quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O talento, sua falta e a arte

(Esta é uma adaptação de um texto publicado no blog Palavras Gentis, nos idos de novembro de 2003.)

algum tempo assisti a um filminho bastante interessante cujo título original é “Max” (foi lançado em 2002, com John Cusack e Noah Taylor no elenco - não consegui descobrir o título em português, se é que existe) e que tem uma trama bem legal, tratando, ficcionalmente, da vida de Adolf Hitler como pintor ou seja: teria o sucesso como artista evitado que se envolvesse seriamente com a política?

Será que sua aceitação no meio artístico da época teria evitado que seu impulso natural de se tornar "grande" tomasse o rumo de uma guerra mundial e do extermínio de seres humanos em escala industrial?

Foi a completa falta de talento como pintor, como artista, que fez com que viesse a aprimorar sua capacidade retórica e, por assim dizer, propagandista, fazendo com que se envolvesse com a polítca incendiária da República de Weimar? Que desenvolvesse o movimento nazista?

É claro que o filme é um exercício ficcional, que abusa da “liberdade histórica” em nome do enredo, mas ainda assim dá um pouco o que pensar: será que todo grande artista é, lá no fundo, um cruento ditador? Ou que todo ditador, ou todo político-filho-da-puta (ôps, olha a redundância), toda pessoa que deixa a "autoridade" subir-lhe à cabeça e para agir como autêntica "otôridade" seria apenas mais um artista frustrado?

Talvez alguns de nossos alcaides sejam apenas um bando de pintores gorados, de cantores de banheiro cujos esforços infrutíferos para aparecer no programa do Chacrinha tenham se acumulado no fígado, ou no intestino grosso: daí o cheiro de desforra e de vingança que cobre muitas administrações desses verdadeiros feudos em que transformaram cidades e estados, cujos cargos políticos e administrativos são distribuídos como presentes e cala-bocas a um bando de incompetentes e facínoras.

Quem sabe tenhamos escapado de algo pior que o golpe militar de 64: Roberto Carlos poderia ter se transformado num grande político e chegado ao poder no lugar de algum dos presidentes militares e se tornado um Stálin tupiniquim, perpetuando-se no poder e descontando toda sua fúria e recalque nos descendentes daqueles que não compraram seus discos.

Brincadeiras à parte, o que gostei do filme (além da atuação de Noah Taylor como Hitler) foi que me deixou pensando por alguns momentos sobre a arte e aquilo que leva muitos a tentar caminhar nesse terreno imprevisível e falsamente mapeado para, no final, saírem frustrados, e se isso vale realmente a pena.

Sempre achei, como Oscar Wilde, que a arte, qualquer uma (principalmente a dança, que acho simplesmente insuportável, injustificável), fosse algo completamente inútil.

Alguns asseguram que essa inutilidade é que possibilita a alguma coisa ser considerada arte (outros defendem que apenas o fato de se colocar algo num museu ou galeria já caracteriza o objeto como arte, vide Marcel Duchamp); e devo esclarecer que a "inutilidade" da arte é naquele sentido utilitarista-concreto da coisa, ou seja, podemos viver sem as obras-primas de Jackson Pollock ou as partituras de Phillip Glass, mas não sem comida, água, oxigênio, álcool etc.


Porém, mesmo achando que a arte em geral não possui uma "utilidade" concreta, reconheço que esse vício de criação e interpretação artística já mudou a vida de muita gente, mesmo que num sentido restrito, local ou íntimo, e que, se não fosse por esses milhares (milhões?) de artistas frustrados que andam pelas ruas e que trabalham e se casam e bebem e têm filhos e pagam impostos e compram porcarias e votam e xingam a sogra, talvez essa droga de planeta fosse um lugar bem pior, onde notas musicais não fossem cantaroladas e onde imagens e palavras não alcançassem aquele lugar bem lá no fundo da alma, que muitas vezes esquecemos que existe, e que quando é estimulado, por bem ou por mal, ajuda a todos nós a agüentar mais um dia de sol e incerteza.

Ou seja: a arte, afinal, vale a pena.


Au revoir...



Oam Patapai

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Grimoires: magia, feitiçaria e o Tinhoso

Acabei de ler um livro chamado “O Clube Dumas”, de Arturo Pérez-Reverte, escritor espanhol, publicado pela Martins Fontes em 1995, e que foi a base para o filme “o Último Portal” (The Ninth Gate, 1999), do Roman Polanski

Sei que muitos odiaram o filme, mas não se enganem: o livro é um trabalho interessante, muito melhor que a película (apesar do final também ser anticlimático), que trata, entre vários assuntos (bibliofilia, livros raros, Alexandre Dumas pai, demonologia, satanismo, solidão, moral etc.) de “grimoires”, que são nada mais nada menos do que os famosos “livros de magia”, com descrições de encantamentos, poções, rituais, invocações, adivinhações, poderes “especiais”.

A erudição do autor é um dos atrativos d’O Clube Dumas, principalmente para os amantes de livros e os viciados em leitura, com muitas referências e homenagens incrustadas nas páginas, misturando livros reais com livros fictícios (no melhor estilo de Lovecraft e Borges).

Porém, não é sobre isso que quero discorrer, e sim sobre “grimoires’, livros “demoníacos” etc. e a fascinação que eles exercem.

No livro, Lucas Corso, o personagem principal, é contratado para autenticar um livro antigo e raro, publicado em 1666, e chamado “De Umbrarum Regni Novem Portis” (As Nove Portas do Reino das Sombras), cuja tiragem fora quase toda queimada, assim como seu ousado impressor, em 1667, sobrando apenas três exemplares.

Em sua peregrinação atrás dos outros dois exemplares para comparação, Corso esbarra em alguns eruditos em demonologia e discute os livros e o conteúdo dos mesmos.

Por curiosidade pesquisei na web acerca dos livros mencionados (vários fictícios) e descobri que muitos livros considerados “grimoires” estão à disposição na Amazon-ponto-com (o “Livro de São Cipriano”, seja capa preta, de aço, de “whatever”, famoso aqui no Brasil é um “grimoire”, de origem espanhola/portuguesa, provavelmente do séc. 18, mas não achei na Amazon), assim como existem várias páginas na internet que discutem o assunto, algumas tentando dar uma base séria aos visitantes, com exposição histórica e fundamentada, e outras simplesmente de gente, digamos, bastante empolgada com “assuntos proibidos”, “ocultos”: mais adeptos de pseudo-ocultismo do que outra coisa.

H. P. Lovecraft, escritor americano bem conhecido dos fãs de literatura de horror, criou o famoso “Mito de Cthulhu”, uma série de histórias razoavelmente interligadas que faziam referência a seres antiqüíssimos e malévolos que (grosso modo) esperavam o momento de voltar à Terra e reinar novamente. Dentro deste ciclo mitológico, criou também um “grimoire”: o Necronomicon, escrito pelo árabe louco Abdul Alhazred.

Esse “grimoire” fictício foi tido como real e causou algumas confusões tanto no mundo erudito como no mundo dos “fãs”, sendo que hoje é possível encontrar algumas versões do mesmo por aí (sim, na Amazon-ponto-com), por diversos autores inclusive. Muita gente acredita (ou prefere acreditar) que o livro existe “de verdade”, ou seja, que foi escrito “realmente” pelo árabe doido, e que “funciona”.

Vários dos “grimoires” disponíveis no mercado, porém, têm passado e origem um pouco melhores que o Necronomicon, já que existem edições comprovadamente antigas, algumas do séc. 13.

Analisando alguns desses livros com passado comprovado, percebe-se que que são verdadeiros catálogos de influências de várias culturas, tanto pagãs, ou bárbaras, quanto cristãs, judaicas e muçulmanas. Seus autores foram verdadeiros compiladores de tradições ditas “mágicas”, coletando fórmulas, rituais, preces, amuletos etc.

É possível encontrar receitas para tratar doenças, preces de cura, fórmulas para proteção contra demônios, rituais para invocação de demônios ou anjos, instruções para construção de amuletos, regras de convívio, regras alimentares, descrições de plantas e animais (sejam reais ou imaginários), entre outras coisas.

A autoria de muitos destes “grimoires”, é claro, fica difícil de comprovar: os autores, por motivos óbvios, tinham certo receio de assumir suas obras abertamente, afinal, se os leitores já iam para a fogueira, imaginem os escritores. Por isso, estes trabalhos costumavam ser atribuídos a reis, santos ou filósofos (de preferência, já falecidos): uma característica típica da época, que servia para dar certa credibilidade à obra (existe um tratado de alquimia cujo autor seria São Tomás de Aquino, assim como o Rei Salomão seria o autor de “A Chave de Salomão” – que existe em português, caso estejam curiosos).

Uma curiosidade bem interessante é que em alguns destes livros, principalmente nos mais antigos, os “rituais” não são necessariamente “demoníacos” ou anticristãos, já que Deus é mencionado e até mesmo respeitado e invocado, sendo a ele pedida a permissão para se atuar por meio de fórmulas e preces “específicas” (ou seja: não sancionadas pelo poder religioso dominante), muitas vezes oriundas de cultos cristãos não reconhecidos pelo “Poder de Roma” ou de antigas seitas semitas.

A Igreja Católica, em particular, conseguiu, com o tempo, fundir magia, paganismo e satanismo num mesmo objeto; mas isso não é (ou era) verdade. A chamada “magia” nada mais é do que um rótulo que se aplica comumente aos rituais e cerimônias de origem pagã: invocações das forças da natureza, da “mãe-terra”; celebrações de entidades das florestas (o carnaval era uma originalmente festa pagã que foi “cooptada”, adaptada aos gostos cristãos – se bem que hoje é só sacanagem, mas vá lá) entre outras manifestações.

