
Há 64 anos, às 8h15 da manhã no horário local, cerca de 600 metros acima do solo, uns 240 metros fora do alvo, 57 segundos após ser despejado pela tripulação do Enola Gay – um B-29 norte-americano comandado pelo coronel Paul Tibbets e batizado em homenagem à sua mãe –, o artefato conhecido como Little Boy, uma bomba de fissão contendo 60 kg de urânio-235, explodiu em Hiroshima, no Japão, dando um início dramático à Era Nuclear.

O evento, assim como aquele que ocorreria a 9 de agosto de 1945, dentro de três dias, em Nagasaki, ajudou a por fim à Segunda Guerra Mundial, após seis anos de lutas, massacres, bombardeios e resistência; quatro anos depois da entrada dos Estados Unidos no conflito e passados quatro meses da rendição alemã, já que o Império Japonês não era páreo para a “nova arma”.

Milhares de habitantes de Hiroshima morreram instantaneamente (entre 70 e 100 mil), e outros 100 mil, aproximadamente, morreriam nos próximos dias vitimados pelos efeitos da radiação, pelas queimaduras, pela fome, pela sede, pelos incêndios que varreram a cidade e pela falta de atendimento médico.

Inúmeros outros ainda pereceriam nos anos subsequentes devido às sequelas da exposição à radioatividade liberada pela bomba.
As primeiras horas após a explosão foram simplesmente indescritíveis: pessoas soterradas em suas casas pediam socorro inutilmente enquanto incêndios se alastravam pela madeira das construções; queimados e feridos percorriam as ruas como zumbis; os que haviam conseguido escapar ao calor e à destruição inicial buscavam lugares considerados seguros ou os hospitais, que começavam a lotar com feridos e desesperados (não havia médicos ou enfermeiras o suficiente). O atendimento médico adequado levaria dias para ser disponibilizado: aquilo era só o começo do inferno.

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Com a guerra se aproximando do fim após a rendição nazista, devido ao avanço aliado no Pacífico, principalmente o americano, que empurrava os japoneses de volta ao solo nativo, cogitou-se a invasão do Japão.
Histórias são contadas acerca dos motivos que levaram o presidente Truman a autorizar a destruição de Hiroshima e Nagasaki, entre elas, a de que uma invasão por terra do território japonês custaria muitas vidas americanas, já que o Japão se preparava para esse evento, com treinamento de civis (sejam mulheres ou adolescentes) para resistência ao invasor.
O comando norte-americano já ficara impressionado com o espírito de luta do soldado japonês, que nunca se rendia e que lutava até o fim de suas forças. Invasões de lugares como Tarawa e Okinawa tornaram-se verdadeiros massacres: os soldados preferiam a morte à rendição, assim como os civis – convencidos de que seriam torturados e mortos de qualquer maneira pelos soldados do Tio Sam –, que se imolavam às centenas, levando junto seus familiares.
A invasão da ilha japonesa prenunciava um número recorde de baixas no exército e um número ainda maior de baixas civis. Tinham que encontrar outra opção.

Hiroshima fora escolhida, assim como os alvos secundários (Nagasaki e Kokura), devido a sua localização e ao fato de que não houvera nenhum tipo de bombardeio na cidade (sendo assim, os efeitos da bomba A poderiam ser estudados com mais precisão). Tóquio fora descartada devido ao receio de se destruir a capital de um país que, no futuro, poderia um aliado contra os comunistas, e ao fato de que já estava bastante destruída (mais gente morreu durante os bombardeios incendiários de Tóquio do que com as bombas atômicas: as construções no Japão eram, tradicionalmente, de madeira, bambu e papel de arroz).
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Os japoneses demoraram a entender o que acontecera. Várias teorias apareceram para explicar o ataque, mas foi somente após um pronunciamento do presidente americano que os cientistas e militares nipônicos começaram a entender o tamanho da ameaça. O Império Japonês se renderia poucos dias depois do bombardeio a Nagasaki (Kokura era o alvo secundário no primeiro ataque e o principal do segundo, mas escapou: o céu claro sobre os alvos indicava qual cidade deveria ser atingida). Um pronunciamento do Imperador Hiroito, transmitido por rádio, comunicou a rendição aos americanos.

Com a capitulação nipônica, os vencedores logo desceram no país e se engajaram em seus papéis de “benévolos” conquistadores, o que incluía ajuda emergencial às cidades atingidas pelas bombas atômicas: os japoneses não tinham condições apropriadas de tratar dos atingidos. Cientistas e médicos aliados dirigiram-se a Hiroshima e Nagasaki às centenas, para tratar e estudar os efeitos do bombardeio.

As vítimas que sobreviveram aos estragos causados por Little Boy e seu amigo Fat Man (a bomba de Nagasaki, que continha 6,5 kg de plutônio 239) ganharam a alcunha de “hibakusha”, algo como “pessoas afetadas pela explosão”, mas demoraram anos para receber algum reconhecimento ou qualquer ajuda do governo.
Muitas pessoas tiveram suas vidas tão marcadas que – numa sociedade onde a aparência conta bastante e qualquer coisa pode ser motivo de vergonha –, nunca se casaram ou tiveram filhos, tanto com medo da discriminação quanto dos efeitos retardados da radiação. Humilhação, vergonha e sofrimento foram, em diversos casos, perenes.

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Em maio de 1946, poucos meses após os eventos que iniciaram a Era Nuclear, um jornalista americano chega ao Japão resolvido a escrever uma matéria sobre os efeitos das bombas, a ser publicada no primeiro “aniversário” do evento.
John Hersey, filho de missionários americanos e nascido na China, começa então sua pesquisa e resolve escrever a história de seis sobreviventes: duas mulheres e quatro homens, sendo um deles um padre jesuíta alemão.
A reportagem foi publicada em 30 de agosto de 1946 na revista New Yorker e tornou-se um fenômeno do jornalismo. Os 300.000 exemplares praticamente desapareceram das bancas; vários jornais pediram autorização para republicar a matéria; rádios transmitiam trechos ou mesmo todo o conteúdo.
Quarenta anos depois, Hersey voltou ao Japão para complementar sua reportagem e entrevistou novamente os que ainda viviam e seus familiares.
A matéria de John Hersey, transformada num livro chamado simplesmente “Hiroshima”, é considerada um clássico do jornalismo e encontra-se disponível até hoje, com várias edições e reimpressões, estando sempre entre os primeiros lugares nas enquetes e pesquisas sobre as grandes reportagens já publicadas em língua inglesa.

A mais nova edição brasileira ficou a cargo da Companhia Das Letras, que a publicou em sua coleção “Jornalismo Literário”, e pode ser encontrada nas boas livrarias.
That’s it...
Oam patapai
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