"I am the assassin, with tongue forged from eloquence..."

Bom, não sou um cara religioso, mas como é “Semana Santa”, resolvi partilhar algo deveras "interessante".
A lenda da cruz
Ouvi essa história há alguns anos, numa manhã cansada, encostado ao balcão de uma cafeteria de um aeroporto paulista, enquanto era contada por um gringo bêbado para sua companheira brasileira: eu tomando café para enganar o sono e eles bebericando cerveja. Não sei de onde era o gringo, mas chutaria que era russo ou de algum lugar daquelas bandas. Devo ter perdido certos detalhes, mas o que ele contou era mais ou menos assim:
Há muitos anos, em algum lugar da Europa (onde hoje deve ser Romênia, Bulgária ou Hungria, eu acho) houve um proprietário de terras, de baixa nobreza, que teve sua propriedade tomada, a casa destruída e a família morta pelos invasores otomanos; enquanto se encontrava longe, combatendo os intrusos.
Era muito religioso, assim como a esposa, como convinha na época; mas em seu desespero renegou sua fé, blasfemou contra os céus e cuspiu nos que tentaram consolá-lo. Pensou em se matar, mas faltou-lhe coragem.
Desgostoso com seu Deus e sem esperança, decidiu partir para longe, na direção do sol que se põe e disposto a não parar nunca. Abandonou então sua armadura, suas armas e seu cavalo. Iria a pé como punição: não protegera a família e, pior, sobrevivera a ela.
Juntou alguns trapos numa trouxa, jogou-a às costas e partiu.

Atravessou campos, rios, montanhas. Dormiu sob pontes, árvores, ruínas. Comia o que encontrava: frutos, raízes, pequenos animais. Também mendigou e roubou. Molhou-se em cursos d’água e nas chuvas. Secou-se ao sol e ao fogo. Cruzou cidades e florestas. Fugia de ladrões e se escondia de camponeses desconfiados e de cavaleiros ameaçadores.
Perdera a conta dos dias e noites de jornada quando numa manhã, faminto e gelado, topou com um pequeno grupo de salteadores que atacava um homem montado numa mula.
Pensou imediatamente em se juntar aos bandidos e conseguir algo para si.

Correu em direção ao grupo, pegou um galho caído e arremeteu para ajudar no assalto. Girou o galho com força, mirando o homem na mula, mas escorregou e acertou um dos atacantes: sangue e dentes espirraram enquanto o corpo caía inerte.
Os outros três assaltantes se surpreenderam e vacilaram. O homem na mula conseguiu se soltar de um deles e tocou firme o animal, que rodopiou e desferiu alguns coices, atingindo um deles.
A dupla restante decidiu combater o intruso: um acertou o andarilho no braço com um velho cabo de machado; o outro arremessou umas pedras enormes e errou o alvo.
O bandido com o cabo de machado atacou novamente. O andarilho conseguiu se defender com seu galho, mas foi ao chão quando uma pedra acertou-lhe o joelho.
O atacante com o cabo de machado se preparava para dar mais um golpe quando surgiu o homem da mula, desmontado e com uma pequena espada numa das mãos.
Alertado pelo apedrejador, que batia em retirada, o bandido evitou a lâmina da pequena espada e contra-atacou brandindo o cabo de machado, que se chocou com a espada e partiu-se em dois.
O assaltante então saiu correndo, desaparecendo rapidamente no encalço de seu companheiro.
Sem saber o que fazer, o andarilho permaneceu no chão até que o homem da mula se aproximou e estendeu-lhe a mão. O andarilho aceitou a ajuda para pôr-se de pé.
O homem da mula falou algo, mas o andarilho não entendeu.
Mais uma frase pronunciou o homem.
Equilibrando-se numa perna e massageando o local onde fora atingido pela pedra, o andarilho disse algo em sua língua.
E ouviu dos lábios do homem da mula: “Obrigado, meu amigo. Parece que você está um pouco longe de casa, não?” Agora podiam entender-se.
O homem da mula agradeceu a assistência e ofereceu ajuda.
A mula estava parada a alguns metros. Um dos ladrões derrubados contorcia-se, enquanto o outro ainda encontrava-se desacordado.
“Pobres coitados.” Disse o homem da mula, que se apresentou como um ex-monge em peregrinação para espalhar a palavra de Deus.
Aproximou-se do homem que se debatia no chão pensando em ajudá-lo, mas não sabia o que fazer: o ventre do ladrão estava inchado e duro, com uma enorme marca arroxeada que se espraiava sob a pele.