O satanismo, por outro lado, como o próprio nome indica, se refere a Satã, e é bem mais difícil de se definir, já que existem vários tipos de “satanismo”: alguns se referem ao culto ao capeta da tradição cristã, outros o identificam com antigas práticas pré-cristãs, ou ainda a outra entidade fora da tradição cristã, ou ainda a um tipo de neo-paganismo, ou ainda a tudo o que venha a afrontar a moral cristã estabelecida.

Porém, os papistas, para questão de simplificação, derrubaram tudo no mesmo pacote: se não aceitam, é satanismo, magia negra, coisa do cramulhão, obra do tinhoso etc.

Ressalva: não confundam satanismo com demonologia, que é o estudo das figuras demoníacas características de cada religião, ou seja, cada uma delas tem sua própria lista de capetas, todos devidamente catalogados, com descrições, interpretações, “modus operandi” e devidos “antídotos” (já imagino até um título de livro: “Exorcismo: modo de usar”). Mais ou menos assim: demonologia é uma “ciência”, satanismo não.

Bom, mas de volta aos “grimoires”.

A fascinação que “livros proibidos/banidos/censurados” causam nas pessoas é evidente. Nada melhor do que ler algo escondido dos “outros”, algo pecaminoso, que não se deveria ler.

Uma das reações à censura de qualquer tipo é: por que não posso ter acesso a isso? Seguida de: será que isso não é bom para mim ou para os censores? Que encaminha para: eles têm medo disso, por isso não querem que eu conheça. Que pode culminar em: então é isso, informação/conhecimento deve ser Poder (uma das várias interpretações da atuação da serpente/satã em relação ao casal primordial é justamente essa: acesso a informação/conhecimento era tabu; ou seja, o diabo deu conhecimento ao homem, que se lascou no processo).

E nada melhor para se sentir “poderoso”, “perigoso”, “especial” e “corajoso” do que ler um livro com ditos “ensinamentos secretos”, “segredos antigos” e outras baboseiras. Daí a proliferação dos “livros de magia”, sejam de mentirinha ou não (quanto à origem, e não quanto aos “efeitos”; que fique bem claro).

Apesar de tudo, porém, acredito que os “grimoires” comprovadamente escritos há séculos devem ser uma excelente fonte de estudo para historiadores, sociólogos, antropólogos etc; afinal, seu conteúdo resistiu à “caça às bruxas” histórica perpetrada pelos papistas e seus colegas luteranos e traz até nós muitas informações interessantes sobre crenças antigas, sobre a relação do homem com o sobrenatural e, por que não, sobre a evolução do próprio pensamento religioso.

Obrigado pela atenção.




Oam Patapai

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Onze de outubro de 2008: Uli Jon Roth em Nova York - Postagem nova e melhorada



Acordei de excelente humor (o que é raro) no meu segundo dia em Gotham, por volta das nove da manhã. Havia dormido como uma pedra e me sentia muito bem. Rapidamente me vesti e desci para procurar um lugar para tomar o café da manhã.

Na verdade não escolhi nada, simplesmente voltei ao Gramercy Bagels e repeti o sanduíche de pastrami do dia anterior, agora com mais traquejo na hora de pedir (escolhi o bagel com cebola e uma salada muito boa, que vem em um copo plástico e cujo nome não me lembro), e sempre cercado pelos cadetes da academia de polícia de NY, os próximos a se juntarem aos “The New York Finnest”, como diz o distintivo.


Após este lauto café da manhã, parti para minha primeira “aventura consumista”: dar uma conferida na Strand Bookstore (http://www.strandbooks.com/), que fica na rua 12, esquina com a Broadway, perto do hotel, para minha sorte.

Caminhei calmamente, observando a cidade e seus habitantes naquela manhã de sábado movimentada. O clima estava ameno: ideal para perambular por aí, a esmo, mas consegui me controlar e mantive o rumo principal.

Desci a terceira avenida e virei na rua 14, em direção à Broadway. Cheguei à Union Square, lotada com pessoas espalhadas por toda sua extensão, uma mistura de jovens estudantes de cinema (a New York Film Academy fica por ali), pessoas entrando e saindo da estação do metrô da praça, vendedores ambulantes (livros, fitas VHS, bugigangas, camisetas, bolsas, comida), distribuidores de panfletos, turistas, pedintes, e uma menina de verde carregando um cartaz que não consegui ler direito). À minha esquerda vislumbrei uma das lojas da Virgin Megastore: ótimo, já tinha localizado um dos alvos da viagem, mas ficaria para outro dia.

Fui até a Broadway e desci para a rua 12, onde encontrei a Strand, com sua fachada gigante e toldo vermelho (“18 miles of books”, é o que diz).

O lugar é o verdadeiro paraíso para os apreciadores de livros e fanáticos do gênero: estantes enormes até o teto, bancadas com sugestões, tudo dividido por assuntos, uma beleza. Os preços são excelentes, muitos livros usados em ótimo estado e inúmeros lançamentos com valores abaixo da tabela.

Comecei pelos lançamentos e novidades, com calma, e fui progredindo em direção ao fundo da loja: cinema, história, literatura americana, literatura mundial, biografias, clássicos etc.

Fiquei umas duas horas enfurnado por lá, rodando em êxtase entre milhares de livros e, como era de se esperar, juntando vários deles debaixo do braço (alguns quilos).

Acabei com uma pilha ridícula diante de mim. Teria que fazer uma seleção cuidadosa. Não podia (ou não deveria) gastar tanto.

Depois de muita avaliação acabei por selecionar poucos títulos: uma biografia do Kafka, uma biografia do Jack Kerouac, uma biografia do Mack Sennet (diretor e produtor de cinema dos anos 10 e 20, que contratou Charlie Chaplin e deu a ele papel em seu primeiro filme, de 1914), dois livros de culinária, um exemplar do On the Road: The Original Scroll, do Jack Kerouac e uma edição comentada do Drácula, do Bram Stoker. Deixei muita coisa para trás. Pobreza é uma merda.

Marchei resignado para o caixa, mas ainda catei uma “sacola de mensageiro” no merchandising da loja.

Havia lido na rede que o atendimento na Strand era terrível, com funcionários mal educados e bastante grosseiros. Não tive o azar de me deparar com algum funcionário enfurecido, mas realmente o staff não era dos mais amistosos. Davam informação com uma indisfarçável cara de enfado, como se estivessem abrindo uma exceção terrível para você, um chato comprador em potencial.

Anyway, paguei e fugi para o ar da cidade.

Logo ao sair, e dar alguns passos sob o peso da minha mochila carregada de “literatura”, me deparo com a Forbidden Planet, que é uma loja famosa que vende livros/DVDs/quadrinhos/bonecos/camisetas/miniaturas/posters etc. relacionados a filmes de terror, ficção científica, fantasia, anime (a grande onda do momento) e super-heróis.

Como um de meus objetivos na viagem era encontrar alguns filmes de terror antigos, fiquei bem animado e decidi entrar. Decepção.

A loja é até legal, não se enganem, mas não é tudo o que imaginava: pequena, a parte de DVDs é minúscula (eu devo ter mais em casa) e só tinha anime.

Dei uma volta, tirei umas fotos (comentário gigante: enquanto rodava no muquifo, um ator americano chamado Jon Stewart entrou na loja com o filho de uns 10 anos. Ele é um comediante famoso na gringolândia e tem um programa chamado The Daily Show na TV. Bem, eu havia acabado de perguntar se poderia tirar umas fotos dentro da loja, e haviam liberado. Até aí tudo OK. O problema foi que o gringo me viu tirando a câmera do bolso e ligando; então, obviamente pensou que eu queria tirar fotos dele, ou com ele, ou do filho dele, sei lá, e me olhou com uma cara realmente desagradável. Percebi a confusão e, como o cara estava com o moleque e eu também não queria confusão e nem ficar me explicando para ninguém, simplesmente guardei a câmera de volta e esperei a figura sair da loja), achei um livro legal para comprar (que por acaso não é de terror nem de ficção científica) e resolvi voltar para o hotel para dispensar o butim.

Voltei por outro caminho, observando a cidade e seus peculiares habitantes.

Em Nova York, uma coisa excelente de se observar são seus cidadãos, dos mais diversos tipos e com gostos definitivamente peculiares para o vestuário.

Você encontra engravatados da Wall Street; patricinhas derivadas das Paris Hiltons da vida; punks (sim, com moicanos e tudo); rappers (trajados de acordo); pessoas idosas, muitas naqueles carrinhos motorizados que costumam aparecer nos filmes; gente fazendo cooper no meio da calçada; judeus ortodoxos; árabes em túnicas brancas; muitos latinos; e duas coisa que me chamaram a atenção especialmente: uma quantidade alarmante de gente doida na rua, falando sozinha (não, não era aquele celular no ouvido, não, eu prestei atenção), e diversos concorrentes a “louco assassino do ano”.

É sério. Vocês já devem ter visto fotos do cara que fuzilou John Lennon: olhar vago, pinta de deslocado e aqueles óculos enormes. Pois é, vi muitos destes em NY. Sendo que um em particular foi o melhor de todos: devia ter um metro e oitenta, mais ou menos, magérrimo, com uma camisa branca, canetas saindo do bolso da camisa (juro, não é sacanagem), calça marrom, o pouco cabelo lambido na testa, óculos enormes, mãos trêmulas e aquele olhar perdido, típico de gente biruta. Um misto de seminarista tarado com nerd punheteiro.

Era fácil imaginá-lo em casa, com o armário coalhado de quinquilharias, lembranças bizarras, recortes de jornal espalhados por todo o canto, um diário com escrita miúda e uma TV antiga no canto da sala, na frente da qual passa as noites se masturbando enquanto assiste a programas religiosos. Assustador. Deveria ter fotografado o dito cujo, discretamente, é claro.

