I bid you welcome... Bom, começa hoje a reedição dos posts de Nova York, agora mais detalhados e com acentos e cedilhas.Enjoy...

Como alguns poucos já sabem, saí de Brasília às 18h do dia 9 de outubro num maldito airbus da TAM (apertado? Não, não...) com destino a São Paulo (Guarulhos), na minha primeira e única escala rumo a Nova York, ansioso e pronto para minhas primeiras férias de verdade.
O vôo foi normal, nada de excepcional (fora o fato de que eu detesto voar), e para minha surpresa, não precisava pegar a bagagem em Sampa: ela ia direto pros States (não sabia se isso era bom ou ruim: acabou sendo bom). Mas, pelo menos, teria uma folga da mochila tão abarrotada quanto pesada pelo meu cabedal. Em São Paulo, após esperar algum tempo, adentrei a sala de embarque para aguardar a hora de “abordar” o avião da Japan Air Lines a mim designado e comecei a me preocupar levemente: havia uma quantidade expressiva de judeus por ali. Será que iam para Nova York? E em que avião? Não que tenha algo contra judeus, mas a idéia de viajar num avião cheio deles - nesse exato momento da história, onde seqüestros e bombas se tornaram “corriqueiros” - me deixou cabreiro.
Continuei observando a fauna local e tentando adivinhar quem iria no meu avião: obviamente muitos dos japoneses por ali, já que meu vôo para NY era uma escala da travessia para Tóquio; alguns judeus provavelmente; um grupo de peruas talvez; uma mulher absolutamente inconveniente, falando alto e vestida com um uma roupa colada e uns três números menores (reclamando da temperatura e repetindo à náusea que NY era “liiiiiiiiiiinda, vocês vão adorar, adorar”), tomara que não.
Continuei minha avaliação, e qual não foi minha surpresa quando vislumbrei entre os presentes o Dr. Ulisses Guimarães, que foi presidente da Câmara dos Deputados e Ministro da Indústria e Comércio do Brasil. Pensei em como ele andava sumido e como era inusitado encontrá-lo ali, em Guarulhos, esperando um embarque internacional.
Pensando bem, era não só uma coisa inusitada ou surpreendente, mas uma impossibilidade, pois o Dr. Ulisses morrera em 1992; se bem que seus restos nunca foram encontrados. Aparentemente, a morte (ou desaparecimento) havia feito bem a ele: estava mais magro, mais corado e bem mais alerta do que a última vez em que o vira na TV. Não consegui me decidir se queria que fosse no meu vôo ou não.
Enquanto avaliava as possibilidades de companhia tão peculiar, tão paranormal, finalmente chamam para o embarque, com a primeira classe e a classe executiva na frente, e a classe econômica (nós mortais) por último.
A troca do vôo da TAM, um maldito airbus, pelo 747-400 da Japan Air Lines foi um verdadeiro choque: para melhor e, como não poderia deixar de ser, para pior.O avião é gigantesco, o serviço de bordo é bastante cordial e mesmo viajando na classe econômica tive direito a TV na poltrona, um grude excelente e até videogame (aliás, existem duas câmeras no exterior do avião uma em baixo e uma no nariz, e é possível acompanhar a decolagem e o vôo, mas como a viagem foi noturna, só assisti à decolagem e a um pouco da chegada). Essa é a parte boa. Agora a ruim: não consegui lugar no corredor e minha “bela” poltrona era tão apertada que dormir era simples e totalmente impossível; sem falar que a mulher biruta e vulgar da sala de embarque ficou na poltrona EXATAMENTE atrás da minha (...ah, o destino e seu senso de humor...); e nada do Dr. Ulisses.
Minha maratona de 9 horas para Nova York começara: de pé esquerdo, mas tudo bem.
Fiquei sentado entre duas senhoras japonesas, digo, uma era mesmo japonesa, a outra era nipo-brasileira, descendente, e ambas iam para Tóquio. A nipo-brasileira (não perguntei o nome) foi bastante simpática e me ajudou a desvendar os pratos que foram servidos (aliás, muito bons). Se a viagem foi ruim para mim, que mal cabia na poltrona, para elas não foi muito melhor.
Para piorar, nossa querida “sem noção” falava alto e futricava no bagageiro acima com uma freqüência deveras irritante.