Fez a única coisa que podia: rezou pelo ladrão e por seu companheiro inconsciente.
Terminada a oração, chamou o andarilho e lhe ofereceu água e pão.
Enquanto o andarilho comia, o ex-monge foi acordar o bandido inconsciente.
Despertando confuso e coberto de sangue, o bandido sem dentes tentou fugir, mas o ex-monge o impediu, dizendo que não queria machucá-lo.
Ainda pediu sua ajuda para colocar o ladrão que gemia na mula e levá-lo a algum lugar onde pudesse ser tratado. O ex-monge sabia que existia uma aldeia a algumas léguas dali.
Começaram a caminhar em direção ao povoado. O ex-monge à frente, conduzindo a mula, e, logo atrás, o andarilho e o ladrão. O bandido estropiado chorava em cima do animal.
Subiram e desceram por várias trilhas, até que avistaram a pequena aldeia, logo antes do anoitecer.
Deslocavam-se com passo pesado e, ao adentrarem o povoado, o ex-monge notou que o ladrão com a boca arrebentada sumira. “Que Deus o abençoe.”
Logo encontraram um lugar onde deixar o ladrão escoiceado para ser tratado: uma pequena igreja de madeira sob a responsabilidade de um piedoso sacerdote.
Conseguiram ainda pouso em um pequeno estábulo com palha o suficiente para garantir proteção contra o frio.
O andarilho desabou num canto e dormiu imediatamente, e não viu o ex-monge estirar um cobertor de pele sobre seu corpo entorpecido.
No dia seguinte acordou bem depois do ex-monge, que lhe ofereceu pão preto e um pouco de sopa. Conversaram então, de verdade, pela primeira vez: o ex-nobre contou sua história e sua decisão de andar em direção ao oeste; o ex-monge relatou sua vida - andanças, estudos, decepções e a decisão de espalhar, por conta própria e de acordo com sua consciência, a Palavra.
O ex-monge consolou e aconselhou o andarilho. Falou das bem-aventuranças, dos desígnios obscuros do Pai, da verdadeira fé, da recompensa dos justos e do destino dos injustos, e convidou o ex-nobre a acompanhar sua marcha para levar os ensinamentos do Senhor aos incultos e supersticiosos.
Agradecendo a comida e o abrigo proporcionados pelo ex-monge, o andarilho recusou serenamente a oferta. Naquele dia mesmo continuaria sua jornada.
O bom ex-monge então, em reconhecimento ao socorro prestado, ofereceu ao andarilho o cobertor, alguma comida, um odre com água misturada a um pouco de vinho e mais uma surpresa: de um alforje retirou várias quinquilharias, às quais foi nomeando e comentando: chifres de animais com poderes depurativos; pedras de lugares santos; sementes de árvores desconhecidas aos cristãos; unhas de animais fantásticos; palimpsestos diversos com ensinamentos secretos; e uns dois ou três pedaços de madeira, dos quais escolheu o maior e estendeu ao andarilho.
“Este é um pedaço da verdadeira cruz de Cristo”, disse. “Para você.”

O andarilho apanhou-o e inspecionou por alguns segundos: não passava de um pedaço velho e achatado de madeira, um pouco maior que suas duas mãos postas.
Já vira muitas daquelas relíquias. Todos que voltavam da Terra Santa traziam algo consigo que diziam ser “verdadeiro”, “santo” ou “sagrado”.
Mesmo não acreditando no artefato, ou em sua procedência, o andarilho agradeceu ao ex-monge, que ia dizendo quais poderes e bênçãos recaíam sobre a relíquia, e como ela protegeria seu portador.
O andarilho despediu-se e partiu com o pedaço de madeira em sua trouxa, seguindo por uma trilha que levava a uma passagem por entre as montanhas distantes, e retomou sua rotina: andar sempre, procurar comida, encontrar abrigo, acender o fogo.
Caminhou por dias e dias, enquanto o frio apertava. O cobertor de pele era bastante eficiente mas, se o frio continuasse aumentando, talvez não fosse bastasse.
Foi surpreendido pela neve numa manhã: agora as coisas iam ficar realmente difíceis.
Progrediu quase congelando, com dores pelo corpo, formigamento nas extremidades e gelo na barba e nos cabelos; e a cada dia de jornada a comida escasseava.
Com sorte, encontrou uma caverna à beira de um vale. Antigos rastros de fogueiras e ossos de animais se espalhavam pelo local. Resolveu ficar por ali até a neve amansar: estava exaurido.