O número de figuras bizarras e, de vez em quando, inquietantes nas ruas da Grande Maçã não se limitava aos lunáticos evidentes; tem de tudo, pelo menos na aparência: gângsteres, membros de gangues, terroristas, carteiros atiradores, viciados etc., principalmente no metrô.

Mas você se acostuma, e passa a “apreciar” a fauna, o que ajuda a matar o tempo, principalmente nas transferências subterrâneas.

Cheguei ao hotel com as pernas doendo absurdamente (achei que tinha destruído minhas panturrilhas para sempre, já via muletas se aproximando).

Derrubei a carga no cubículo a mim designado (quarto 520) e fui atrás de almoço. Encontrei outro restaurante bem perto do hotel e me sentei para um tradicional brunch nova-iorquino: ovos com filé. Excelente.

Ainda dei uma volta pelas redondezas após sair do restaurante, para ajudar na digestão, mas fui para o quarto dar uma descansada antes de partir em direção a “uptown”.

Planejara ficar uma meia hora enrolando no quarto, dando uma olhada nos livros, para então tomar o rumo do local do show. Acabei numa dormida involuntária que por pouco não esculhamba meu planejamento.

Acordei e parti apressado em direção ao objetivo principal do dia: Uli Jon Roth and friends, no B.B. King Bar Grill, na rua 42.

Decidi seguir pela quinta avenida e fui subindo por Manhattan. A tarde estava excelente, com o trânsito bem movimentado e muitos de nós (turistas) atravancando calçadas, lojas e restaurantes, sempre munidos de câmeras diversas para fotografar ou filmar familiares, amigos e agregados, ou simplesmente registrar a cidade.

Curiosidade: durante toda minha estada, cruzei com muitos pais e mães empurrando carrinhos de bebê pelas ruas, e notei que quase sempre as crianças que estavam acordadas mantinham os olhos vidrados para cima, observando curiosamente, e realmente pude constatar o porquê (no começo pensei apenas que os moleques estivessem grogues): o “céu” de NY é demais. Digo com aspas porque não é apenas o azul ou as nuvens, são os arranha-céus que chamam a atenção, recortando o céu e marcando o visual dos pedestres como se andassem em vales ou cânions. Algumas vezes me lembrava das descrições de arquiteturas ciclópicas e intrincadas de H.P. Lovecraft e elas pareciam se encaixar perfeitamente naquele ambiente (ele viveu por um breve período em NY, chegando ao Brooklyn em 1924; não sei como era a cidade na época e se isso influenciou em alguma coisa, mas tudo bem).

Cheguei à rua 42, mas ainda havia tempo de sobra até começar o show, por isso resolvi fazer um reconhecimento dos arredores: azar o meu.

Perambulando pelas ruas encontrei uma tabacaria e entrei. Escolhi uns três charutos para consumo posterior e comprei um cachimbo para Mr. Nascimento, que tinha pedido que levasse, além de sua encomenda principal, “quinquilharias” para seu deleite.

Até aí, tudo bem, o problema foi que, continuando o reconhecimento, me deparei com uma das filiais da Barnes & Noble (http://www.bn.com/), uma cadeia de livrarias que também possui, em algumas lojas, uma grande seleção de dvds. Dancei bonito.

Entrei pensando em apenas olhar e matar o tempo, mas quando cheguei na seção de dvds me lasquei: perdi o controle e estourei o orçamento. Achei muitos títulos que são inéditos no Brasil, muitas edições especiais, muitos filmes de terror antigos, filmes mudos clássicos. Foi bem difícil selecionar e deixar boa parte da colheita para trás. Droga.

Alguns dólares mais leve depois, bati em retirada para o local do show: B.B King Bar and Grill, na rua 42, entre a sétima e a oitava avenidas.
Cheguei lá uns 40 minutos antes do evento e fui ao guichê pegar o ingresso que havia comprado ainda no Brasil, pela web.

O lugar é bem legal: fica no subsolo e tem um longo balcão perto da entrada, num nível um pouco mais elevado que o espaço à frente do palco, e com uma excelente visibilidade do mesmo. De acordo com um garçom, a casa comporta 600 pessoas sentadas (quando o show é com mesas) ou 2.000 em pé (sem mesas). Nesse dia, particularmente, seria com mesas, no esquema de quem chega primeiro pega os melhores lugares.

Imediatamente ao entrar, fui interceptado por um garçom que me perguntou onde queria ficar, se estava acompanhado etc. Como estava só, o cara me conseguiu um lugar ótimo, em frente ao palco, duas mesas a partir dele e na companhia de três americanos (é isso mesmo, as mesas não são “exclusivas”, comportam umas 6 ou 8 pessoas, e você as compartilha com estranhos).

Bom, como era o “novato” na mesa, me apresentei e sentei. Os caras eram bem tranqüilos e foram bastante simpáticos: um deles havia namorado uma brasileira e conhecia algumas palavras, expressões e palavrões; outro estava com uma camisa muito velha do Scorpions (“...I kept this from junior high...”) e encontrava velhos conhecidos o tempo todo; o terceiro estava preocupado com a esposa (ligou para ela umas duas vezes) que, me pareceu, não estava muito contente com o fato do sujeito estar no show (“...I have to take my kids to school tomorrow, you know...”). Esqueci o nome deles agora, mas acho que um era Mike; bom, não interessa. Pedi uma Guinness ao garçom, um petisco de camarão e esperei, batendo papo com os gringos.

Exatamente às 20h (a pontualidade foi incrível) as luzes se apagam e soa a introdução.Só posso descrever o show de uma maneira: INACREDITÁVEL...

Para quem não sabe: Uli Jon Roth foi guitarrista do Scorpions, banda alemã de heavy metal, durante os anos 70, com a qual gravou 4 discos de estúdio. Em carreira solo desde 1979, ele estava ali para apresentar seu mais novo disco, Under a Dark Sky.

Mas vamos ao show: eram dois vocalistas, Mark Boals, que já cantou com o Malmsteen (que, aliás, é fã do Uli Jon Roth), e Liz Vandal, uma mina que eu não conheço, mas que canta muito (interessante: nos duetos de voz, ela fazia voz grave, enquanto o Mark Boals fazia os agudos), além de baixista, guitarrista-base (que fazia alguns duetos com o Mestre), tecladista e baterista.

O velhinho, é claro, estava tocando muito, para caralho ou mais, fantástico.Após as duas primeiras músicas, Uli Jon conversa um pouco com o público e diz que, após tocarem umas músicas do disco novo (muito boas por sinal), obviamente executarão alguns clássicos do Scorpions para o deleite de todos, depois do que se seguirá a parte “and friends” do show, com convidados subindo ao palco para “duelar’ com o alemão.

O show seguiu arrebentando e deixando o público hipnotizado.

Após de algumas versões extraordinárias de músicas do Scorpions, começando com Fly to the Rainbow e incluindo Pictured Life, In Trance e We`ll Burn The Sky (esta cantada pela tal Liz Vandal, e que foi uma das melhores coisas que eu já presenciei), começam a entrar os convidados.






Primeiro, Chris Caffery, do Savatage, sobe para uma versão absurdamente maravilhosa de Catch Your Train (Mark Boals arrepiando). Depois entra um tal de Joe Stump, que não conhecia, mas que tocava muito. Infelizmente, sua guitarra deu pau em cima do palco, o que fez com que Uli Jon tivesse que improvisar um pouco até o cara conseguir tocar (o Chris Caffery, que também estava no palco, ainda tentou emprestar sua guitarra, mas o tal Stump recusou). Problemas sanados, mais um som para a galera. Detalhe: várias músicas do Jimi Hendrix foram executadas na noite.

O melhor, porém, ficou para o final: Alex Skolnick, do Testament, sobe ao palco para encarar o alemão em uma versão estendida e linda de All Along The Watchtower, seguida de outro som do Hendrix (o Uli Jon Roth é tão fanático pelo Jimmi que foi casado com Monika Dannemann, a última namorada e a última pessoa a ver Hendrix com vida).





Encerrados os encores e as jams, com o público implorando por mais, o Mestre se despede e indica que subirá até o saguão para fotos e autógrafos.

O show começara exatamente às 20h, e acabara às 22h (ainda haveria outra apresentação no lugar, de outra banda, cujo público já se encontrava enfileirado na calçada em frente ao B.B. King); cerca de 15 minutos antes do fim, o garçom já traz sua conta, sem discussão.

Subi rapidamente, seguido por um dos gringos, e comprei o cd mais novo do alemão, enquanto a galera começava a se aglomerar esperando Uli e o resto da banda.

O alemão chegou junto com o Mark Boals, e consegui o autógrafo dos dois, no cd, é claro. Depois, entrei na fila para tirar umas fotos e, após consegui-las, fui para a calçada, incentivado pelos seguranças do local, bastante educados, mas com uma disposição pouco amistosa ou tolerante.

Do lado de fora, ainda ajudei o gringo que vinha na minha cola a tirar umas fotos e consegui falar com o Skolnick, com o Chris Caffery (que disse que iria ao Brasil em junho ou julho de 2009) e com a Liz Vandal.

Dei um tempo por ali, troquei endereço de e-mail com o gringo e decidi que era hora de voltar para o hotel.

Saí então andando empolgado pela noite nova-iorquina, apreciando Times Square e o movimento entre teatros e restaurantes, e decidi comer num daqueles carrinhos de comida árabe que se espalham pela cidade. Comprei um churrasquinho safado (esqueci o nome, mas não passa de um churrasquinho safado) com pão e uma garrafa de suco e fui comendo. Resolvi descer pela Broadway até o hotel. No caminho, verifiquei que ainda estava com fome e parei em uma deli (de delicatessen, mas que nos EUA designa um tipo de loja que vende quase tudo: comida pronta, enlatados, frutas, jornais, pães, leite, refrigerantes, cerveja, loteria etc.) para comprar algumas guloseimas.

Cheguei ao Hotel 17 cansado mas feliz, com minhas pernas reclamando e latejando (já iria me acostumar).