Dormir era impossível, logo, decidi assistir a um filme, sim, sim, filme. Eram vários à disposição, e escolhi o novo do Indiana Jones. Não sei se era meu cansaço que começava a acumular, ou as dores causadas pela posição em que era obrigado a ficar, mas o filme estava bastante chato, sem graça: parecia um pastiche dos anteriores. Desisti lá pela primeira hora.
Resolvi mudar para a música. Ouvi um pouco, e logo uma comoção próxima intimou minha atenção: minha cruz falastrona e espaçosa resolvera que queria trocar de lugar. A poltrona que não era confortável para mim também não era para ela (“...nossa, muito ruim, num tô agüentando, gente, que quié isso...”). Convocada a chefe das comissárias, tentaram encontrar um lugar para a queixosa (ah, a cordialidade e a polidez nipônicas) na aeronave lotada. Pensei em sugerir um lugar no lado de fora, mas poderia ser mal interpretado.
Como manda o bom azar (...esse comediante...), o local encontrado era duas cadeiras à frente da minha, à esquerda, perto da porta de emergência (parece que o tal lugar não é ocupado com freqüência, devido à posição, sendo na verdade ainda mais estreito que a cadeira econômica, mas tem um bom espaço para as pernas, que parecia ser o motivo da chateação da louca). Dez minutos depois, a maldita porta-voz de puteiro se arrepende e bate em retirada para seu antigo poleiro, com o devido estardalhaço (“...ai, ali não, ali não, é pior, meu Deus, que quié isso...”). Aumentei o volume do iPod.
O dia foi se aproximando e a exaustão se instalou totalmente. Antes do café-da-manhã ainda consegui cochilar uns 20 minutos numa posição digna da yoga, mas pouco adiantou.
Aterrissamos no JFK (o aeroporto, e não o filme do Oliver Stone), em Queens, por volta das 7 da manhã (horário local). Agora era desembarcar, ir atrás da bagagem torcendo para que não a tivessem enviado para Bora-Bora e encarar o serviço de imigração gringo e a respectiva aduana.
Fiquei imaginando a paranóia dos funcionários americanos pós 11 de setembro: iriam me obrigar a abrir a mochila estufada que carregava? Tirar a roupa? E se implicassem com meus petrechos pessoais? Ou com meu dinheiro (era muito, ou era muito pouco)? Enquanto aguardava na fila ia elaborando novas maneiras de se constranger um turista, observando a impaciência e a rudeza dos funcionários do aeroporto (“...number twelve please...over there...I said twelve...ten, eleven, twelve...no sir, TWELVE...yes...wait behind the yellow line...BEHIND, sir...yes, yes...thank you...”). Chegou a minha vez de seguir para o guichê (“...sixteen, sir...thank you”) e fui tentando parecer calmo:
- Good morning, sir, how are you?
- Just fine, thank you.
- It’s your first time in the country? (Olhando o passaporte e depois colocando-o numa máquina.)
- No, I came here about…
- Why are coming to the United States? (Olhando o passaporte e conferindo com minha cara.)
- Turism.
- How long are you staying?
- Twelve days.
- OK, sir. You can go. Thank you.
Oba, uma etapa já foi, imigração, agora é a alfândega. E não se deixem enganar pelos “thank you”, eles foram formais, gelados, indiferentes.
Progredi em direção a um funcionário da alfândega, que estava sentado folgadamente em cima de uma mesa e indicava a uma família exausta (pais e dois filhos pequenos), displicentemente, a direção que deveriam seguir: direto para a inspeção de bagagens, umas mesas um pouco para trás do sujeito, onde enormes funcionários aduaneiros já reviravam os pertences de algum coitado.
O casal com dois filhos pequenos era obviamente suspeito, já que trazia três malas grandes, sacola com fraldas e mamadeiras e, para completar, um ameaçador carrinho de bebê. Eles pediram por isso.
Me aproximei:
- Hi, sir. How are you?
- Fine, thank you.
- That’s all your luggage? (Apontando para minhas duas mochilas.)
- Yes.
- So, you’re a light traveler.
- I think so…
- That’s Ok, sir. You can go. Have a nice stay.
Agradeci e fui em frente, pensando que era pegadinha. Mas não. Fora liberado sem mais nem menos. Acho que não tenho cara de terrorista nem de imigrante ilegal.
Foi um verdadeiro alívio, pois imaginava muita chateação com os gringos. Alguém havia me contado (não me lembro exatamente quem) sobre sua experiência para entrar nos Estados Unidos, e isso me deixou um pouco apreensivo. Pelo relato, os caras eram muito rigorosos, barrando a minúcia policial em muito, e apegados a detalhes. Eram tão minuciosos que algumas pessoas poderiam se sentir obrigadas a apresentar o funcionário aos pais, tamanha era a "intimidade". Anyway, já estava fora do alcance deles.