Acendeu uma fogueira com alguns restos de madeira que estavam ao redor e procurou se aquecer para tomar coragem de sair e buscar algo para comer.
A investida pelos arredores da caverna rendeu algumas raízes comestíveis e galhos grossos para o fogo.
Comeu o que pôde, derreteu neve para matar a sede e adormeceu encolhido no cobertor de pele, protegido pela fogueira que queimou por um bom tempo.
Ao acordar, sem saber se era dia ou noite, depositou os últimos galhos na fogueira moribunda e saiu para uma nova inspeção nos arredores. O sol estava fraco, mas conseguiu mais alguns galhos e quase nada para comer; a neve aumentava e o frio beirava o insuportável.
De volta à caverna, avaliou as opções: era impossível chegar vivo a qualquer lugar com aquele frio cada vez pior. Se conseguisse algo mais forte para comer, além de lenha em abundância, poderia resistir alguns dias naquele buraco.
Reuniu um resto de força e saiu mais uma vez.
Colheu quantos galhos pôde e os juntou na caverna. Desenterrou uma ou duas raízes amargas onde a neve ainda permitia.
A luz já estava próxima do fim quando, retornando a seu refúgio improvisado, divisou uma lebre próximo à caverna. Quase não acreditou.
Permaneceu imóvel para não assustar o animal e ganhar tempo maquinando como agarrá-lo: talvez conseguisse afugentá-lo para dentro do abrigo.
Como se ouvisse seus pensamentos, e resolvida a colaborar, a lebre deu pequenos saltos e ficou mais perto da entrada da caverna.
O andarilho depositou sua carga no chão da maneira mais discreta possível, juntou forças e, sem nem perceber, disse uma pequena prece. Respirou fundo o ar gelado e partiu o mais rápido possível em direção ao animal.
A lebre se assustou e, como que ensaiado, partiu diretamente para a caverna, com o andarilho em seu rastro.
O homem procurou bloquear a entrada com o corpo e parou para localizar a lebre. Encontrou-a no fundo da caverna, bem afastada da fogueira e, após uma pequena perseguição, conseguiu atingir o animal com uma pedra.
Apanhou o animal do chão sujo e encarou-o, sem saber por onde começar. Abriu então o pescoço da lebre com os dentes e bebeu o sangue quente e delicioso. Resolveu guardar o resto para depois, afinal, não sabia quanto tempo ficaria por ali.
Alimentou o fogo, tomou água e retirou a pele e as entranhas da lebre. Poderia aproveitar muito bem as vísceras do animal.
Sentou-se e pendurou a carcaça da lebre num galho perto de si. Foi buscar a lenha que ficara fora da caverna, alimentou o fogo e, exausto mas alimentado, deitou-se e dormiu.
Despertou após algum tempo. Esperou o dia clarear e saiu para procurar mais lenha e comida, mas quase nada encontrou. Voltou rapidamente para a caverna quando começou uma nevasca forte.
Comeu algumas vísceras, as raízes e só.
A tempestade foi aumentando gradativamente. A neve cobria quase toda a entrada da caverna. Estava preso de vez.
Conseguiu ir atravessando os dias racionando os restos da lebre e as últimas raízes. Os galhos foram postos ao fogo com menos freqüência: com a entrada da caverna bloqueada o frio diminuíra um pouco.
Os dias foram correndo, ele nunca soube quantos, e o frio ia tomando conta do abrigo paulatinamente, até que o fogo foi realimentado pela última vez. Com menos da metade da carcaça da lebre reservada, podia comer mais duas ou três vezes, sem o fogo, porém, não sobreviveria.
Tentou sair da caverna, cavando uma passagem, mas a neve estava alta e densa demais.
Pensou um pouco e lembrou-se do pedaço da “verdadeira cruz de Cristo”. Sem pestanejar, apanhou o toco de madeira e atirou-o na fogueira.

O fogo foi aumentando e o calor expulsou um pouco do frio. Retirou um pedaço da carcaça da lebre e colocou em uma pedra ao lado do fogo para assá-lo um pouco.
Comeu e deitou-se. Não havia nada a fazer.
Assim ficou por algum tempo: agüentando a fome ao máximo, comendo pouco, dormindo e sonhando agitado.
Despertou um dia confuso com a fraqueza. Mesmo assim conseguiu colocar o resto da carcaça perto do fogo. Era sua última refeição.
O fogo continuava forte.