Peguei um pouco de gelo no saguão, subi, tomei uma ducha, comi alguma coisa, dei uma conferida no que arrebatara durante o dia, calculei meu prejuízo e decidi ir dormir. Pensar em problema com grana, só no dia seguinte.

Apaguei.



Oam Patapai

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Back in the New York Groove - Remaster Edition

I bid you welcome...


Bom, começa hoje a reedição dos posts de Nova York, agora mais detalhados e com acentos e cedilhas.


Enjoy...



Como alguns poucos já sabem, saí de Brasília às 18h do dia 9 de outubro num maldito airbus da TAM (apertado? Não, não...) com destino a São Paulo (Guarulhos), na minha primeira e única escala rumo a Nova York, ansioso e pronto para minhas primeiras férias de verdade.

O vôo foi normal, nada de excepcional (fora o fato de que eu detesto voar), e para minha surpresa, não precisava pegar a bagagem em Sampa: ela ia direto pros States (não sabia se isso era bom ou ruim: acabou sendo bom). Mas, pelo menos, teria uma folga da mochila tão abarrotada quanto pesada pelo meu cabedal. Em São Paulo, após esperar algum tempo, adentrei a sala de embarque para aguardar a hora de “abordar” o avião da Japan Air Lines a mim designado e comecei a me preocupar levemente: havia uma quantidade expressiva de judeus por ali. Será que iam para Nova York? E em que avião? Não que tenha algo contra judeus, mas a idéia de viajar num avião cheio deles - nesse exato momento da história, onde seqüestros e bombas se tornaram “corriqueiros” - me deixou cabreiro.

Continuei observando a fauna local e tentando adivinhar quem iria no meu avião: obviamente muitos dos japoneses por ali, já que meu vôo para NY era uma escala da travessia para Tóquio; alguns judeus provavelmente; um grupo de peruas talvez; uma mulher absolutamente inconveniente, falando alto e vestida com um uma roupa colada e uns três números menores (reclamando da temperatura e repetindo à náusea que NY era “liiiiiiiiiiinda, vocês vão adorar, adorar”), tomara que não.

Continuei minha avaliação, e qual não foi minha surpresa quando vislumbrei entre os presentes o Dr. Ulisses Guimarães, que foi presidente da Câmara dos Deputados e Ministro da Indústria e Comércio do Brasil. Pensei em como ele andava sumido e como era inusitado encontrá-lo ali, em Guarulhos, esperando um embarque internacional.

Pensando bem, era não só uma coisa inusitada ou surpreendente, mas uma impossibilidade, pois o Dr. Ulisses morrera em 1992; se bem que seus restos nunca foram encontrados. Aparentemente, a morte (ou desaparecimento) havia feito bem a ele: estava mais magro, mais corado e bem mais alerta do que a última vez em que o vira na TV. Não consegui me decidir se queria que fosse no meu vôo ou não.

Enquanto avaliava as possibilidades de companhia tão peculiar, tão paranormal, finalmente chamam para o embarque, com a primeira classe e a classe executiva na frente, e a classe econômica (nós mortais) por último.

A troca do vôo da TAM, um maldito airbus, pelo 747-400 da Japan Air Lines foi um verdadeiro choque: para melhor e, como não poderia deixar de ser, para pior.O avião é gigantesco, o serviço de bordo é bastante cordial e mesmo viajando na classe econômica tive direito a TV na poltrona, um grude excelente e até videogame (aliás, existem duas câmeras no exterior do avião uma em baixo e uma no nariz, e é possível acompanhar a decolagem e o vôo, mas como a viagem foi noturna, só assisti à decolagem e a um pouco da chegada). Essa é a parte boa. Agora a ruim: não consegui lugar no corredor e minha “bela” poltrona era tão apertada que dormir era simples e totalmente impossível; sem falar que a mulher biruta e vulgar da sala de embarque ficou na poltrona EXATAMENTE atrás da minha (...ah, o destino e seu senso de humor...); e nada do Dr. Ulisses.

Minha maratona de 9 horas para Nova York começara: de pé esquerdo, mas tudo bem.

Fiquei sentado entre duas senhoras japonesas, digo, uma era mesmo japonesa, a outra era nipo-brasileira, descendente, e ambas iam para Tóquio. A nipo-brasileira (não perguntei o nome) foi bastante simpática e me ajudou a desvendar os pratos que foram servidos (aliás, muito bons). Se a viagem foi ruim para mim, que mal cabia na poltrona, para elas não foi muito melhor.

Para piorar, nossa querida “sem noção” falava alto e futricava no bagageiro acima com uma freqüência deveras irritante.

Dormir era impossível, logo, decidi assistir a um filme, sim, sim, filme. Eram vários à disposição, e escolhi o novo do Indiana Jones. Não sei se era meu cansaço que começava a acumular, ou as dores causadas pela posição em que era obrigado a ficar, mas o filme estava bastante chato, sem graça: parecia um pastiche dos anteriores. Desisti lá pela primeira hora.

Resolvi mudar para a música. Ouvi um pouco, e logo uma comoção próxima intimou minha atenção: minha cruz falastrona e espaçosa resolvera que queria trocar de lugar. A poltrona que não era confortável para mim também não era para ela (“...nossa, muito ruim, num tô agüentando, gente, que quié isso...”). Convocada a chefe das comissárias, tentaram encontrar um lugar para a queixosa (ah, a cordialidade e a polidez nipônicas) na aeronave lotada. Pensei em sugerir um lugar no lado de fora, mas poderia ser mal interpretado.

Como manda o bom azar (...esse comediante...), o local encontrado era duas cadeiras à frente da minha, à esquerda, perto da porta de emergência (parece que o tal lugar não é ocupado com freqüência, devido à posição, sendo na verdade ainda mais estreito que a cadeira econômica, mas tem um bom espaço para as pernas, que parecia ser o motivo da chateação da louca). Dez minutos depois, a maldita porta-voz de puteiro se arrepende e bate em retirada para seu antigo poleiro, com o devido estardalhaço (“...ai, ali não, ali não, é pior, meu Deus, que quié isso...”). Aumentei o volume do iPod.

O dia foi se aproximando e a exaustão se instalou totalmente. Antes do café-da-manhã ainda consegui cochilar uns 20 minutos numa posição digna da yoga, mas pouco adiantou.

Aterrissamos no JFK (o aeroporto, e não o filme do Oliver Stone), em Queens, por volta das 7 da manhã (horário local). Agora era desembarcar, ir atrás da bagagem torcendo para que não a tivessem enviado para Bora-Bora e encarar o serviço de imigração gringo e a respectiva aduana.

Fiquei imaginando a paranóia dos funcionários americanos pós 11 de setembro: iriam me obrigar a abrir a mochila estufada que carregava? Tirar a roupa? E se implicassem com meus petrechos pessoais? Ou com meu dinheiro (era muito, ou era muito pouco)? Enquanto aguardava na fila ia elaborando novas maneiras de se constranger um turista, observando a impaciência e a rudeza dos funcionários do aeroporto (“...number twelve please...over there...I said twelve...ten, eleven, twelve...no sir, TWELVE...yes...wait behind the yellow line...BEHIND, sir...yes, yes...thank you...”). Chegou a minha vez de seguir para o guichê (“...sixteen, sir...thank you”) e fui tentando parecer calmo:

- Good morning, sir, how are you?

- Just fine, thank you.

- It’s your first time in the country? (Olhando o passaporte e depois colocando-o numa máquina.)

- No, I came here about…

- Why are coming to the United States? (Olhando o passaporte e conferindo com minha cara.)

- Turism.

- How long are you staying?

- Twelve days.

- OK, sir. You can go. Thank you.

Oba, uma etapa já foi, imigração, agora é a alfândega. E não se deixem enganar pelos “thank you”, eles foram formais, gelados, indiferentes.

Progredi em direção a um funcionário da alfândega, que estava sentado folgadamente em cima de uma mesa e indicava a uma família exausta (pais e dois filhos pequenos), displicentemente, a direção que deveriam seguir: direto para a inspeção de bagagens, umas mesas um pouco para trás do sujeito, onde enormes funcionários aduaneiros já reviravam os pertences de algum coitado.

O casal com dois filhos pequenos era obviamente suspeito, já que trazia três malas grandes, sacola com fraldas e mamadeiras e, para completar, um ameaçador carrinho de bebê. Eles pediram por isso.

Me aproximei:

- Hi, sir. How are you?

- Fine, thank you.

- That’s all your luggage? (Apontando para minhas duas mochilas.)

- Yes.

- So, you’re a light traveler.

- I think so…

- That’s Ok, sir. You can go. Have a nice stay.

Agradeci e fui em frente, pensando que era pegadinha. Mas não. Fora liberado sem mais nem menos. Acho que não tenho cara de terrorista nem de imigrante ilegal.

Foi um verdadeiro alívio, pois imaginava muita chateação com os gringos. Alguém havia me contado (não me lembro exatamente quem) sobre sua experiência para entrar nos Estados Unidos, e isso me deixou um pouco apreensivo. Pelo relato, os caras eram muito rigorosos, barrando a minúcia policial em muito, e apegados a detalhes. Eram tão minuciosos que algumas pessoas poderiam se sentir obrigadas a apresentar o funcionário aos pais, tamanha era a "intimidade". Anyway, já estava fora do alcance deles.

Perdi alguns minutos tentando me localizar e parti para procurar uma condução para o hotel. Achei o tal do Air Train, um trem que faz o circuito completo ao redor do aeroporto, e embarquei ainda tentando adivinhar onde saltaria para pegar a van que me largaria no hotel. Com um pouco de sorte desci na plataforma certa e encontrei o guichê da Super Shuttle, onde uma dama com cara de cantora de blues me fez pagar (“...it’s nineteen dollars, honey...”) por uma carona. Tive que aguardar enquanto iam “lotando” a van, e fui comprar algo para beber, mas a espera foi curta. Em poucos minutos chamaram meu número e partimos para Manhattan sob o sol de outubro.

