(Esse texto foi "publicado" originalmente no blog Palavras Gentis, nos idos de 2003. O que segue é uma versão revisada.)
Jack Kerouac dizia que escrevia como um músico de jazz, como Charlie Parker improvisando um longo solo que corria pelas páginas brancas, fluindo como um rio que seria a própria vida. Ernest Hemingway teve seus contos comparados a pequenas peças de câmara, perfeitas e contidas, que mais insinuariam do que revelariam. Charles Bukowski escrevia ouvindo música clássica mas, pelo menos para mim, seus contos parecem remeter àqueles bons e velhos rocks de três minutos: simples na "aparência", porém enérgicos e extremamente divertidos.
A música e a literatura parecem correr juntas muitas vezes, com "correntes" ou "movimentos" de ambas se encontrando e se influenciando (mesmo que indiretamente) nessa batida diária que as pessoas chamam de vida, essa eterna corrida para alcançar o sol, como já dizia o Pink Floyd.
Bom, mas por que esse rodeio todo, essas elucubrações? A intenção é simplesmente a de falar de dois livrinhos com os quais esbarrei há algum tempo e que me agradaram bastante, seja pela secura e o minimalismo de um deles, seja pelo lirismo desesperado e inocente do outro.
O primeiro deles tem o título curioso de "Mas não se mata cavalo?" e é de autoria de Horace McCoy. A secura e a objetividade do texto são as grandes ferramentas do autor, que conta a história de um casal de "perdedores" competindo numa maratona de dança durante a depressão americana. A narrativa fica presa ao salão de dança quase o tempo todo, mas não aborrece nem cansa, transmitindo uma aura de claustrofobia e de fatalidade que te deixam meio atordoado quando o livro acaba. A velocidade na qual a história é contada também é importante e, apesar de se passar nos anos 30, ao som do foxtrot, o desespero dos competidores poderia muito bem transcorrer ao som de algumas das vertentes do Heavy Metal (black, death, thrash, splatter, whatever metal...).
Já o segundo, "Pergunte ao pó", de John Fante, é a história de um tal de Arturo Bandini, que está em Los Angeles tentando se firmar como escritor e que, em seu caminho rumo à concretização daquilo que imagina seu destino, esbarra nas mais estranhas e singulares figuras e nas mais estapafúrdias situações, dignas de um romance de formação com alma "beat" (apesar de ser anterior ao movimento). O personagem principal do romance corre pelas ruas da cidade sem dinheiro, sem experiências e fica sempre sonhando com grandes sucessos editoriais e devaneando e ensaiando, como todo jovem artista, sobre o que dizer nas grandes entrevistas que (talvez) nunca venha a dar. E para não sair do "mote" do texto, o livro pode ser lido como quem ouve uma boa trilha sonora daqueles filmes velhos que passam no Telecine Classic ou no TCM.
Só para terminar: a versão do livro do McCoy que li é uma tradução do Erico Verissimo, do Círculo do Livro, que eu achei num sebo; existe uma tradução mais nova publicada pela Sá Editora, sob o título "A noite dos desesperados" (que é o título em português do filme baseado no livro, dirigido por Sydney Pollack, com Jane Fonda no elenco, lançado em 1969, e que eu não assisti, ainda). O livro do Fante foi relançado pela José Olympio e pode ser encontrado, como dizem os reclames, nas melhores livrarias (também existe em filme, com a Salma Hayek e o Colin Farrel).
That's all folks...
terça-feira, 7 de outubro de 2008
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