Perdi alguns minutos tentando me localizar e parti para procurar uma condução para o hotel. Achei o tal do Air Train, um trem que faz o circuito completo ao redor do aeroporto, e embarquei ainda tentando adivinhar onde saltaria para pegar a van que me largaria no hotel. Com um pouco de sorte desci na plataforma certa e encontrei o guichê da Super Shuttle, onde uma dama com cara de cantora de blues me fez pagar (“...it’s nineteen dollars, honey...”) por uma carona. Tive que aguardar enquanto iam “lotando” a van, e fui comprar algo para beber, mas a espera foi curta. Em poucos minutos chamaram meu número e partimos para Manhattan sob o sol de outubro.
Os 40 minutos de viagem até o hotel foram desafiadores. Passada a adrenalina da recepção no país, o esgotamento das quase 20 horas sem dormir chegou para ficar. Lutei para permanecer acordado: lasquei volume no iPod.
Consegui chegar ao hotel alerta, mas ainda eram 10h da manhã, e o check-in era apenas às 15h (...ah, fuck...). O recepcionista do hotel porém já estava acostumado e preparado para estes “imprevistos” e pôs uma identificação nas mochilas e guardou-as no depósito, onde ficariam calmamente esperando meu retorno.
Como havia muito tempo para matar até a hora H, saí procurando um lugar para comer.
Uma coisa boa em Nova York é que existe praticamente um restaurante/deli/café/diner/bakery em cada quarteirão. As opções são quase inesgotáveis.
Meu hotel ficava na rua 17, entre a segunda e a terceira avenidas (no chamado Gramercy District), com um nome bem peculiar: Hotel 17 (criativo, não?). Progredi em direção à terceira avenida e tomei a direção “uptown”, subindo da rua 17 para a 18, 19 etc. Uns três quarteirões depois me decido por uma bakery (a padaria deles): Gramercy Bagels.

Entrei e me misturei a um bando de cadetes da academia de polícia de Nova York: a tal academia era por perto, pois de manhã e à noite era praticamente impossível não localizar grupos de cadetes percorrendo as ruas em seus uniformes cinza e suas sacolas pretas com o cassetete acoplado ao lado.
Escolhi um sanduíche no cardápio suspenso acima dos atendentes e aí começou meu aprendizado acerca das peculiaridades alimentícias americanas. Sim, porque é comum, ao se pedir um sanduíche ou um prato, ter que especificar tudo o que se quer: qual tipo de pão; qual tipo de salada; qual tipo de carne; de molho; com ou sem pimenta; se o café é descafeinado; se o leite é integral; light ou com baunilha; qual sopa; se o chocolate é com nozes, avelãs etc.; o ponto da carne; o ponto dos ovos; quantos ovos na omelete, e por aí vai.
O atendente ouve meu pedido e começa: qual bagel eu quero? (Bagel é um pão bastante comum nos States, principalmente onde a imigração judaica é mais presente.)
- Como assim?
- Normal, com cebola, com alho, com farinha integral, com isso com aquilo?
- Pedi normal.
- Qual a salada?
- Lá vamos nós de novo: qualquer uma.
- Pode ser sauerkraut?
- Pode.
- O senhor quer o pastrami assim ou assado? Esse sanduíche permite que o senhor escolha entre estes tipos.
- Desisti: olha, eu sou um turista, e não estou acostumado com isso, pode fazer do jeito que você quiser.
- Ok, senhor, vou caprichar.
E caprichou mesmo, o sanduíche estava delicioso. Lavei a goela com um chá gelado de limão e me senti muito melhor, pronto para a primeira missão na Grande Maçã: comprar uma máquina fotográfica para mim.
Deixei a bakery e rumei em direção à rua trinta e quatro esquina com a nona avenida, onde fica a B&H, uma loja de eletrônicos famosa entre os muambeiros/turistas.
Caminhei sem pressa, admirando a cidade e curtindo a manhã. A temperatura estava bem agradável para quem esperava um frio dos diabos ao chegar. Tudo certo até agora, tudo bem (ou quase).
Quase quinze quarteirões depois, a poucos metros do local escolhido, minhas pernas resolvem me trair: câimbras alucinantes explodem na panturrilha esquerda. Não estava acreditando. Justo agora? Longe do hotel? Era só o que faltava.