Os 40 minutos de viagem até o hotel foram desafiadores. Passada a adrenalina da recepção no país, o esgotamento das quase 20 horas sem dormir chegou para ficar. Lutei para permanecer acordado: lasquei volume no iPod.

Consegui chegar ao hotel alerta, mas ainda eram 10h da manhã, e o check-in era apenas às 15h (...ah, fuck...). O recepcionista do hotel porém já estava acostumado e preparado para estes “imprevistos” e pôs uma identificação nas mochilas e guardou-as no depósito, onde ficariam calmamente esperando meu retorno.

Como havia muito tempo para matar até a hora H, saí procurando um lugar para comer.

Uma coisa boa em Nova York é que existe praticamente um restaurante/deli/café/diner/bakery em cada quarteirão. As opções são quase inesgotáveis.

Meu hotel ficava na rua 17, entre a segunda e a terceira avenidas (no chamado Gramercy District), com um nome bem peculiar: Hotel 17 (criativo, não?). Progredi em direção à terceira avenida e tomei a direção “uptown”, subindo da rua 17 para a 18, 19 etc. Uns três quarteirões depois me decido por uma bakery (a padaria deles): Gramercy Bagels.





Entrei e me misturei a um bando de cadetes da academia de polícia de Nova York: a tal academia era por perto, pois de manhã e à noite era praticamente impossível não localizar grupos de cadetes percorrendo as ruas em seus uniformes cinza e suas sacolas pretas com o cassetete acoplado ao lado.

Escolhi um sanduíche no cardápio suspenso acima dos atendentes e aí começou meu aprendizado acerca das peculiaridades alimentícias americanas. Sim, porque é comum, ao se pedir um sanduíche ou um prato, ter que especificar tudo o que se quer: qual tipo de pão; qual tipo de salada; qual tipo de carne; de molho; com ou sem pimenta; se o café é descafeinado; se o leite é integral; light ou com baunilha; qual sopa; se o chocolate é com nozes, avelãs etc.; o ponto da carne; o ponto dos ovos; quantos ovos na omelete, e por aí vai.

O atendente ouve meu pedido e começa: qual bagel eu quero? (Bagel é um pão bastante comum nos States, principalmente onde a imigração judaica é mais presente.)

- Como assim?

- Normal, com cebola, com alho, com farinha integral, com isso com aquilo?

- Pedi normal.

- Qual a salada?

- Lá vamos nós de novo: qualquer uma.

- Pode ser sauerkraut?

- Pode.

- O senhor quer o pastrami assim ou assado? Esse sanduíche permite que o senhor escolha entre estes tipos.

- Desisti: olha, eu sou um turista, e não estou acostumado com isso, pode fazer do jeito que você quiser.

- Ok, senhor, vou caprichar.

E caprichou mesmo, o sanduíche estava delicioso. Lavei a goela com um chá gelado de limão e me senti muito melhor, pronto para a primeira missão na Grande Maçã: comprar uma máquina fotográfica para mim.

Deixei a bakery e rumei em direção à rua trinta e quatro esquina com a nona avenida, onde fica a B&H, uma loja de eletrônicos famosa entre os muambeiros/turistas.

Caminhei sem pressa, admirando a cidade e curtindo a manhã. A temperatura estava bem agradável para quem esperava um frio dos diabos ao chegar. Tudo certo até agora, tudo bem (ou quase).

Quase quinze quarteirões depois, a poucos metros do local escolhido, minhas pernas resolvem me trair: câimbras alucinantes explodem na panturrilha esquerda. Não estava acreditando. Justo agora? Longe do hotel? Era só o que faltava.

Arrastei-me por mais alguns quarteirões puxando a perna rebelde (...já já passa, não é possível...) mas aí a que era obediente também se amotina: câimbra nas duas panturrilhas. Puta que pariu. Alguém estava rindo em algum lugar.

Levei uns 30 minutos para percorrer os últimos três ou quatro quarteirões, como uma múmia, andando como se estivesse, a todo custo, evitando uma diarréia, me apoiando em latas de lixo e postes para tentar recuperar o comando das pernas. Consegui chegar, milagrosamente, à loja e entrei. Estava entupida de gente, na grande maioria turistas, uma verdadeira sucursal da Torre de Babel.

A loja em si é bem interessante e merece um parágrafo: em primeiro lugar, pertence obviamente a judeus, já que noventa por cento dos funcionários são judeus; em segundo lugar, o “acervo” é realmente estonteante, parece ter praticamente tudo no que diz respeito a eletrônicos e equipamentos fotográficos e óticos; e o sistema de venda também é ótimo, com esteiras correndo abaixo dos balcões e levando a mercadoria do depósito para o vendedor e para o cliente, para depois ser enviada para o balcão onde o comprador a retira antes de sair da loja. Uma “linha de montagem” bem peculiar e funcional.

Bom, procurei pelas câmeras digitais (que estavam no segundo andar, é claro, para facilitar minha vida) e entrei na fila para as “point and shoot” câmeras, as famosas “câmeras de turista”, fáceis de utilizar e compactas.

Aguardei um pouco e fui atendido finalmente por um senhor judeu bastante simpático (...not expensive, not expensive...) que ouviu minhas “detalhadas” especificações (preço e marca) e conseguiu exatamente o que eu queria. Perfeito, e em menos de cinco minutos. Comprei ainda algumas bugigangas (memória, capa, pendrive) e fui encaminhado ao caixa, onde validei um vale-brinde que o cara do hotel me deu e ganhei uma sacola, bem vagabunda, com o logotipo da loja.

Agora a dolorosa volta para o hotel.

Por algum delírio inexplicável, ainda pensava em caminhar de volta, mas foram necessários apenas alguns passos fora da loja para me convencer de pegar um táxi.

Consegui alcançar a beirada da rua e apanhei um dos famosos, e numerosos, táxis amarelos nova-iorquinos, um dos ícones da cidade. E realmente eles parecem estar por toda a parte: é praticamente impossível não ver um táxi amarelo nas ruas. Aliás, nas ruas os carros de passeio parecem ser uma minoria. Uma minoria oprimida, pois os taxistas têm uma percepção única a respeito das leis de trânsito e das regras da boa convivência, ou seja: eles são malucos.

Chega a ser perigoso chamar um táxi. O trânsito pode estar congestionado, o sinal pode estar fechado, pode ser um cruzamento, o taxista pode estar do outro lado da avenida, ou na direção contrária à sua, que, se você chamar, rá rá rá, lá vem ele, cortando meio mundo, fazendo um retorno absurdo, freando na frente de caminhões enormes, para te pegar. É inacreditável. Indescritível. Pode saber: ouviu buzina e gritaria, tem sempre um táxi no meio.

Entrei no táxi gemendo e indiquei ao motorista (Gupha era o nome da figura, com aquele sotaque caricato que parece gozação) o endereço do hotel.

Cheguei são e salvo (e dolorido) e onze dólares mais pobre (gorjeta incluída), mas ainda faltava tempo para o check-in. Praticamente me arrastei para fora do táxi e resolvi almoçar num restaurante numa esquina perto do hotel, chamado Gramercy Cafe (nome original, não?).







Manquei como pude até o lugar e sentei, me preparando para uma boa refeição (tomara). Pedi um “blue fish” com purê de batata e brócolis e torci para ser bom.

Uma curiosidade dos restaurantes em Nova York é que, quando você se senta, imediatamente um garçom traz um copo com água e gelo. Não é preciso pedir. É compulsório. Outra coisa interessante é que vários pratos costumam ser servidos com uma entrada de salada ou sopa, já incluída no preço: não adianta dizer que não quer, o preço é o mesmo, azar o seu.

O prato chegou e era muito bom, ainda bem. Tentei comer devagar para apreciar o sabor e enrolar até poder fazer meu check-in.

Outra curiosidade nova-iorquina: assim que você termina de comer, o garçom vem e pergunta se quer mais alguma coisa, se não quiser, ele já deixa a conta na mesa, sem você pedir. Ou seja: saia logo que tem gente pra sentar. E isso aconteceu em todos os lugares onde ranguei.

Levantei com cara de dor e gemendo, para divertimento dos garçons, e fui lenta e pausadamente em direção ao hotel: hora de check-in, finalmente.

O pessoal da recepção foi gentil e amistoso. Fiquei um pouco apreensivo porque havia feito reserva pela internet e não responderam meu e-mail enviado uma semana antes, mas deu tudo certo. Consegui um quarto bom, limpo e minúsculo, onde cabia a cama, uma escrivaninha e uma pia (banheiro coletivo). Nada de armário, só uns cabides num suporte ao lado da porta. Pelo preço estava ótimo (as tarifas de hotel em NY são muito altas), e eu não pretendia ficar “curtindo” o hotel mesmo: o negócio é rodar pela cidade. Quanto ao banheiro, havia dois no meu corredor, um bem em frente ao quarto, que eram mantidos limpos pela equipe do hotel (deviam saber quando alguém os utilizava, pois sempre tinha alguém limpando e preparando para o próximo hóspede).







Finalmente, após quase 30 horas sem dormir, tinha uma cama à disposição. Tomei um banho e literalmente apaguei até as 23h.

Acordei desnorteado e faminto. Resolvi descer e dar uma volta pelas imediações, fazer um reconhecimento do terreno, e procurar algum lugar para comer. As pernas ainda doíam, mas o pior já passara, apenas torcia para as câimbras não voltarem. Acho que foi temerário sair assim, mas não dava para ficar no quarto: a cidade me chamava.

Desci e perguntei ao cara da recepção se era seguro andar pela região. Ele me garantiu que os arredores eram tranqüilos.

