quarta-feira, 27 de maio de 2009

Shakespeare em Paris

"It's getting late, for scribbling and scratching on the paper..."








Paris, 1919. A Primeira Guerra Mundial terminara poucos meses antes, deixando a Europa arrasada. Com a crise financeira causada pelo conflito, a moeda francesa perdera muito de seu valor em comparação ao dólar americano, o que acaba por causar um afluxo inédito de visitantes do outro lado do Atlântico; sendo que alguns deles acabaram ficando na cidade, onde a vida era bem mais barata que na América.

Entre estes “visitantes permanentes” encontra-se uma norte-americana chamada Sylvia Beach (1887 – 1962), filha de um pastor presbiteriano, que, estudando literatura francesa em Paris, resolve abrir, com dinheiro emprestado pela mãe, uma livraria dirigida ao público de língua inglesa que flanava em quantidade pela cidade: nascia a Shakespeare and Company.

A pequena livraria da senhorita Beach, que vendia e, principalmente, emprestava livros, tornou-se em pouco tempo um ponto de encontro de diversos artistas que residiam na capital francesa ou estavam apenas de passagem (chegando a se tornar a posta-restante de vários deles), fossem escritores, pintores, músicos, escultores, atores etc. Americanos, ingleses, irlandeses e mesmo franceses.

Por lá estiveram, em turnos, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Sherwood Anderson, Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, George Antheil, Man Ray, e até mesmo Sergei Eisenstein fez uma visita.


Além de vender e emprestar livros, um belo dia Sylvia resolveu, muito afoitamente, tornar-se editora. Mas não uma editora qualquer; sua intenção era publicar um dos mais notórios desafios literários e lingüísticos do século 20: “Ulisses”, de James Joyce.


O livro já fora recusado por vários editores, e mesmo os gráficos ingleses se recusavam a imprimi-lo, pois o consideravam pornográfico (na Inglaterra da época, em casos de obscenidade, o impressor do trabalho também era processado).

Não era a primeira vez que Joyce tinha problema com seus escritos: “Um Retrato do Artista (Stephen Hero)” teve uma saga parecida.

Enfrentando a falta de fundos, a inexperiência em assuntos editoriais e as exigências e correções constantes de Joyce, Sylvia manteve-se firme e em 2 de fevereiro de 1922 (aniversário de Joyce) entregou as primeiras cópias ao eufórico autor (com cerca de seis erros tipográficos por página).


“Ulisses” foi um relativo sucesso para a livraria e sua publicação veio a causar furor em alguns países, sendo proibido na Inglaterra até os anos 30 e somente liberado nos Estados Unidos em 1933, após a um julgamento livrá-lo da acusação de obscenidade (Hemingway se gabava de ter contrabandeado várias cópias para a América).

A vida da senhorita Beach como “patrona” dos artistas “expatriados” continuou aos trancos e barrancos, sempre com o caixa da loja no vermelho (principalmente devido aos gastos absurdos com a obra-prima de Joyce), mas também contando com a ajuda de seus inúmeros amigos das letras e das artes.

O lugar permaneceu aberto, e um centro referência para artistas, por 22 anos, até ser fechado pela proprietária em 1941, já em plena Segunda Guerra Mundial, após a visita de um oficial alemão que exigiu comprar uma cópia do “Finnegans Wake”, de James Joyce, e foi contrariado pela dona, que alegou ser uma cópia particular.



Amedrontada pela possível retaliação do oficial nazista, Sylvia resolveu fechar a livraria no mesmo dia: recolheu os livros e os escondeu, tirou a placa da entrada e foi seguir com a vida, mas não teve muita sorte: pouco tempo depois foi presa e passou seis meses num campo de concentração.

Já de volta a Paris, em 1944, como ela mesma conta em seu livro de memórias (no Brasil: Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras, Casa da Palavra, 2007), sua rua foi “liberada” dos nazistas por ninguém menos que Ernest Hemingway – a caminho para “libertar” o bar do Hotel Ritz –, que chegou num jipe, com o uniforme manchado de sangue, metralhadora em mãos e acompanhado por um punhado de soldados sob seu comando (numa clara violação das normas de combate, pois era um jornalista, um correspondente de guerra, e não um combatente: podia vestir uniforme e receber patente de oficial, mas não deveria portar armas nem comandar tropas).

