Megastore: ótimo, já tinha localizado um dos alvos da viagem, mas ficaria para outro dia.

Fui até a Broadway e desci para a rua 12, onde encontrei a Strand, com sua fachada gigante e toldo vermelho (“18 miles of books”, é o que diz).

O lugar é o verdadeiro paraíso para os apreciadores de livros e fanáticos do gênero: estantes enormes até o teto, bancadas com sugestões, tudo dividido por assuntos, uma beleza. Os preços são excelentes, muitos livros usados em ótimo estado e inúmeros lançamentos com valores abaixo da tabela.

Comecei pelos lançamentos e novidades, com calma, e fui progredindo em direção ao fundo da loja: cinema, história, literatura americana, literatura mundial, biografias, clássicos etc.

Fiquei umas duas horas enfurnado por lá, rodando em êxtase entre milhares de livros e, como era de se esperar, juntando vários deles debaixo do braço (alguns quilos).

Acabei com uma pilha ridícula diante de mim. Teria que fazer uma seleção cuidadosa. Não podia (ou não deveria) gastar tanto.

Depois de muita avaliação acabei por selecionar poucos títulos: uma biografia do Kafka, uma biografia do Jack Kerouac, uma biografia do Mack Sennet (diretor e produtor de cinema dos anos 10 e 20, que contratou Charlie Chaplin e deu a ele papel em seu primeiro filme, de 1914), dois livros de culinária, um exemplar do On the Road: The Original Scroll, do Jack Kerouac e uma edição comentada do Drácula, do Bram Stoker. Deixei muita coisa para trás. Pobreza é uma merda.

Marchei resignado para o caixa, mas ainda catei uma “sacola de mensageiro” no merchandising da loja.

Havia lido na rede que o atendimento na Strand era terrível, com funcionários mal educados e bastante grosseiros. Não tive o azar de me deparar com algum funcionário enfurecido, mas realmente o staff não era dos mais amistosos. Davam informação com uma indisfarçável cara de enfado, como se estivessem abrindo uma exceção terrível para você, um chato comprador em potencial.

Anyway, paguei e fugi para o ar da cidade.

Logo ao sair, e dar alguns passos sob o peso da minha mochila carregada de “literatura”, me deparo com a Forbidden Planet, que é uma loja famosa que vende livros/DVDs/quadrinhos/bonecos/camisetas/miniaturas/posters etc. relacionados a filmes de terror, ficção científica, fantasia, anime (a grande onda do momento) e super-heróis.

Como um de meus objetivos na viagem era encontrar alguns filmes de terror antigos, fiquei bem animado e decidi entrar. Decepção.

A loja é até legal, não se enganem, mas não é tudo o que imaginava: pequena, a parte de DVDs é minúscula (eu devo ter mais em casa) e só tinha anime.

Dei uma volta, tirei umas fotos (comentário gigante: enquanto rodava no muquifo, um ator americano chamado Jon Stewart entrou na loja com o filho de uns 10 anos. Ele é um comediante famoso na gringolândia e tem um programa chamado The Daily Show na TV. Bem, eu havia acabado de perguntar se poderia tirar umas fotos dentro da loja, e haviam liberado. Até aí tudo OK. O problema foi que o gringo me viu tirando a câmera do bolso e ligando; então, obviamente pensou que eu queria tirar fotos dele, ou com ele, ou do filho dele, sei lá, e me olhou com uma cara realmente desagradável. Percebi a confusão e, como o cara estava com o moleque e eu também não queria confusão e nem ficar me explicando para ninguém, simplesmente guardei a câmera de volta e esperei a figura sair da loja), achei um livro legal para comprar (que por acaso não é de terror nem de ficção científica) e resolvi voltar para o hotel para dispensar o butim.

Voltei por outro caminho, observando a cidade e seus peculiares habitantes.

Em Nova York, uma coisa excelente de se observar são seus cidadãos, dos mais diversos tipos e com gostos definitivamente peculiares para o vestuário.