Saí do hotel, virei à esquerda e fui em direção à segunda avenida. Tomei a direção “uptown” e saí marchando calmamente, observando a noite de NY numa sexta-feira.

A noite estava ótima, nada de frio, um clima muito bom para andar (o frio de rachar só me achou na quinta-feira seguinte). Rodei a esmo até as duas da manhã e realmente me pareceu uma vizinhança tranqüila, com bastante gente na rua, indo para boates, pubs e, depois, procurando um lugar para comer, alguns já bastante tortos pelos efeitos da intoxicação alcoólica tradicional do começo do fim de semana.

Descobri um “diner” bem legal na esquina da segunda avenida com a rua 23, chamado Cosmos Diner (http://www.cosmosdiner.com/), que fica aberto 24 horas.




Para os que desejam saber o que é e como é um “diner”, segue uma definição, em inglês. Se virem para traduzir: “diner is a prefabricated restaurant building characteristic of North America, especially on Long Island; in New York City; in New Jersey, and other areas of the Northeastern United States. Diners are characterized by a wide range of foods, mostly American, a casual atmosphere, a counter, and late operating hours.”

O lugar é daqueles que se vê bastante nos filmes: mesas e balcão de fórmica, ambiente descontraído, cardápio bem variado. Pedi um prato de camarão (sim, sim, camarão às duas da manhã, sou um cara destemido) que estava delicioso e fiquei fã do Cosmos Diner. Voltei algumas vezes, sempre de madrugada, e já estava ficando amigo do garçom e do cara do caixa.

Dei mais umas voltas para ajudar a digerir o camarão (as pernas se comportaram bem, nada de câimbra, mas as dores me acompanhariam pela próxima semana) e depois rumei para o hotel, parando para comprar uma garrafa de água e uns Gatorades (potássio para as câimbras – o ideal era banana, mas não sou muito fã).

No hotel, no primeiro andar (o meu era o quinto), tem uma máquina de gelo à disposição dos hóspedes. Eu a utilizei bastante, enchendo o balde de plástico vagabundo que tinha no quarto, ou, às vezes, enchendo sacos plásticos para abarrotar a pia de gelo e tentar tomar um suco de laranja mais ou menos gelado pela manhã (não sei porque, mas parecia que o gelo em Nova York derretia mais rápido: cansei de abarrotar a pia de gelo, tudo em vão).

Subi, bebi um Gatorade e dormi profundamente (sim, apesar do camarão). No dia seguinte, dois programas: compras e, depois, o show do Uli Jon Roth no BB King Blues Club & Grill (http://www.bbkingblues.com/). Começava a odisséia nova-iorquina.


Oam Patapai


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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Em São Paulo, 11 da manhã

Após um vôo cansativo mas tranqüilo, chego finalmente a Sampa para esperar minha conexão para Brasília. Detalhe: o avião pousou às 8h30 da manhã, até me desvencilhar de alfândega e imigração, mais uns 40 minutos, esperar pelo vôo para Brasília, mais umas seis horas (sim, sim, meu avião sai às 15h. Que lindo).

Tentei trocar de vôo, mas tinha multa para pagar: merda.

Decidi ir comer, deixar a bagagem estocada e tentar matar o tempo.

Saí de Nova York ontem às 21h30 (horário de lá; aqui: 23h30), isso depois de chegar em cima da hora, já que a bosta da van que ia me pegar atrasou. Passei incólume pela alfândega americana (curiosidade: tive que tirar os sapatos para que os gringos pudessem analisar suas entranhas pelo raio-X e fui avisado que era melhor beber a água que carregava, já que ela não poderia passar daquele ponto) e fui para a sala de embarque, onde bati o recorde do Free Shop, menos de 3 minutos para achar e pagar os bens sem taxa.

Minha poltrona era a última do avião, mas a do lado estava vazia e era perto do banheiro. Bueno.

Para minha surpresa, encontro na aeronave o Honorável Ikeda, que vinha de Tóquio com a família. Excelente, já tinha com quem conversar nas 9 horas de vôo.

A meu lado, pulando uma cadeira, estava um gaúcho que vinha da China, já batendo as 36 horas de comida de avião. Ficamos conversando e logo apareceu uma garota do Espírito Santo, que era cantora e estava voltando de algumas apresentações na gringolândia. Em pouco tempo Honorável Ikeda se junta a nós e tomamos conta do fundo da aeronave. Conversamos por horas, até a chefe dos comissários exigir nossa dispersão. Ok, quem sabe dava para dormir um pouco. Eu consegui: 20 minutos de sono.

Acordei após essa farta chapada e fiquei esperando o café-da-manhã (aliás, a janta foi boa: carne com talharim) que estava muito bom.

Viajar pela JAL é excelente, quer dizer, quase excelente: gente do meu tamanho sofre viajando na classe econômica. Porém o tratamento é excelente, o rango é bom, tem TV na poltrona, com videogame, e toalhinha quente para limpar as mãos antes da bóia.

Consegui passar pela aduana alviverde na boa e agora só me resta aguardar o embarque, progredir para o Planalto Central, rumar para casa, tomar um banho e dormir até a sexta-feira.

That's all...................

Oam Patapai

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Bye-bye New York bye-bye

It`s time...........

Ja fiz o check out do hotel, e agora e so esperar ate as 18h para pegar a van para o aeroporto. Depois, esperar ate as 21h25 para levantar voo, chegar em Sampa umas 10h da manha, aguardar o voo para Brasilia e sabe-se la que horas estarei em casa. No meio da tarde com certeza.

Ontem fiz minha ultima maratona pela cidade, atras de uma "interface de audio" para o Darth Capa. Ele me garantiu que tinha em qualquer loja da Apple. Garantiu errado.

Fui de metro ate a loja da Apple na quinta avenida e, obviamente, comeca a chover assim que saio para a rua. Chegando la, nao tinha a porcaria da "interface". fui mandado para a Sam Ash, alguns quarteiroes abaixo: na chuva.

Desci a quinta avenida num frio do caralho, com uma chuva fina e incomoda, e amaldicoando as proximas 20 geracoes de Darth Capa. Nao estava mais aguentando de frio e de fome, entao entrei num lugar que parecia acolhedor e fui almocar por conta de Darth Capa. Era um self service bem legal e me entupi de carne e macarrao. Quando abandonei o local aquecido, a chuva ja tinha parado. Entao fui atras da tal "interface": comprei e me mandei, fugindo do frio como dava.

De volta ao hotel, descobri que precisava de outra mala para carregar o butim para casa. Sai e comprei uma mala de 40 lascas numa loja perto do hotel. No quarto, percebi que a mala ainda era pequena. Voltei e troquei por uma maior, mas com o mesmo preco. Mais tarde tomei minhas ultimas Guinness num pub perto do hotel (King`s Head Tavern) e fui ate a Virgin Megastore la pela meia-noite tentar achar um jogo para PS3, mas nao estava a disposicao ainda.

Agora, vou tentar achar o tal game e procurar um lugar para almocar. E ficar enrolando ate a hora de pegar a carona pro JFK.

E isso ai escoria, ate a volta...

Oam Patapai

terça-feira, 21 de outubro de 2008

New York New York is a helluva town

E isso ai; 33 horas e contando. Meu ultimo dia em Gotham. Tentar comprar as encomendas que faltam e dar adeus as ferias. Back home soon.

Ontem rodei horas tentando achar uma mochila para Mr. Nascimento, mas nao achei nada que se encaixasse nas rigorosas especificacoes. Ultima chance e hoje.

Daqui a pouco vou atras de alguns jogos de PS3 para o Dr. Cueca e do novo do AC/DC para mim. Ah, e, e claro, procurar o DVD do Paul Stanley, que deveria ser lancado hoje.

Ontem tentei ir a um clube de jazz, mas quando cheguei la o preco do ingresso era um pouco salgado (50 crucrus gringos) e bati em retirada. Infelizmente fica para a proxima (quem manda gastar demais antes).

Fiquei dando umas voltas pela Times Square, olhei umas lojas, comprei umas lembrancas para o povo de casa e fui tomar umas cervejas perto do hotel.

It`s time to go...

Oam Patapai

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Monday Monday

Segunda-feira na Grande Maca...

A semana comeca calma por aqui. Ainda tenho que encontrar algumas encomendas antes de partir na quarta-feira.

Ontem havia decidido ir ao Minton`s Playhouse, uma casa de jazz no Harlem. Ate ai tudo bem. Perguntei se era seguro ir e o cara do hotel disse que ate umas 22h estava tudo bem, desde que fosse de taxi.

Entao, sai do hotel umas 19h30, par apegar o set das 21h, e fui de metro ate a rua 96 (economia) para pegar um taxi ate a rua 118, endereco do clube.

O Harlem realmente e outro mundo: quase que somente afro-americanos na rua, so vi um ou dois tipos que destoavam do cenario.

Bom, desci do taxi em frente ao clube, que estava com o letreiro ligado, e (idiota) dispensei a conducao. Resultado: o clube estava fechado (nota mental: e bom ligar para os lugares antes de ir). A rua era um pouco deserta, e la estava eu, perdido no Harlem. Tentei incorporar o tipico cidadao local (ra, ra, ra...) e parti em busca de outro taxi. Devo ter ficado uns 15 minutos no Harlem, mas tudo bem.

Desci de taxi ate a rua 50, pela quinta avenida, e fui perambular pela cidade e procurar alguma coisa para comer.

Parei em frente ao Radio City Music Hall e decidi comer um PF na rua. Achei uma carrocinha que vendia Halal, que e simplesmente carne na chapa (lamb or chicken) com arroz e salada. Me sentei na praca em frente e comecei a comer. Mal havia dado umas garfadas, o frio foi aumentando e comecou uma ventania gelada que simplesmente congelou minhas maos: tava ficando dificil comer.

