sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Esperando... esperando...

I said "gooooooooood mooooooorning..."



Para o velho Coronel, a vida se resume a cuidar do galo de briga, da esposa tísica e aguardar pelo barco que traz a correspondência, na esperança de receber uma carta; mas não qualquer carta, e sim A Carta.

Enfrentando o cansaço, o calor, a falta de dinheiro e o olhar do povoado, o Coronel não desiste de sua espera.

A história de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez - assim como as histórias de todos os livros realmente bons -, pode ser interpretada de várias maneiras: alguns encontram um conto sobre a velhice, ou sobre a pobreza, ou sobre a solidão e o abandono etc. O que, porém, mais me salta aos olhos é a narrativa sobre a esperança, sobre a teimosia de não entregar, não se render.


O velho Coronel lutou em revoluções e perdeu. Ele pode ter entregado sua espada e seu uniforme, mas não rendeu sua integridade e sua esperança. Provavelmente desconfia que sua causa é perdida e inútil, mas desistir da visita ao correio é como desistir de viver, é como capitular frente ao que acredita e à sua própria idéia de mundo.

Ele é um cabeça-dura, um teimoso, que, como todos nessa condição, esconde, em sua persistência, o medo de estar errado, a incapacidade de admitir o erro; mas como isso é tudo que resta para seu ego, para sua auto-estima, não é vergonha nenhuma lutar uma última guerra, travar um derradeiro combate antes de perder a batalha final.

Na cabeça do velho Coronel, ainda existe esperança, mesmo no abandono e na solidão.

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Observações:
1) Essa pequena obra-prima de García Márquez possui um dos melhores finais que eu já li. Vale a pena conferir.

2) Existe um filme mexicano, de 1999, baseado em Ninguém Escreve ao Coronel. Não assisti.



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Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 6 de março de 1927), escritor laureado com o Nobel de Literatura em 1982, é amplamente conhecido como o autor de Cem Anos de Solidão ou de O Amor nos Tempos do Cólera, seus trabalhos mais famosos. São trabalhos de fôlego e excelentes peças literárias, indicadas a todos que gostam de uma boa história, e não apenas aos críticos ou “intelectuais” da vez.

Sua obra porém não se resume apenas a estes dois trabalhos: é também romancista, contista, jornalista e roteirista.

Entre seus títulos publicados no Brasil pela Editora Record encontram-se: Crônica de uma Morte Anunciada, A Má Hora (O veneno da madrugada), Do Amor e outros Demônios, O General em seu Labirinto, Memória de Minhas Putas Tristes, A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada (contos), Os Funerais da Mamãe Grande (contos), A Revoada (O enterro do diabo), O Outono do Patriarca, Olhos de Cão Azul (contos) entre outros. Todos mais do que indicados.

Grande parte de seu trabalho pode ser encontrado, como dizia o reclame, nas melhores livrarias.

See ya...








Oam patapai








terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Lavoura Arcaica: ou a volta do filho pródigo

Greetings,




O personagem principal e narrador do romance Lavoura Arcaica (Companhia das Letras), de Raduan Nassar – André –, é o filho que abandona a casa paterna para retornar trazendo consigo graves conseqüências.

André é então mais um “descendente” daquelas notórias figuras bíblicas, de parábolas ou não, que se rebelaram contra o pai (a Lei) e que tiveram, a seu tempo e modo, o castigo ou o perdão merecidos.

De certa forma, o primeiro homem a habitar o mundo, Adão, também se rebelou contra seu Criador, comendo da “árvore do conhecimento” e enfrentando a expulsão do Paraíso e a conseqüente luta pelo próprio sustento.

No romance, André não foi expulso de casa, mas saiu para ter acesso ao “fruto proibido”, ao conhecimento que não passava pelo crivo do pai, aos ensinamentos do mundo.


A “punição” de André é auto-imposta, o que talvez ocorra com Adão, que desobedece a Deus sabendo da gravidade de seu ato (apesar da culpa recair sobre Eva e a serpente, as duas figuras femininas da narrativa bíblica... mas isso fica para depois), a ponto de sentir-se envergonhado quando é argüido pelo Senhor, ou seja, tinha conhecimento de que seria punido e estava disposto a aceitar tal castigo (uma “fuga passiva”?).

Outra figura que faz conexão com o narrador de Lavoura Arcaica é o próprio Lúcifer, O Guardião da Luz, também denominado Satã, Diabo, Belzebu, etc. Segundo algumas versões, o anjo mais belo do firmamento, o preferido do Senhor, contra Ele se rebela, sendo derrotado em batalha e então banido para o Reino do Inferno. Na versão judaica do exílio de Satã, este é expulso do paraíso por recusar-se a reverenciar o homem, o qual achava indigno, pois era feito de pó enquanto ele, Lúcifer, era feito da própria essência de Deus. Uma verdadeira demonstração de rebeldia e, por que não, liberdade de opinião. Numa terceira versão, o guardião da luz escolhe o banimento, pede para ser enviado ao Inferno, para que pudesse vir a desvincular o Deus-Pai de toda a iniqüidade que ocorresse no mundo, ou então por preferir viver longe do poder censor do Pai Celestial e exercer com mais liberdade suas ações (e por aí vão as diversas e inesgotáveis interpretações...).