Após a libertação, infelizmente, Sylvia decidiu que não reabriria a Shakespeare and Company: o fim de uma era.



Corta para 1951.

George Whitman (1912), um americano bastante peculiar, com ideais socialistas e que já percorrera boa parte do mundo tentando encontrar algo o que fazer de sua vida, se estabelece em Paris e resolve abrir uma livraria na cidade, chamada Le Mistral.

Tentando manter o “ideal socialista” vivo, Whitman permite que jovens escritores e artistas sem dinheiro fiquem em sua livraria por algum tempo, dormindo e comendo, desde que ajudem, durante um curto período do dia, nas tarefas diárias do lugar.



Whitman continua a promover leituras de novos autores e poetas contemporâneos em sua Le Mistral, o que acaba por atrair a atenção de Sylvia Beach – ainda vivendo em Paris –, que comparece a um desses eventos. Tornam-se amigos e, com o tempo, George acabaria por comprar parte do acervo da americana.

Em 1964, após a morte de Sylvia, e com sua permissão, muda o nome da livraria para Shakespeare and Company.



Desde então vem mantendo a tradição de receber jovens escritores, poetas e artistas na livraria em troca de um pouco de trabalho, além de continuar com as leituras de poesias, encenações, pocket shows etc.

Hoje, 2009, conta também com a ajuda da filha, curiosamente chamada Sylvia, para administrar a livraria.







Referências

Além do citado livro de memórias de Sylvia Beach (Shakespeare and Company: uma livraria na Paris do entre-guerras, Casa da Palavra, 2007),



podem ser encontrados nas melhores livrarias ou sebos os livros:



Um livro por dia: minha temporada parisiense na Shakespeare and Company”, de Jeremy Mercer, jornalista canadense, publicado pela editora Casa da Palavra em 2007; e






Os Exilados de Montparnasse”, de Jean-Paul Caracalla, lançado pela Record em 2009.



Quem quiser ainda pode procurar pelo documentário sobre George Whitman e a Shakespeare and Company: “Portrait of a Bookstore as an Old Man”, dirigido por Gonzague Pichelin e Benjamin Sutherland (uma versão streaming e uma para download gratuito podem ser encontradas no Google Vídeos).




Em tempo: existe uma Shakespeare and Company em Nova York, mas não sei se é uma “franquia” ou não.









Oam patapai

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Certeza

"Where do we go from here?"








Dentro da trincheira enlameada, encolhido ao fundo e com o fuzil atirado de lado, ele comprimia as mãos, em desespero, contra o capacete, tentando pregá-lo à cabeça.

Estava quase sozinho: o cadáver de um companheiro de pelotão jazia perto, com o uniforme estranhamente limpo, um dos olhos ainda aberto e diversas perfurações a lhe decorarem o peito.

Os projéteis zumbiam acima e ele nem percebeu a chegada do sargento, até receber um chute nas costelas.

“Levanta daí, soldado. Seus companheiros precisam de você. Eles contam com você. Vamos lá...”

“Eu não posso, sargento.”

“Claro que pode, soldado. Não existe covarde nessa companhia. Vamos logo, para de rastejar e mostra praqueles filhos da puta como se luta. Manda bala neles, porra!”

O soldado não se moveu.

“Levanta daí seu desgraçado, seu covarde de merda... Começa a se comportar que nem homem, senão eu mesmo meto uma porra duma bala na tua cara!”

Virando-se lentamente, sem tirar as mãos do capacete e gritando em meio à cacofonia da batalha, o soldado respondeu:

“Tanto faz, sargento, tanto faz... porra... Pode ser o senhor ou pode ser o inimigo, não importa, porque eu sei, eu sei... eu tenho certeza que a próxima bala que vier vai me acertar, vai ser minha... minha... vai ter meu nome nela... Pode atirar sargento, pode atirar... pode atirar...”


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Oam patapai