Procurei um lugar menos glacial e terminei o rango do jeito que deu. Sai desesperado atras de um taxi e voltei para os lados do hotel. Desci perto de um pub (King`s Head Pub) perto do hotel e depois de tres Guinness ja me sentia melhor. Sai, comprei um "balde" de chocolate quente (exatamente como este que consumo agora) e fui dormir.

O frio esta de rachar, e isso e so o outono...

Bye,

Oam Patapai

domingo, 19 de outubro de 2008

Time is running out

Pois e, pois e.......

Mais alguns dias e a odisseia nova-iorquina vai para a cucuia. Fazer o que?

Ontem, assim que deixei esta birosca (uma mistura de banca de revistas, tabacaria, cyber-cafe...) e me dirigia ao metro mais proximo, uma surpresa: um sujeito desesperado aparece da esquina, correndo feito doido, com um tira (the New York Finnest) colado no vacuo. O maluco entrou com tudo no meio da terceira avenida (fodam-se os carros) mas foi capturado antes de alcancar o outro lado. Infelizmente, ate tirar a camera do bolso e liga-la, ja tinha perdido a perseguicao, mas filmei o cara sendo algemado, de cara no chao.

Foi realmente inusitado, e causou certa comocao nos transeuntes. Um sujeito a meu lado disse que fazia muito tempo que nao presenciava algo do tipo.

Apos a pausa cinematografica adentrei as instalacoes do metro e fui direto para o Museu de Historia Natural, que tem uma entrada que fica na propria estacao do metro.

Depois de algumas horas percorrendo o museu (e puto porque algumas das melhores partes estavam interditadas para um "private event"), tirando fotos e tentando evitar as lojas espalhadas estrategicamente (tem tanta coisa legal que da para pirar) tomei novamente o metro e fui em direcao ao evento da noite: The Buddy Rich Memorial Concert.

A bagaca seria no Hammerstein Ballroom, na rua 34, mas simplesmente nao havia uma placa indicando o local exato; tive de deduzir que era no Manhattan Center, what the hell......

Cheguei cedo para fazer o reconhecimento da area e enquanto esperava conheci um sujeito que, pelo jeito falastrao (ele que veio puxar papo), pela cara e pelo sobretudo, devia ser italiano, ou melhor, descendente de italianos.

O sujeito, Bob, tinha cara de mafioso e chegava a ser caricato; mas nao como um chefao, gordo e suarento, ele era magro e mais parecia aqueles capangas, mafiosos de segundo escalao, que saem para cobrar protecao dos incautos.

Conversa vai, conversa vem, ele me apresenta a esposa e o filho adolescente. O Bob disse que tocava bateria e conhecia metade dos musicos de Nova York, mas estava parado ha algum tempo. A esposa, Martha, era do Arizona e, pasmem, havia se graduado em Lingua Espanhola, com segunda opcao em Portugues. Havia algum tempo que nao falava em portugues, mas ainda lembrava alguma coisa.

Depois de muita conversa jogada fora, deixaram-nos entrar e parti para encontrar meu lugar comprado com antecedencia, bem caro, alias, e, para minha estupefacao, era simplesmente o pior lugar da casa: havia uma coluna entre meu assento e o palco. Puta que pariu...

O lugar era num camarote, na lateral da plateia. Em tese, era um otimo lugar, pois o palco deveria estar a poucos metros dali, contudo, o palco havia sido recuado para que coubessem mais cadeiras em frente ao mesmo. Resultado: a galera dos camarotes se fudeu.

Um americano que estava com o filho ficou puto e foi reclamar com o gerente do muquifo. Um casal de americanos, quando ficou sabendo que eu era do Brasil e tinha ido ate la so para ver o show (mentira, e claro) se dispos a trocar de lugar comigo, mas recusei. O gringo que tinha ido reclamar voltou com boas noticias: nao dera lotacao esgotada, entao, quem quisesse descer e procurar um lugar vazio na plateia, estava liberado. Obviamente desci.

Arrumei um lugar decente e esperei o show.

Comecou com Tommy Igoe, batera de jazz, tocando alguns numeros com a big band. Depois, entrou John Blackwell, um negao que detonou com tudo, tocando rapido e bem pesado, ralmente muito bom. A seguir, um ganhador de um concurso de bateria que esqueci o nome, boa performance. Apos rapida arrumacao, o negocio comeca a ficar serio: Terry Bozzio vem com Efraim Toro na percussao e bota pra fuder. Incrivel, e mais incrivel ainda ver o Bozzio num kit de tamanho relativamente normal.

Apos um pequeno intervalo, o neto do Buddy Rich chea para mostrar servico: toca bem, mas nao da pra comparar com o resto da gang.

Surpresa na noite: Peter Erskine aparece de repente e brida a plateia com uma performance rapida.

Em seguida, Chad Smith, do Red Hot Chilli Peppers, aparece para uma versao big band de Dani California, seguida de uma inimaginavel versao de Hocus Pocus, do Focus. Excelente.

Mais um numero e entao Chad Smith cede lugar ao mais esperado baterista da noite: Mr. Neil Peart.

O senhor Peart tocou quatro musicas, tres musicas do repertorio do Beddy Rich e encerrou a noite com YYX estilo big band. That`s a perfect night...

Apos o show, que terminou por volta das 23h30, apanhei um pouco mais do metro (esperei bastante por um trem que so passa ate as 23) e consegui chegar ao hotel (comida tailandesa para rangar no quarto e duas latas de coca-cola).

Hoje devo ir ate o Harlem, ate o Minton`s Playhouse, e pegar um showzinho de jazz.

Mas isso e para a noite, agora vou perambular por ai, depois de comer um shrimp creole no Joe Junior Restaurant, na rua 16 com a terceira avenida.

See ya...

Oam Patapai

sábado, 18 de outubro de 2008

Autumn in New York

Sarava,

Parece brincadeira, mas o clima aqui virou em questao de horas, esta cada vez mais frio. Ontem, quando sai do hotel, ja estava complicado, e foi piorando durante o dia. No meio da tarde fui parar no Central Park para dar uma volta e, se nao fosse o sol em alguns trechos, acho que congelaria.

Fiquei enrolando pelo parque ate umas 16h, e dai desci para o Birdland, um clube de jazz que tem uma "matine" na sexta-feira com The Birdland Big Band with Tommy Igoe. Esse Birdland, na verdade, e quase uma "franquia", o Birdland original ficava no numero 1678 da Broadway, e foi fechado em 1965. O novo abriu em 1986, eu acho, e agora, depois de mais uma mudanca, fica na rua 44, entre a oitava e a nona avenidas.

O show foi excelente, e fiquei assistindo do balcao, tomando cerveja bem ao lado da banda. O lugar e pequeno (lotacao: 238 pessoas) mas bem legal. Foram dois sets de aproximadamente 45 minutos, comecando 17h15 e terminando 19h. Quem quisesse ficar para os proximos shows (acho que ainda teriam uns dois, com outros artistas) teria que pagar entrada novamente. Cai fora e, em meio a um frio do cacete, fui para o hotel, parando apenas para comprar um rango (KFC). Tinha decidido ir a algum pub por perto, mas o frio e o orcamento estourado me convenceram a abortar a missao. Esperei pelo sabado no quarto, comendo frango me fascinando com os canais a cabo da cidade: descobri um programa local onde um coroa (o nome e Harvey) fica falando sobre ETs e lendo noticias sobre conspiracoes do governo e sobre invasoes extraterrestres (quando parei no canal, ele estava dando a "receita" para construir um espelho de metal liquido que se comunica com outras dimensoes...). O melhor: ele atende ligacoes...algumas hilarias, principalmente quando alguem liga para esculhambar o sujeito. Ontem ele atendeu um cara com voz de robo...excelente...e depois um cara ligou de alguma festa, pois tinha uma galera rindo no fundo... um fim de noite inusitado realmente...

Hoje sai para comer alguma coisa e tive que voltar para pegar mais um casaco. Frio para caralho ou mais...

Daqui a pouco vou para o Museu de Historia Natural, e de la me encaminharei para o Tributo a Buddy Rich, com o Neil Peart, o cara do Red Hot Chilli Peppers e, para minha surpresa, Tommy Igoe and The Birdland Big Band.

See you later...

Oam Patapai..................

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

New York State of Mind

Alo, alo, cambio...

Bom, depois de alguns dias de atividades peripateticas em Gotham, acho que ja estou entrando no espirito nova-iorquino, ou seja, ja me imponho ao trafego como os nativos e aprendi a andar por ai com aquele impeto e a certeza absoluta de onde vou (os nativos nao parecem andar a esmo: observando-os percebe-se pela atitude que todo mundo sabe absolutamente para onde vai, e sempre tentando chegar ao destino o mais rapido possivel).

Ontem cai na besteira de visitar uma Virgin Megastore e estourei meu orcamento: de novo. A oferta de dvds era absurda e nao me contive: gastei mais que o necessario. Agora vou ter que segurar um pouco a onda.

Ontem tambem fui ao Nokia Theatre pegar um show do Iced Earth. O local e muito legal, com infra-estrutura de primeiro mundo e a eficiencia americana na organizacao; bem diferente do B.B. King, que e um bar (mas tambem e legal).

Chegando la, fui informado que, se quisesse beber alcool, deveria pegar uma pulseira (aquela tradicional fita de papel). Ok, ok, ate ai tudo certo, mas eu TIVE que mostrar meu passaporte para provar que era maior de 21 anos...incrivel, mas, aparentemente, aqui na gringolandia regras sao regras...

O show em si comecou por volta da 19h20 com a primeira banda de abertura: Saviour, da California, que faz um thrash bem decente e tem um show bem profissional (o vocalista, de vez em quando, queria muito soar como o James Hatfield de uns 20 anos atras, mas ok). Foi divertido e ajudou a esquentar o publico.