Retirou o derradeiro pedaço de carne de lebre dos ossos e comeu devagar. Tomou água do odre e deixou-se cair numa entrega conformada. Não tinha mais chances. Pensou em rezar e desistiu. Rendeu-se à escuridão.
Acordou num susto, atordoado pelos sonhos.
Sentou-se e olhou os ossos da lebre perto do fogo: para sua surpresa, havia um pedaço de carne pendendo da carcaça. Aparentemente descuidara dele.
Retirou o naco de carne e mastigou com gosto.
Como não o vira ali antes? A animação foi embora rapidamente: só iria prolongar sua agonia, pois lá fora a nevasca não dava descanso.
Rolou para o lado e cobriu-se com a pele. Dormiu e acordou várias vezes.
Sentiu fome novamente e pensou em roer os ossos que restaram. Não foi necessário: ao se aproximar da carcaça, viu mais um pedaço de carne preso a um osso.
Agarrou os restos, puxou o pedaço de carne e inspecionou a peça, milímetro por milímetro, certificando-se de que mais nada sobrara.
Voltou a colocar a carcaça perto do fogo e comeu a carne, desconfiado. A inanição lhe pregava peças.
Cobriu-se novamente.
De vez em quando olhava a ossada para conferir se havia esquecido um ponto qualquer.
Caiu mais uma vez num sono confuso, e novamente, ao acordar com fome, descobriu um pedaço de carne preso aos ossos da lebre.
Esfregou os olhos com força. Não podia acreditar. Já inspecionara aqueles ossos, mais de uma vez. Isso não era possível... só se fosse... será que era... só podia ser ...
E só então começou a dar-se conta do que vinha ocorrendo sem que percebesse: o fogo não enfraquecera com o tempo. Havia muito que não colocava lenha nele. Também o odre do qual vinha bebendo parecia não esvaziar, e não se lembrava de derreter água para enchê-lo, pelo menos não ultimamente; e havia a carcaça da qual a carne parecia brotar.
Com o coração disparado, foi até ao fundo da caverna, onde sobre uma pedra colocara os vegetais que colhera e já consumira. E, como já suspeitava, lá estavam algumas raízes.
Era isso então: aquele pedaço de madeira era da verdadeira cruz de Cristo.
Sem saber o que fazer, pôs-se a rezar e a chorar ao mesmo tempo. Pediu perdão pelos atos condenáveis, pelas imprecações, pela falta de fé, por ter jogado ao fogo a relíquia e agradeceu a segunda chance que Deus punha a seu alcance.
E dessa forma os dias foram passando, e nunca faltou água, comida ou fogo ao andarilho: sempre que acordava, lá estavam seus mantimentos e seu calor. Nunca viu como acontecia e nem tentou: respeito e fé.
Um dia porém, ao acordar, percebeu que a caverna estava mais fria, e ao conferir a carcaça e a pedra, verificou que nada havia.
O medo foi tomando conta dele, mas recusou-se a acreditar que fora abandonado. Levantou-se com dificuldade e se dirigiu à entrada do abrigo.
A neve já não bloqueava a saída e a nevasca se fora. O sol brilhava tênue no céu e uma fina camada de neve ainda cobria tudo até onde a vista alcançava. Ficou maravilhado. Agora já podia sair e coletar lenha e comida. Ajoelhou-se e agradeceu.

Enquanto encontrava-se persignado, olhos fechados em fervor, sentiu um cheiro leve de fumaça e de carne assando.
Saiu cambaleando e avistou uma linha de fumaça a subir por detrás de algumas árvores ao longe.
Voltou à caverna para catar seus pertences e notou que a fogueira se extinguira. Ainda tentou recolher alguma coisa, mas só encontrou cinzas, que juntou e guardou consigo. Espalhou um pouco no rosto, nos cabelos e um bom bocado no cobertor, pegou sua trouxa e saiu do abrigo como se, ressuscitado, saísse de sua cova.
Assim, o andarilho encontrou auxílio com alguns caçadores, que conduziram-no à cidade mais próxima, na qual o ex-nobre, reconciliado com seu Deus, deu fim à sua peregrinação e onde passou a dedicar seus dias à caridade e à disseminação da Palavra; ajudando os necessitados, abençoando os enfermos e, até mesmo, curando alguns desenganados com as cinzas da cruz.