Não há uma batalha aberta entre o pai e André: sua luta é interna, sofrida e angustiante, e então, por sentir-se derrotado ou percebendo-se dono de carga que poderia vir a macular a sacralidade do lar, escolhe por seu próprio exílio, indo habitar seu inferno pessoal.

Numa outra conhecida passagem dos Evangelhos, mais precisamente em São Lucas (Lc, 15, 11), podemos localizar mais um “antepassado” do narrador de Lavoura Arcaica: o Filho Pródigo da parábola, que abandona a casa paterna e por fim retorna ao lar do pai depois de muito sofrer, inclusive sendo obrigado a comer da lavagem dada aos porcos. Diferentemente de André, porém, arrependeu-se da fuga e sentiu que a casa da família é o melhor dos mundos. No caso do texto de Nassar, o que traz o fugitivo de volta ao seio familiar é o irmão mais velho, o mesmo que ao final do romance atua de maneira questionável, talvez por ciúme, um sentimento também encontrado no irmão mais velho da parábola, que reclama para o pai das homenagens prestadas a seu irmão que regressa.


No universo de Raduan Nassar, André representa o arquétipo do homem, que vai em busca da verdade (verdade a seu modo), não desejando submeter-se às leis, e que prefere errar (num duplo sentido: se enganar e vaguear), cometer seus pecados, bater com a cabeça, mas guiado por sua consciência, pelo livre-arbítrio. Ele escolhe a punição à obediência cega para formar seus próprios conceitos e juízos, sem nenhum censor pairando sobre sua cabeça.

Quando André abandona a casa de sua família, está fugindo do jugo do pai, que domina, quase que de maneira onisciente, a vida de todos. Ele, o pai, é o grande pilar de sabedoria, o legislador-mor, o “dono” de toda a verdade e conhecimento, que faz sua pregação diária na cabeceira da mesa de jantar, durante as refeições, com impostura de voz e idéias, aconselhando os filhos a terem paciência, pois só os rigores da paciência, da espera, seriam recompensados, ou seja: incita os filhos a nunca se afastarem do perímetro da família.

Ao perceber (compreender) finalmente a atitude, o discurso e o comportamento do pai, André some de casa, confuso com seus pensamentos, com os fatos ocorridos e decepcionado por tentar acreditar no pai.

A atitude do pai de André, porém, é bastante comum e até compreensível: qualquer pai deseja livrar seus rebentos das decepções e sofrimentos da vida. Por isso, outorgam-se de suprema autoridade e têm-se como indiscutíveis possuidores da verdade, o que pode, às vezes, negar à prole sua liberdade, já que detêm conhecimento e experiência de vida – do mundo exterior.

Os filhos, porém, podem encarar a proteção de forma negativa, como uma tentativa por parte dos pais de “censurar a vida”, de se negar conhecimento, que por uns é encarado como um tesouro e por outros, como maldição.

Deus negava o acesso de seus filhos ao fruto do conhecimento por querer mantê-los longe das dúvidas e das inquietações que hoje são inerentes a qualquer ser humano, para poupá-los de decepções: daí a proibição e também a ameaça de punição.

Com a expulsão de seus filhos do Paraíso, a atitude de Deus acaba por ser exatamente oposta a sua proposição inicial: se querem experimentar do conhecimento, mesmo que seja por meio da desobediência, então que mergulhem fundo na vivência e na interação com o mundo.

Por outro lado, numa visão mais agressiva, tanto Deus quanto o pai do romance queriam apenas servos dóceis. O Deus bíblico não aceita questionamento de nenhuma ordem, Ele é a Lei, todos estão atrelados a Sua presença, qualquer mostra de dúvida ou questionamento será passível de punição capital, não há discussões ou mudanças de planos, tudo está traçado e assim será, inclusive os rebeldes, que previstos já estavam nos desígnios do Senhor Deus Todo-Poderoso, numa mostra de onisciência e poder total.

Tendo isso em vista, tudo aquilo que André e seus correspondentes bíblicos buscavam era apenas uma alternativa, uma outra opção àquela apresentada pela figura dominante do Deus-Pai.

Por isso, todos, devido a suas escolhas, tiveram destinos singulares. Porém, em certos pontos, parecem compartilhar mais similaridades do que seria de se esperar: figuras díspares e, apesar disso, similares.

Todos os “fugitivos” acabam sendo, ao final, diferentes modalidades do Filho Pródigo da parábola:

- Lúcifer é o filho que ainda não voltou;

- Adão (a humanidade) é aquele que volta, após a morte, mas depende do aval do Pai, pois seus pecados e suas ações serão avaliados:

- André é o que retorna mas não traz conciliação; ao contrário, traz o confronto, a revelação e drama.



