Para o velho Coronel, a vida se resume a cuidar do galo de briga, da esposa tísica e aguardar pelo barco que traz a correspondência, na esperança de receber uma carta; mas não qualquer carta, e sim A Carta.
Enfrentando o cansaço, o calor, a falta de dinheiro e o olhar do povoado, o Coronel não desiste de sua espera.
A história de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez - assim como as histórias de todos os livros realmente bons -, pode ser interpretada de várias maneiras: alguns encontram um conto sobre a velhice, ou sobre a pobreza, ou sobre a solidão e o abandono etc. O que, porém, mais me salta aos olhos é a narrativa sobre a esperança, sobre a teimosia de não entregar, não se render.

O velho Coronel lutou em revoluções e perdeu. Ele pode ter entregado sua espada e seu uniforme, mas não rendeu sua integridade e sua esperança. Provavelmente desconfia que sua causa é perdida e inútil, mas desistir da visita ao correio é como desistir de viver, é como capitular frente ao que acredita e à sua própria idéia de mundo.
Ele é um cabeça-dura, um teimoso, que, como todos nessa condição, esconde, em sua persistência, o medo de estar errado, a incapacidade de admitir o erro; mas como isso é tudo que resta para seu ego, para sua auto-estima, não é vergonha nenhuma lutar uma última guerra, travar um derradeiro combate antes de perder a batalha final.
Na cabeça do velho Coronel, ainda existe esperança, mesmo no abandono e na solidão.
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Observações:
1) Essa pequena obra-prima de García Márquez possui um dos melhores finais que eu já li. Vale a pena conferir.
2) Existe um filme mexicano, de 1999, baseado em Ninguém Escreve ao Coronel. Não assisti.
Entre seus títulos publicados no Brasil pela Editora Record encontram-se: Crônica de uma Morte Anunciada, A Má Hora (O veneno da madrugada), Do Amor e outros Demônios, O General em seu Labirinto, Memória de Minhas Putas Tristes, A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada (contos), Os Funerais da Mamãe Grande (contos), A Revoada (O enterro do diabo), O Outono do Patriarca, Olhos de Cão Azul (contos) entre outros. Todos mais do que indicados.
Grande parte de seu trabalho pode ser encontrado, como dizia o reclame, nas melhores livrarias.
See ya...
Um comentário:
Caro Dr. Ribeiro.
Memória de Minhas Putas Tristes é deveras interessante. Cem anos de solidão é bão também, classicão.
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