Você encontra engravatados da Wall Street; patricinhas derivadas das Paris Hiltons da vida; punks (sim, com moicanos e tudo); rappers (trajados de acordo); pessoas idosas, muitas naqueles carrinhos motorizados que costumam aparecer nos filmes; gente fazendo cooper no meio da calçada; judeus ortodoxos; árabes em túnicas brancas; muitos latinos; e duas coisa que me chamaram a atenção especialmente: uma quantidade alarmante de gente doida na rua, falando sozinha (não, não era aquele celular no ouvido, não, eu prestei atenção), e diversos concorrentes a “louco assassino do ano”.

É sério. Vocês já devem ter visto fotos do cara que fuzilou John Lennon: olhar vago, pinta de deslocado e aqueles óculos enormes. Pois é, vi muitos destes em NY. Sendo que um em particular foi o melhor de todos: devia ter um metro e oitenta, mais ou menos, magérrimo, com uma camisa branca, canetas saindo do bolso da camisa (juro, não é sacanagem), calça marrom, o pouco cabelo lambido na testa, óculos enormes, mãos trêmulas e aquele olhar perdido, típico de gente biruta. Um misto de seminarista tarado com nerd punheteiro.

Era fácil imaginá-lo em casa, com o armário coalhado de quinquilharias, lembranças bizarras, recortes de jornal espalhados por todo o canto, um diário com escrita miúda e uma TV antiga no canto da sala, na frente da qual passa as noites se masturbando enquanto assiste a programas religiosos. Assustador. Deveria ter fotografado o dito cujo, discretamente, é claro.

O número de figuras bizarras e, de vez em quando, inquietantes nas ruas da Grande Maçã não se limitava aos lunáticos evidentes; tem de tudo, pelo menos na aparência: gângsteres, membros de gangues, terroristas, carteiros atiradores, viciados etc., principalmente no metrô.

Mas você se acostuma, e passa a “apreciar” a fauna, o que ajuda a matar o tempo, principalmente nas transferências subterrâneas.

Cheguei ao hotel com as pernas doendo absurdamente (achei que tinha destruído minhas panturrilhas para sempre, já via muletas se aproximando).

Derrubei a carga no cubículo a mim designado (quarto 520) e fui atrás de almoço. Encontrei outro restaurante bem perto do hotel e me sentei para um tradicional brunch nova-iorquino: ovos com filé. Excelente.

Ainda dei uma volta pelas redondezas após sair do restaurante, para ajudar na digestão, mas fui para o quarto dar uma descansada antes de partir em direção a “uptown”.

Planejara ficar uma meia hora enrolando no quarto, dando uma olhada nos livros, para então tomar o rumo do local do show. Acabei numa dormida involuntária que por pouco não esculhamba meu planejamento.

Acordei e parti apressado em direção ao objetivo principal do dia: Uli Jon Roth and friends, no B.B. King Bar Grill, na rua 42.

Decidi seguir pela quinta avenida e fui subindo por Manhattan. A tarde estava excelente, com o trânsito bem movimentado e muitos de nós (turistas) atravancando calçadas, lojas e restaurantes, sempre munidos de câmeras diversas para fotografar ou filmar familiares, amigos e agregados, ou simplesmente registrar a cidade.

Curiosidade: durante toda minha estada, cruzei com muitos pais e mães empurrando carrinhos de bebê pelas ruas, e notei que quase sempre as crianças que estavam acordadas mantinham os olhos vidrados para cima, observando curiosamente, e realmente pude constatar o porquê (no começo pensei apenas que os moleques estivessem grogues): o “céu” de NY é demais. Digo com aspas porque não é apenas o azul ou as nuvens, são os arranha-céus que chamam a atenção, recortando o céu e marcando o visual dos pedestres como se andassem em vales ou cânions. Algumas vezes me lembrava das descrições de arquiteturas ciclópicas e intrincadas de H.P. Lovecraft e elas pareciam se encaixar perfeitamente naquele ambiente (ele viveu por um breve período em NY, chegando ao Brooklyn em 1924; não sei como era a cidade na época e se isso influenciou em alguma coisa, mas tudo bem).

