terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Formação para a perdição

Eu vim em paz...




Para Henry Chinaski, a grande descoberta de sua juventude não foi o amor, ou uma vocação ou a literatura: foi a bebida, o álcool. Desde o dia em que provou, escondido, o vinho na casa de um colega, Chinaski soube que aquilo era seu Graal, sua passagem para o paraíso. O elixir que transforma a realidade e a torna melhor, nem que seja por poucas horas.


Diferente de muitos outros romances que tratam da formação de um indivíduo, da transformação da criança em adulto e de todos os seus dilemas, decepções, vitórias e amadurecimento, Misto Quente (Coleção L&PM Pocket, 2005), livro de Charles Bukowski (16 de agosto de 1920 – 9 de março de 1994), nos traz a odisséia desencantada, amarga, mas também bem-humorada de um garoto lutando para entender e se adaptar a um mundo que o rejeita com vontade.


A vida de Chinaski (alter ego de Bukowski, como querem alguns) não é nada fácil: pobreza, pai violento, mãe submissa, espinhas tomando o rosto e o torso, dificuldade em fazer amigos: tudo parece empurrá-lo para a revolta, a agressividade e a solidão. Porém, enquanto Holden Caufield, o anti-herói de O Apanhador no Campo de Centeio (Editora do Autor, 1999), de J. D. Salinger (1º de janeiro de 1919), transforma sua decepção com o mundo adulto em raiva acumulada, Chinaski apenas passa de desilusão em desilusão numa aparente apatia, na constatação de que o mundo é mesmo injusto e que revolta agressiva não leva a nada.



Fugindo um pouco da tradição da maioria dos “romances de formação”, onde o protagonista realmente aprende e tem um final “feliz” ou “otimista”, o livro do velho Buk é mais pessimista, não dando muita chance ao futuro de Chinaski. O que não é problema, já que o protagonista encara sua vida com tal objetividade, desencanto e desesperança, que se o futuro for melhor, vai parecer uma injustiça, um engano.



Misto Quente pode ser lido como uma “resposta” ao Apanhador no Campo de Centeio: enquanto Holden Caufield reclama da vida e da falsidade dos adultos; Henri Chinaski apenas aceita o destino e se protege com uma armadura de indiferença e cinismo, regada, em tempo, com boas doses de álcool.

A aparente alienação de Chinaski não parece causar estranhamento, pelo contrário, é desta perspectiva, que vai se tornando confortável, que pode melhor analisar o mundo e decidir como encará-lo, seja compactuando com seus “habitantes” ou desviando-se calma e insolentemente de suas regras e expectativas.

Enquanto a alienação de Holden Caufield aumenta à medida que sua compreensão do mundo cínico e falso dos “adultos” vai se construindo, Henri Chinaski parece encontrar um certo conforto nessa posição de “alienado”: Caufield é um lutador fadado ao fracasso, um questionador; Chinaski é um defensor que sabe que já perdeu, um fatalista.



Esse sentido de fatalidade, de que não adianta lutar contra o “sistema”, permeia a obra de Bukowski, mas pode ser enganador, pois o velho Buk, mesmo tendo se tornado famoso já depois dos quarenta anos, após penar em péssimos empregos e relacionamentos piores, conseguiu, afinal, enfrentar o sistema: tornou-se conhecido, foi publicado em várias línguas, e conseguiu mostrar um pouco do submundo de Los Angeles e da escória que o habitava a toda uma geração, e tudo isso bem na cara do “sistema”.

Ao contrário do que consta em sua lápide – “Don’t Try” – Charles Bukowski tentou e, mesmo que um pouco tarde, conseguiu. Longe de ser um pessimista, era apenas um cínico observador de seu tempo, que lutou em seus próprios termos.







Oam Patapai

2 comentários:

Jéssica DamanTi disse...

nossaaa adoreiii os seus comentarios sobre o caso e as fotus mais ainda parabens , ameiii seu blog .. bjos .

Giovani Iemini disse...

"Caufield é um lutador fadado ao fracasso, um questionador; Chinaski é um defensor que sabe que já perdeu, um fatalista."

perfeita observação, chapa.
eu sempre adorei bukowski e salinger, até por conta das obras que vc mencionou e, sim, tb havia percebido as nuances entre as personalidades dos dois personagens.
para mim, leitor, eles acabaram me completando emocionalmente: não me achei tão errado quanto o chinaski e nem tão abandonado quando o holden.

gostei pacas.

e as fotos são as mais clássicas. fera.