Arrastei-me por mais alguns quarteirões puxando a perna rebelde (...já já passa, não é possível...) mas aí a que era obediente também se amotina: câimbra nas duas panturrilhas. Puta que pariu. Alguém estava rindo em algum lugar.
Levei uns 30 minutos para percorrer os últimos três ou quatro quarteirões, como uma múmia, andando como se estivesse, a todo custo, evitando uma diarréia, me apoiando em latas de lixo e postes para tentar recuperar o comando das pernas. Consegui chegar, milagrosamente, à loja e entrei. Estava entupida de gente, na grande maioria turistas, uma verdadeira sucursal da Torre de Babel.
A loja em si é bem interessante e merece um parágrafo: em primeiro lugar, pertence obviamente a judeus, já que noventa por cento dos funcionários são judeus; em segundo lugar, o “acervo” é realmente estonteante, parece ter praticamente tudo no que diz respeito a eletrônicos e equipamentos fotográficos e óticos; e o sistema de venda também é ótimo, com esteiras correndo abaixo dos balcões e levando a mercadoria do depósito para o vendedor e para o cliente, para depois ser enviada para o balcão onde o comprador a retira antes de sair da loja. Uma “linha de montagem” bem peculiar e funcional.
Bom, procurei pelas câmeras digitais (que estavam no segundo andar, é claro, para facilitar minha vida) e entrei na fila para as “point and shoot” câmeras, as famosas “câmeras de turista”, fáceis de utilizar e compactas.
Aguardei um pouco e fui atendido finalmente por um senhor judeu bastante simpático (...not expensive, not expensive...) que ouviu minhas “detalhadas” especificações (preço e marca) e conseguiu exatamente o que eu queria. Perfeito, e em menos de cinco minutos. Comprei ainda algumas bugigangas (memória, capa, pendrive) e fui encaminhado ao caixa, onde validei um vale-brinde que o cara do hotel me deu e ganhei uma sacola, bem vagabunda, com o logotipo da loja.
Agora a dolorosa volta para o hotel.
Por algum delírio inexplicável, ainda pensava em caminhar de volta, mas foram necessários apenas alguns passos fora da loja para me convencer de pegar um táxi.
Consegui alcançar a beirada da rua e apanhei um dos famosos, e numerosos, táxis amarelos nova-iorquinos, um dos ícones da cidade. E realmente eles parecem estar por toda a parte: é praticamente impossível não ver um táxi amarelo nas ruas. Aliás, nas ruas os carros de passeio parecem ser uma minoria. Uma minoria oprimida, pois os taxistas têm uma percepção única a respeito das leis de trânsito e das regras da boa convivência, ou seja: eles são malucos.
Chega a ser perigoso chamar um táxi. O trânsito pode estar congestionado, o sinal pode estar fechado, pode ser um cruzamento, o taxista pode estar do outro lado da avenida, ou na direção contrária à sua, que, se você chamar, rá rá rá, lá vem ele, cortando meio mundo, fazendo um retorno absurdo, freando na frente de caminhões enormes, para te pegar. É inacreditável. Indescritível. Pode saber: ouviu buzina e gritaria, tem sempre um táxi no meio.
Entrei no táxi gemendo e indiquei ao motorista (Gupha era o nome da figura, com aquele sotaque caricato que parece gozação) o endereço do hotel.
Cheguei são e salvo (e dolorido) e onze dólares mais pobre (gorjeta incluída), mas ainda faltava tempo para o check-in. Praticamente me arrastei para fora do táxi e resolvi almoçar num restaurante numa esquina perto do hotel, chamado Gramercy Cafe (nome original, não?).

Manquei como pude até o lugar e sentei, me preparando para uma boa refeição (tomara). Pedi um “blue fish” com purê de batata e brócolis e torci para ser bom.
Uma curiosidade dos restaurantes em Nova York é que, quando você se senta, imediatamente um garçom traz um copo com água e gelo. Não é preciso pedir. É compulsório. Outra coisa interessante é que vários pratos costumam ser servidos com uma entrada de salada ou sopa, já incluída no preço: não adianta dizer que não quer, o preço é o mesmo, azar o seu.
O prato chegou e era muito bom, ainda bem. Tentei comer devagar para apreciar o sabor e enrolar até poder fazer meu check-in.