Cheguei à rua 42, mas ainda havia tempo de sobra até começar o show, por isso resolvi fazer um reconhecimento dos arredores: azar o meu.

Perambulando pelas ruas encontrei uma tabacaria e entrei. Escolhi uns três charutos para consumo posterior e comprei um cachimbo para Mr. Nascimento, que tinha pedido que levasse, além de sua encomenda principal, “quinquilharias” para seu deleite.

Até aí, tudo bem, o problema foi que, continuando o reconhecimento, me deparei com uma das filiais da Barnes & Noble (http://www.bn.com/), uma cadeia de livrarias que também possui, em algumas lojas, uma grande seleção de dvds. Dancei bonito.

Entrei pensando em apenas olhar e matar o tempo, mas quando cheguei na seção de dvds me lasquei: perdi o controle e estourei o orçamento. Achei muitos títulos que são inéditos no Brasil, muitas edições especiais, muitos filmes de terror antigos, filmes mudos clássicos. Foi bem difícil selecionar e deixar boa parte da colheita para trás. Droga.

Alguns dólares mais leve depois, bati em retirada para o local do show: B.B King Bar and Grill, na rua 42, entre a sétima e a oitava avenidas.
Cheguei lá uns 40 minutos antes do evento e fui ao guichê pegar o ingresso que havia comprado ainda no Brasil, pela web.

O lugar é bem legal: fica no subsolo e tem um longo balcão perto da entrada, num nível um pouco mais elevado que o espaço à frente do palco, e com uma excelente visibilidade do mesmo. De acordo com um garçom, a casa comporta 600 pessoas sentadas (quando o show é com mesas) ou 2.000 em pé (sem mesas). Nesse dia, particularmente, seria com mesas, no esquema de quem chega primeiro pega os melhores lugares.

Imediatamente ao entrar, fui interceptado por um garçom que me perguntou onde queria ficar, se estava acompanhado etc. Como estava só, o cara me conseguiu um lugar ótimo, em frente ao palco, duas mesas a partir dele e na companhia de três americanos (é isso mesmo, as mesas não são “exclusivas”, comportam umas 6 ou 8 pessoas, e você as compartilha com estranhos).

Bom, como era o “novato” na mesa, me apresentei e sentei. Os caras eram bem tranqüilos e foram bastante simpáticos: um deles havia namorado uma brasileira e conhecia algumas palavras, expressões e palavrões; outro estava com uma camisa muito velha do Scorpions (“...I kept this from junior high...”) e encontrava velhos conhecidos o tempo todo; o terceiro estava preocupado com a esposa (ligou para ela umas duas vezes) que, me pareceu, não estava muito contente com o fato do sujeito estar no show (“...I have to take my kids to school tomorrow, you know...”). Esqueci o nome deles agora, mas acho que um era Mike; bom, não interessa. Pedi uma Guinness ao garçom, um petisco de camarão e esperei, batendo papo com os gringos.

Exatamente às 20h (a pontualidade foi incrível) as luzes se apagam e soa a introdução.Só posso descrever o show de uma maneira: INACREDITÁVEL...

Para quem não sabe: Uli Jon Roth foi guitarrista do Scorpions, banda alemã de heavy metal, durante os anos 70, com a qual gravou 4 discos de estúdio. Em carreira solo desde 1979, ele estava ali para apresentar seu mais novo disco, Under a Dark Sky.

Mas vamos ao show: eram dois vocalistas, Mark Boals, que já cantou com o Malmsteen (que, aliás, é fã do Uli Jon Roth), e Liz Vandal, uma mina que eu não conheço, mas que canta muito (interessante: nos duetos de voz, ela fazia voz grave, enquanto o Mark Boals fazia os agudos), além de baixista, guitarrista-base (que fazia alguns duetos com o Mestre), tecladista e baterista.

O velhinho, é claro, estava tocando muito, para caralho ou mais, fantástico.Após as duas primeiras músicas, Uli Jon conversa um pouco com o público e diz que, após tocarem umas músicas do disco novo (muito boas por sinal), obviamente executarão alguns clássicos do Scorpions para o deleite de todos, depois do que se seguirá a parte “and friends” do show, com convidados subindo ao palco para “duelar’ com o alemão.

