
Chegara quase desesperado à grande cidade. O atraso inesperado recalibrara sua ansiedade.
Afoito, correu pelo aeroporto, meteu-se no primeiro táxi que viu e deu o endereço do apartamento. Endereço mais que decorado, já que o relia e conferia diversas vezes ao dia, assim como as fotos enviadas pelo corretor: quarto, banheiro, cozinha minúscula, pequena sala com vista para as luzes da metrópole, e tudo após uma subida de 13 andares.
Animou-se com a vista do táxi. Tudo era como imaginara. Ruas, pessoas, cheiros, sons, luzes.
Desceu no local indicado, pagou o motorista sem reclamar e mergulhou no prédio.
Subiu num elevador que gemia como um carro velho e, nervoso, procurou as chaves pelos bolsos.
Abriu a porta, derrubou as malas num canto, escancarou a janela, confrontou a capital do mundo e gritou: “Cheguei, porra!!! Tô aqui, caralho!!! Tudo aqui é meu, agora é meu, tudo, tudo, tudo!!! Agora é minha vez, seus filhos duma puta...”
E esperou, em guarda, a resposta da cidade, seus rugidos de indiferença, suas recriminações e suas lamúrias de boas-vindas.
Nada.
Continuou aguardando, coração disparado.
Nada.
Berrou mais uma vez.
Nada.
A respiração foi se normalizando, o pulso caiu e uma onda de frio desceu pelas costas, ramificando-se pelos braços e pelos dedos.
Recuou dois passos. Tirou os olhos da janela, vasculhou a pequena, vazia e empoeirada sala, conferiu as malas e tornou a fixar a janela e além.
Não soube quanto tempo ficou olhando a cidade, mas quando percebeu que ela encarava de volta, silenciosa e pronta para o bote, fechou a janela de supetão.
Naquela noite, sobre um colchonete gasto e imundo, dormiu de luz acesa.
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Oam patapai
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