The End ?


Quem é Raduan Nassar?

Raduan Nassar nasceu em Pindorama-SP, em 27 de novembro de 1935, filho de imigrantes libaneses.

Na adolescência, foi para São Paulo com a família, onde cursou Direito e Filosofia na Universidade de São Paulo. Estreou na literatura em 1975, com o romance Lavoura Arcaica.

Com apenas três livros publicados (além de Lavoura Arcaica lançou Um Copo de Cólera, 1978 – novela – e Menina a Caminho, 1997 – reunião de contos já publicados) é considerado pela um dos grandes escritores brasileiros, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e à força poética da sua prosa. Cultuado por um pequeno círculo de leitores, Raduan se tornou mais conhecido do público em geral com as versões cinematográficas de Um Copo de Cólera e Lavoura Arcaica.

Nassar deixou de escrever em 1984 e vive hoje em um sítio em sua cidade natal. (Minibiografia adaptada da Wikipédia)

Oam Patapai

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Bela manchete

A quick one...


Esse jornal do Rio de Janeiro, Meia Hora, preserva a tradição do velho Notícias Populares e de tantos outros periódicos "pinga-sangue", tão saudosos quanto escatológicos... divirtam-se...

Oam patapai

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Formação para a perdição

Eu vim em paz...




Para Henry Chinaski, a grande descoberta de sua juventude não foi o amor, ou uma vocação ou a literatura: foi a bebida, o álcool. Desde o dia em que provou, escondido, o vinho na casa de um colega, Chinaski soube que aquilo era seu Graal, sua passagem para o paraíso. O elixir que transforma a realidade e a torna melhor, nem que seja por poucas horas.


Diferente de muitos outros romances que tratam da formação de um indivíduo, da transformação da criança em adulto e de todos os seus dilemas, decepções, vitórias e amadurecimento, Misto Quente (Coleção L&PM Pocket, 2005), livro de Charles Bukowski (16 de agosto de 1920 – 9 de março de 1994), nos traz a odisséia desencantada, amarga, mas também bem-humorada de um garoto lutando para entender e se adaptar a um mundo que o rejeita com vontade.


A vida de Chinaski (alter ego de Bukowski, como querem alguns) não é nada fácil: pobreza, pai violento, mãe submissa, espinhas tomando o rosto e o torso, dificuldade em fazer amigos: tudo parece empurrá-lo para a revolta, a agressividade e a solidão. Porém, enquanto Holden Caufield, o anti-herói de O Apanhador no Campo de Centeio (Editora do Autor, 1999), de J. D. Salinger (1º de janeiro de 1919), transforma sua decepção com o mundo adulto em raiva acumulada, Chinaski apenas passa de desilusão em desilusão numa aparente apatia, na constatação de que o mundo é mesmo injusto e que revolta agressiva não leva a nada.



Fugindo um pouco da tradição da maioria dos “romances de formação”, onde o protagonista realmente aprende e tem um final “feliz” ou “otimista”, o livro do velho Buk é mais pessimista, não dando muita chance ao futuro de Chinaski. O que não é problema, já que o protagonista encara sua vida com tal objetividade, desencanto e desesperança, que se o futuro for melhor, vai parecer uma injustiça, um engano.



Misto Quente pode ser lido como uma “resposta” ao Apanhador no Campo de Centeio: enquanto Holden Caufield reclama da vida e da falsidade dos adultos; Henri Chinaski apenas aceita o destino e se protege com uma armadura de indiferença e cinismo, regada, em tempo, com boas doses de álcool.

A aparente alienação de Chinaski não parece causar estranhamento, pelo contrário, é desta perspectiva, que vai se tornando confortável, que pode melhor analisar o mundo e decidir como encará-lo, seja compactuando com seus “habitantes” ou desviando-se calma e insolentemente de suas regras e expectativas.

Enquanto a alienação de Holden Caufield aumenta à medida que sua compreensão do mundo cínico e falso dos “adultos” vai se construindo, Henri Chinaski parece encontrar um certo conforto nessa posição de “alienado”: Caufield é um lutador fadado ao fracasso, um questionador; Chinaski é um defensor que sabe que já perdeu, um fatalista.



Esse sentido de fatalidade, de que não adianta lutar contra o “sistema”, permeia a obra de Bukowski, mas pode ser enganador, pois o velho Buk, mesmo tendo se tornado famoso já depois dos quarenta anos, após penar em péssimos empregos e relacionamentos piores, conseguiu, afinal, enfrentar o sistema: tornou-se conhecido, foi publicado em várias línguas, e conseguiu mostrar um pouco do submundo de Los Angeles e da escória que o habitava a toda uma geração, e tudo isso bem na cara do “sistema”.

Ao contrário do que consta em sua lápide – “Don’t Try” – Charles Bukowski tentou e, mesmo que um pouco tarde, conseguiu. Longe de ser um pessimista, era apenas um cínico observador de seu tempo, que lutou em seus próprios termos.







Oam Patapai