Depois chegou a vez do Into Eternity, uma banda do Canada, que faz um som bem "misturado", com diversas influencias, por isso copiei esta "definicao" que segue da Wikipedia: "Fusing elements from across the spectrum of metal, including classic or melodic metal styling, thrashing riffs, power metal-style clean vocals, high and low-pitched death growls, fast tempoed death metal drumming with blast beats and sometimes all layered with acoustic guitar playing. Into Eternity provides a sound that is rather difficult to describe, but the most common description of Into Eternity's music is progressive death metal." (Se virem para entender).

A apresentacao foi muito boa, os caras tem competencia, carisma e o show ajudou ainda mais a preparar o clima para os headliners (os guitarristas tocam muito).

As 21h30, mais ou menos, finalmente o Iced Earth sobe ao palco. Infelizmente so conhecia uma musica do show, aquela balada que agora me foge o nome (seria Melancholy?) e que foi tocada no bis.

O "concerto" em si foi muito bom, o publico (mais de 1.000 pessoas com certeza, o local comporta umas 2.000 e poucas pessoas, nao estava lotado mas era bonito de se ver) estava alucinado e cantou tudo. Os caras sao excelentes e o vocalista que foi e voltou, Matt Barlow, cantou para caralho ou mais. Excelente fim de noite.

O cara que organizou o show e um tal de Eddie Trunk, um locutor/radialista de Nova York que ja ha bastante tempo, uns 20 anos, vem promovendo e mantendo vivo o heavy metal/hard rock na cidade. Ele tem um programa que pode ser ouvido pela internet. Ele esta sempre entrevistando uma galera conhecida: os caras do Kiss, do Overkill, do Anthrax, Dee Snider, Dio etc.

Para minha surpresa, ao sair do teatro fui envolvido por um frio do cacete. Ate aquele momento, estava peregrinando pela cidade apenas de camisa, afinal o outono parecia meio preguicoso. Na realidade estava quente, e nos primeiros dias eu saia carregando uma mochila com um casaco dentro, que se mostrou inutil e desconfortavel com o tempo, logo sendo deixada no hotel. Big mistake.

Estava tao frio (para meu padrao tropical) que nem tentei disputar um taxi com as centenas de pessoas que abandonavam os teatros nas imediacoes: entrei na primeira estacao de metro que achei e voltei para o hotel, parando apenas para uma refeicao quente no caminho (chicken a la king, precedido por uma providencial cumbuca de sopa).

E isso ai, passem bem...

Oam Patapai.......................

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Nada como um dia apos o outro

Pois e, pois e...

Ontem, depois de um giro mais controlado pela cidade (almoco: penne, com camarao, molho de tomate e manjericao - excelente - num dinner qualquer perto da Broadway), procurando as inevitaveis "encomendas" (tentei pegar o metro pela primeira vez e, obviamente, embarquei para o lado errado, indo parar no Queens..... ah, turistas.........), fui conferir Kamelot e Edguy no B.B.King.

O show de abertura foi de uma banda americana, acho que o nome e Artic Fire (ou algo parecido). Bem fraquinha (eu disse BEM fraquinha), musicas obvias e arranjos idem. A galera ate que colaborou, mas fiquei um pouco constrangido pelos caras.

E o pior foi que na sequencia entrou o Edguy: ai eu fiquei com pena dos americanos. So conheco um cd do Edguy, que acho bem legal, mas o show foi muito bom, apesar de curto (uns 50 min/ uma hora) e do vocalista ter perdido muito tempo antes da terceira musica botando a galera para cantar/gritar sob sua regencia.

Os alemaes sao muito bons no palco e o vocalista, Tobias Sammet, leva bem a galera, tem carisma e sabe o que faz. havia muitos fas dos caras, o local estava bem cheio, legal de se ver.

Mas ai as coisas decairam. Nao conhecia nada do Kamelot, mas achei muito chato, muito "gotico" para meu gosto simplorio.

Eles bem que tentaram, a galera curtiu muito, cantando as musicas, mas nao me comovi, nao teve jeito. Aguentei o que pude: o vocalista fantasiado de playboy paquistanes, uma mina que so fazia ahhhs, uhhhs, ais etc, aquela "cama" de teclado onipresente, e quando o vocalista disse que "ia tocar uma musica triste, quer dizer, todas as nossas musicas sao tristes, mas essa e a mais triste de todas", eu entendi que era a senha para cair fora, afinal ja estava meio bebum (Guiness e Bud) e faminto.

Sai para rangar no Hard Rock Cafe (New York Steak e uma Coca bem gelada) e depois fui direto pro hotel. Mas hoje tem Iced Earth, fazer o que.......

Oam Patapai

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Hoje tem Metal....................

Hoje e dia de show: Kamelot e Edguy, conheco pouquissimo das bandas mas vou dar uma olhada. Vai ser no mesmo lugar do Uli Jon Roth, mas acredito que hoje nao havera mesas.

Amanha tem Iced Earth no Nokia Theatre, na Broadway. Tambem vou checar.

Antes disso, tenho algumas encomendas para encontrar: boa desculpa para perambular por ai. E por falar em andar, na segunda-feira resolvi ir andando do hotel ate o Metropolitan Museum: tres horas e mais de 60 quarteiroes depois, cheguei ao meu destino. Fiquei quase ate a hora de fechar e mesmo assim nao vi muita coisa. Devo voltar em breve, de metro. Alias, a volta para o hotel foi de taxi, afinal...

Saudacoes, ou Oam Patapai...............

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Dia de show: Uli Jon Roth em Nova York

Bom, confira a repostagem, mais completa, no dia 27 de novembro.

That's all...

Back in the New York Groove

Greetings...

Como prometido, estou reescrevendo meus posts nova-iorquinos, agora com mais detalhes. Confiram acima o novo e melhorado informe.

Oam Patapai

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Sons das páginas

(Esse texto foi "publicado" originalmente no blog Palavras Gentis, nos idos de 2003. O que segue é uma versão revisada.)

Jack Kerouac dizia que escrevia como um músico de jazz, como Charlie Parker improvisando um longo solo que corria pelas páginas brancas, fluindo como um rio que seria a própria vida. Ernest Hemingway teve seus contos comparados a pequenas peças de câmara, perfeitas e contidas, que mais insinuariam do que revelariam. Charles Bukowski escrevia ouvindo música clássica mas, pelo menos para mim, seus contos parecem remeter àqueles bons e velhos rocks de três minutos: simples na "aparência", porém enérgicos e extremamente divertidos.

A música e a literatura parecem correr juntas muitas vezes, com "correntes" ou "movimentos" de ambas se encontrando e se influenciando (mesmo que indiretamente) nessa batida diária que as pessoas chamam de vida, essa eterna corrida para alcançar o sol, como já dizia o Pink Floyd.
Bom, mas por que esse rodeio todo, essas elucubrações? A intenção é simplesmente a de falar de dois livrinhos com os quais esbarrei há algum tempo e que me agradaram bastante, seja pela secura e o minimalismo de um deles, seja pelo lirismo desesperado e inocente do outro.

O primeiro deles tem o título curioso de "Mas não se mata cavalo?" e é de autoria de Horace McCoy. A secura e a objetividade do texto são as grandes ferramentas do autor, que conta a história de um casal de "perdedores" competindo numa maratona de dança durante a depressão americana. A narrativa fica presa ao salão de dança quase o tempo todo, mas não aborrece nem cansa, transmitindo uma aura de claustrofobia e de fatalidade que te deixam meio atordoado quando o livro acaba. A velocidade na qual a história é contada também é importante e, apesar de se passar nos anos 30, ao som do foxtrot, o desespero dos competidores poderia muito bem transcorrer ao som de algumas das vertentes do Heavy Metal (black, death, thrash, splatter, whatever metal...).

Já o segundo, "Pergunte ao pó", de John Fante, é a história de um tal de Arturo Bandini, que está em Los Angeles tentando se firmar como escritor e que, em seu caminho rumo à concretização daquilo que imagina seu destino, esbarra nas mais estranhas e singulares figuras e nas mais estapafúrdias situações, dignas de um romance de formação com alma "beat" (apesar de ser anterior ao movimento). O personagem principal do romance corre pelas ruas da cidade sem dinheiro, sem experiências e fica sempre sonhando com grandes sucessos editoriais e devaneando e ensaiando, como todo jovem artista, sobre o que dizer nas grandes entrevistas que (talvez) nunca venha a dar. E para não sair do "mote" do texto, o livro pode ser lido como quem ouve uma boa trilha sonora daqueles filmes velhos que passam no Telecine Classic ou no TCM.

Só para terminar: a versão do livro do McCoy que li é uma tradução do Erico Verissimo, do Círculo do Livro, que eu achei num sebo; existe uma tradução mais nova publicada pela Sá Editora, sob o título "A noite dos desesperados" (que é o título em português do filme baseado no livro, dirigido por Sydney Pollack, com Jane Fonda no elenco, lançado em 1969, e que eu não assisti, ainda). O livro do Fante foi relançado pela José Olympio e pode ser encontrado, como dizem os reclames, nas melhores livrarias (também existe em filme, com a Salma Hayek e o Colin Farrel).
That's all folks...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Sem nada mais para o momento...

Olá, pessoas, indivíduos, cidadãos e criaturas (deste planeta ou não) visitantes. Pensei em várias frases marcantes para a "inauguração" desse blog, mas muitas já foram utilizadas ("Here's Johnny...", "Adoro o cheiro de napalm pela manhã...", "Hoje é um bom dia para morrer...", "Senhorita Fuzzibeeeeeee...", "Bommm-diaaa Vietnã...", "Puta que pariu! - disse a madre superiora...", "It's a cookbook..." "Soylent Green is people!!!!" etc.). Então, depois de muito pouco brainstorm, decidi pelo bom e velho comando: Let the be rock..............................que iniciem-se os trabalhos.