sexta-feira, 17 de abril de 2009

De pingentes e merdunchos

"All the best freaks are here, please stop staring at me..."











“Branca, ainda assim, Mariazinha Tiro a Esmo é uma peça. Meteram-lhe esse nome lá pelos altos encardidos da Favela da Rocinha, num ponto de pivetes tão tumultuado, tão cheio de movimento, rumor e estripulias que ali acordar era fácil, dormir é que não.

Direitinha, como diriam os últimos rapazes, família da Zona Sul. Ela tem picardia e está na dela, como dizem os tipos amalandrados dos becos e das favelas. Dissimulada em seu trabalho, matreira trabalhando na boca do mocó, indo e vindo na baba de quiabo, enganando otários e pacatos, ela sobrevive. Só ou acompanhada na marginalidade, vai beirando o crime na cidade que castiga – mais de quatro milhões de habitantes, mais de um milhão de favelados.”



Trecho do conto ‘Mariazinha Tiro a Esmo’, de João Antônio, publicado em “Malhação do Judas Carioca”, primeira edição de 1975, pela Editora Civilização Brasileira.




João Antônio (João Antônio Ferreira Filho, 1937-1996), filhos de pais imigrantes portugueses, nasceu em São Paulo, capital. Apesar da origem humilde, tornou-se jornalista renomado, após breve passagem pela publicidade, e finalmente escritor consagrado, dono de uma obra única na literatura brasileira.


Era chamado de “escritor do submundo” devido aos personagens e paisagens de seus textos: malandros, prostitutas, jogadores de sinuca, policiais, bêbados e vagabundos; aos quais se referia como “pingentes”, “merdunchos”, “gente descarrilada”, e que marcaram época, seja no Rio de Janeiro ou em São Paulo, em tempos passados.

Sua sintaxe particular e seu estilo coloquial (que emulava o falar dos habitantes das “bocas”) eram a marca de um escritor consciente do efeito que procurava no leitor; não apenas trazia à vida os anônimos das noites de boemia (ambiente que conhecia e habitava), como queria que tivessem personalidade única aos olhos do resto do mundo.


Seu primeiro livro, "Malagueta, Perus e Bacanaço", teve os originais destruídos por um incêndio, em 1960. Reescreveu totalmente a obra para publicação, em 1963, e conquistou vários prêmios. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1964 para trabalhar na imprensa. Atuou no Jornal do Brasil, na revista Realidade, no Pasquim e em outros órgãos da “imprensa nanica” (termo que cunhou). Fica um tempo internado num manicômio, experiência que rende “Casa de loucos", de 1976.

Passa por temporadas fora do país e é reconhecido como um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos, principalmente na Alemanha.

Continua a escrever e a defender o escritor brasileiro diante das imposturas do mercado editorial até sua morte solitária em 1996: foi descoberto duas semanas após ter falecido em seu apartamento, no Rio de Janeiro.


Seus livros estão sendo relançados pela Cosac Naify em excelentes edições: com comentários críticos e tratamento gráfico de primeira. Já estão no mercado: Malagueta, Perus e Bacanaço", "Dedo-Duro", "Ô, Copacabana", "Abraçado ao meu Rancor" e “Leão-de-Chácara”.




Oam patapai

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