O show seguiu arrebentando e deixando o público hipnotizado.

Após de algumas versões extraordinárias de músicas do Scorpions, começando com Fly to the Rainbow e incluindo Pictured Life, In Trance e We`ll Burn The Sky (esta cantada pela tal Liz Vandal, e que foi uma das melhores coisas que eu já presenciei), começam a entrar os convidados.






Primeiro, Chris Caffery, do Savatage, sobe para uma versão absurdamente maravilhosa de Catch Your Train (Mark Boals arrepiando). Depois entra um tal de Joe Stump, que não conhecia, mas que tocava muito. Infelizmente, sua guitarra deu pau em cima do palco, o que fez com que Uli Jon tivesse que improvisar um pouco até o cara conseguir tocar (o Chris Caffery, que também estava no palco, ainda tentou emprestar sua guitarra, mas o tal Stump recusou). Problemas sanados, mais um som para a galera. Detalhe: várias músicas do Jimi Hendrix foram executadas na noite.

O melhor, porém, ficou para o final: Alex Skolnick, do Testament, sobe ao palco para encarar o alemão em uma versão estendida e linda de All Along The Watchtower, seguida de outro som do Hendrix (o Uli Jon Roth é tão fanático pelo Jimmi que foi casado com Monika Dannemann, a última namorada e a última pessoa a ver Hendrix com vida).





Encerrados os encores e as jams, com o público implorando por mais, o Mestre se despede e indica que subirá até o saguão para fotos e autógrafos.

O show começara exatamente às 20h, e acabara às 22h (ainda haveria outra apresentação no lugar, de outra banda, cujo público já se encontrava enfileirado na calçada em frente ao B.B. King); cerca de 15 minutos antes do fim, o garçom já traz sua conta, sem discussão.

Subi rapidamente, seguido por um dos gringos, e comprei o cd mais novo do alemão, enquanto a galera começava a se aglomerar esperando Uli e o resto da banda.

O alemão chegou junto com o Mark Boals, e consegui o autógrafo dos dois, no cd, é claro. Depois, entrei na fila para tirar umas fotos e, após consegui-las, fui para a calçada, incentivado pelos seguranças do local, bastante educados, mas com uma disposição pouco amistosa ou tolerante.

Do lado de fora, ainda ajudei o gringo que vinha na minha cola a tirar umas fotos e consegui falar com o Skolnick, com o Chris Caffery (que disse que iria ao Brasil em junho ou julho de 2009) e com a Liz Vandal.

Dei um tempo por ali, troquei endereço de e-mail com o gringo e decidi que era hora de voltar para o hotel.

Saí então andando empolgado pela noite nova-iorquina, apreciando Times Square e o movimento entre teatros e restaurantes, e decidi comer num daqueles carrinhos de comida árabe que se espalham pela cidade. Comprei um churrasquinho safado (esqueci o nome, mas não passa de um churrasquinho safado) com pão e uma garrafa de suco e fui comendo. Resolvi descer pela Broadway até o hotel. No caminho, verifiquei que ainda estava com fome e parei em uma deli (de delicatessen, mas que nos EUA designa um tipo de loja que vende quase tudo: comida pronta, enlatados, frutas, jornais, pães, leite, refrigerantes, cerveja, loteria etc.) para comprar algumas guloseimas.

Cheguei ao Hotel 17 cansado mas feliz, com minhas pernas reclamando e latejando (já iria me acostumar).

Peguei um pouco de gelo no saguão, subi, tomei uma ducha, comi alguma coisa, dei uma conferida no que arrebatara durante o dia, calculei meu prejuízo e decidi ir dormir. Pensar em problema com grana, só no dia seguinte.

Apaguei.



Oam Patapai

Um comentário:

Anônimo disse...

Sou fã devota de uli jon roth, acho ele único,fantástico. queria muito um dia poder assistir um show dele ao vivo como você assistiu. confesso, fiquei roxa de inveja. gildete goiânia brasil.