Outra curiosidade nova-iorquina: assim que você termina de comer, o garçom vem e pergunta se quer mais alguma coisa, se não quiser, ele já deixa a conta na mesa, sem você pedir. Ou seja: saia logo que tem gente pra sentar. E isso aconteceu em todos os lugares onde ranguei.
Levantei com cara de dor e gemendo, para divertimento dos garçons, e fui lenta e pausadamente em direção ao hotel: hora de check-in, finalmente.
O pessoal da recepção foi gentil e amistoso. Fiquei um pouco apreensivo porque havia feito reserva pela internet e não responderam meu e-mail enviado uma semana antes, mas deu tudo certo. Consegui um quarto bom, limpo e minúsculo, onde cabia a cama, uma escrivaninha e uma pia (banheiro coletivo). Nada de armário, só uns cabides num suporte ao lado da porta. Pelo preço estava ótimo (as tarifas de hotel em NY são muito altas), e eu não pretendia ficar “curtindo” o hotel mesmo: o negócio é rodar pela cidade. Quanto ao banheiro, havia dois no meu corredor, um bem em frente ao quarto, que eram mantidos limpos pela equipe do hotel (deviam saber quando alguém os utilizava, pois sempre tinha alguém limpando e preparando para o próximo hóspede).

Finalmente, após quase 30 horas sem dormir, tinha uma cama à disposição. Tomei um banho e literalmente apaguei até as 23h.
Acordei desnorteado e faminto. Resolvi descer e dar uma volta pelas imediações, fazer um reconhecimento do terreno, e procurar algum lugar para comer. As pernas ainda doíam, mas o pior já passara, apenas torcia para as câimbras não voltarem. Acho que foi temerário sair assim, mas não dava para ficar no quarto: a cidade me chamava.
Desci e perguntei ao cara da recepção se era seguro andar pela região. Ele me garantiu que os arredores eram tranqüilos.
Saí do hotel, virei à esquerda e fui em direção à segunda avenida. Tomei a direção “uptown” e saí marchando calmamente, observando a noite de NY numa sexta-feira.
A noite estava ótima, nada de frio, um clima muito bom para andar (o frio de rachar só me achou na quinta-feira seguinte). Rodei a esmo até as duas da manhã e realmente me pareceu uma vizinhança tranqüila, com bastante gente na rua, indo para boates, pubs e, depois, procurando um lugar para comer, alguns já bastante tortos pelos efeitos da intoxicação alcoólica tradicional do começo do fim de semana.
Descobri um “diner” bem legal na esquina da segunda avenida com a rua 23, chamado Cosmos Diner (
http://www.cosmosdiner.com/), que fica aberto 24 horas.

Para os que desejam saber o que é e como é um “diner”, segue uma definição, em inglês. Se virem para traduzir: “diner is a prefabricated restaurant building characteristic of North America, especially on Long Island; in New York City; in New Jersey, and other areas of the Northeastern United States. Diners are characterized by a wide range of foods, mostly American, a casual atmosphere, a counter, and late operating hours.”
O lugar é daqueles que se vê bastante nos filmes: mesas e balcão de fórmica, ambiente descontraído, cardápio bem variado. Pedi um prato de camarão (sim, sim, camarão às duas da manhã, sou um cara destemido) que estava delicioso e fiquei fã do Cosmos Diner. Voltei algumas vezes, sempre de madrugada, e já estava ficando amigo do garçom e do cara do caixa.
Dei mais umas voltas para ajudar a digerir o camarão (as pernas se comportaram bem, nada de câimbra, mas as dores me acompanhariam pela próxima semana) e depois rumei para o hotel, parando para comprar uma garrafa de água e uns Gatorades (potássio para as câimbras – o ideal era banana, mas não sou muito fã).
No hotel, no primeiro andar (o meu era o quinto), tem uma máquina de gelo à disposição dos hóspedes. Eu a utilizei bastante, enchendo o balde de plástico vagabundo que tinha no quarto, ou, às vezes, enchendo sacos plásticos para abarrotar a pia de gelo e tentar tomar um suco de laranja mais ou menos gelado pela manhã (não sei porque, mas parecia que o gelo em Nova York derretia mais rápido: cansei de abarrotar a pia de gelo, tudo em vão).
Subi, bebi um Gatorade e dormi profundamente (sim, apesar do camarão). No dia seguinte, dois programas: compras e, depois, o show do Uli Jon Roth no BB King Blues Club & Grill (
http://www.bbkingblues.com/). Começava a odisséia nova-iorquina.
Oam Patapai
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