E desse modo foi vivendo, até ser confrontado pela Inquisição, preocupada com sua fama crescente e curiosa com as notícias de suas pregações pouco ortodoxas, com os relatos de milagres e com os boatos acerca de cinzas curativas que proviriam da verdadeira cruz de Cristo. Porque, se isso fosse verdade, alguém cometera um grande sacrilégio. Quem destruiria tão preciosa relíquia? Era um caso grave. Uma investigação fazia-se necessária etc. etc. etc...
Mas isso, infelizmente, é uma outra história...
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De onde vem a verdadeira cruz?
A veneração de relíquias religiosas (artefatos que tiveram contato com figuras consideradas santas) é uma forte tradição da Igreja Católica. Um hábito que nasceu na Idade Média e que se mantém popular ainda hoje. Pedaços da verdadeira cruz de Cristo, entre outros “itens”, continuam a atrair fiéis e curiosos a várias igrejas e santuários espalhados pelo mundo.
A real “origem” dos pedaços verdadeiros da cruz é bastante controversa: os próprios cronistas cristãos discordam uns dos outros.

Jacopo de Varazze – ou Jacobus de Varagine, ou Voragine, ou Giacomo da Varazze ou sei lá (1230-1298) – registrou em sua Legenda Áurea (edição brasileira pela Companhia das Letras, 2003) as possíveis origens e descoberta da cruz.

Segundo o arcebispo de Gênova, que se baseou em textos mais antigos, a árvore de onde veio a madeira da cruz nasceu de um pequeno ramo que o arcanjo Miguel deu a Seth para que plantasse no monte Líbano, ou no túmulo de seu pai, Adão, dependendo da fonte.
A tal árvore (que pode ter sido uma muda da árvore que causou a queda do próprio Adão) cresceu e durou até o reinado de Salomão, que mandou cortá-la para que fosse usada na construção de seu palácio.
Marotamente, porém, ela nunca se deixou usar, pois a cada hora parecia ter um comprimento diferente, e nunca havia lugar conveniente para ela.
Os artesãos – marceneiros, carpinteiros etc. – logo desistiram dela e colocaram-na como ponte sobre um pequeno lago (não perguntem como ela resolveu, de repente, “parar quieta”), onde ficou até a rainha de Sabá passar por ali para bater um papo com Salomão.
Parece que a tal rainha teve uma visão: naquela madeira seria suspenso o Messias, o Salvador. Por isso, recusou-se a pisá-la, e na verdade venerou-a. Já em outra fonte temos que a rainha de Sabá viu a madeira e deu um toque para o Salomão que naquela madeira pregariam o sujeito que causaria a destruição do reino dos judeus.
Só para garantir – desencargo de consciência – Salomão mandou que enterrassem o pedaço de madeira.
Infelizmente, para azar de Salomão, o lugar escolhido foi transformado, muito tempo depois, num tipo de “piscina sagrada” onde vítimas de sacrifícios eram banhadas e que tinha propriedades curativas (alguns diziam que era devido a um anjo que baixava na área de tempos em tempos, outros alegavam que era por causa da madeira enterrada metros abaixo).
Quando chegou a época da Paixão, o tronco de madeira emergiu e foi utilizado para a fabricação da cruz.
Uma outra fonte alega que a cruz foi confeccionada com quatro tipos de madeira: palmeira, cipreste, oliveira e cedro. Isso porque tinha quatro partes: vertical, horizontal, superior e base. E daí vem uma enrolação que nem vale a pena comentar. É melhor voltar à história principal.
Depois da Paixão, a madeira ficou enterrada no Gólgota até ser descoberta pela mãe do imperador Constantino, Helena.
A partir daqui, o negócio fica meio confuso, pois alguns cronistas confundem os imperadores chamados Constantino e suas batalhas e eventuais conversões e batismos na mão de bispos diversos; mas parece que “um Constantino” teve uma visão da cruz antes de uma batalha e conseguiu vencer os bárbaros que ameaçavam seus domínios.
Ao buscar o significado da cruz em sua visão, deu com os cristãos e bandeou-se para a, então, “nova fé”.
Sendo agora um imperador converso, esse Constantino envia sua mãe a Jerusalém para encontrar a verdadeira cruz.
Chegando lá, mamãe reúne os sábios judeus e indaga sobre o local da crucificação. Eles dizem que não sabem. Ela ameaça queimá-los vivos. Eles se lembram, então, que o único que pode dizer onde está a cruz é um sujeito chamado, ironicamente, Judas, e apontam todos em sua direção.
Mamãe Helena dispensa os sábios, menos, é claro, o pobre Judas.
Já imagino o diálogo:
– Cadê a cruz?