quarta-feira, 29 de abril de 2009

Reza brava

"Welcome my son, welcome to the machine..."








Loud Prayer


Our Father whose art's in heaven

Hollow be Thy name

Unless things change


Thy wigdom come and gone

Thy will will be undone

On earth as it isn't heaven


Give us this day our daily bread

At least three times a day


And forgive us our trespasses

As we would forgive those lovelies

Whom we wish would trespass against us


And lead us not into temptation

Too often on weekdays


But deliver us from evil

Whose presence remains unexplained

In Thy kingdom of power and glory


Oh, man



by Lawrence Ferlinghetti





(Segue uma tradução/adaptação caseira meio tosca)



Prece em alto volume


Pai Nosso cuja arte está no Céu
vazio seja teu nome
a não ser que as coisas mudem.

Tuas broncas vieram e se foram
e Tua vontade será desfeita
aqui na Terra, já que não é o Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje
pelo menos três vezes ao dia.

E perdoai nossos pecados
assim como nós perdoamos aquelas lindas garotas
que desejamos que pequem conosco.

E não nos deixeis cair em tentação
com frequência durante a semana.

Mas livrai-nos do mal
cuja presença continua inexplicável
Em teu reino de poder e glória.
Ah, cara…





Lawrence Ferlinghetti é um poeta americano, fundador da famosa livraria e editora City Lights, em São Francisco. Nasceu em 24 de março de 1919, em Yonkers, Nova York e tornou-se conhecido ao associar-se ao movimento Beat, que encarava sua livraria como uma espécie de “quartel-general” na costa oeste americana, lançando vários trabalhos pela sua editora. Ele mesmo nunca se considerou um Beat, já que era de outra geração. Publicou o longo, e agora famoso, poema “Howl”, de Allen Ginsberg (editado no Brasil com o título de “Uivo”, pela L&PM, em sua coleção de livros de bolso), e teve que defender-se nos tribunais da acusação de “obscenidade”; o que só serviu para promover o livro. Sempre um crítico da sociedade americana, é engajado politicamente e se considera um “anarquista filosófico”. Seu trabalho mais famoso é “A Coney Island Of The Mind”, um livro que já vendeu mais de um milhão de cópias, coisa rara no caso da poesia, e que foi publicado no Brasil como “Um Parque de Diversões da Cabeça”, também pela L&PM Pocket. A City Lights Bookstore tornou-se uma fundação e é considerada patrimônio da cidade de São Francisco, onde Lawrence continua trabalhando até hoje (abril de 2009).


Em tempo: Loud Prayer não é de A Coney Island Of The Mind.








Oam patapai

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Metrópolis

"And the darkness zips up the city just like a body bag..."








Chegara quase desesperado à grande cidade. O atraso inesperado recalibrara sua ansiedade.

Afoito, correu pelo aeroporto, meteu-se no primeiro táxi que viu e deu o endereço do apartamento. Endereço mais que decorado, já que o relia e conferia diversas vezes ao dia, assim como as fotos enviadas pelo corretor: quarto, banheiro, cozinha minúscula, pequena sala com vista para as luzes da metrópole, e tudo após uma subida de 13 andares.

Animou-se com a vista do táxi. Tudo era como imaginara. Ruas, pessoas, cheiros, sons, luzes.

Desceu no local indicado, pagou o motorista sem reclamar e mergulhou no prédio.

Subiu num elevador que gemia como um carro velho e, nervoso, procurou as chaves pelos bolsos.

Abriu a porta, derrubou as malas num canto, escancarou a janela, confrontou a capital do mundo e gritou: “Cheguei, porra!!! Tô aqui, caralho!!! Tudo aqui é meu, agora é meu, tudo, tudo, tudo!!! Agora é minha vez, seus filhos duma puta...”

E esperou, em guarda, a resposta da cidade, seus rugidos de indiferença, suas recriminações e suas lamúrias de boas-vindas.

Nada.

Continuou aguardando, coração disparado.

Nada.

Berrou mais uma vez.

Nada.

A respiração foi se normalizando, o pulso caiu e uma onda de frio desceu pelas costas, ramificando-se pelos braços e pelos dedos.

Recuou dois passos. Tirou os olhos da janela, vasculhou a pequena, vazia e empoeirada sala, conferiu as malas e tornou a fixar a janela e além.

Não soube quanto tempo ficou olhando a cidade, mas quando percebeu que ela encarava de volta, silenciosa e pronta para o bote, fechou a janela de supetão.

Naquela noite, sobre um colchonete gasto e imundo, dormiu de luz acesa.

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Oam patapai

sexta-feira, 17 de abril de 2009

De pingentes e merdunchos

"All the best freaks are here, please stop staring at me..."











“Branca, ainda assim, Mariazinha Tiro a Esmo é uma peça. Meteram-lhe esse nome lá pelos altos encardidos da Favela da Rocinha, num ponto de pivetes tão tumultuado, tão cheio de movimento, rumor e estripulias que ali acordar era fácil, dormir é que não.

Direitinha, como diriam os últimos rapazes, família da Zona Sul. Ela tem picardia e está na dela, como dizem os tipos amalandrados dos becos e das favelas. Dissimulada em seu trabalho, matreira trabalhando na boca do mocó, indo e vindo na baba de quiabo, enganando otários e pacatos, ela sobrevive. Só ou acompanhada na marginalidade, vai beirando o crime na cidade que castiga – mais de quatro milhões de habitantes, mais de um milhão de favelados.”



Trecho do conto ‘Mariazinha Tiro a Esmo’, de João Antônio, publicado em “Malhação do Judas Carioca”, primeira edição de 1975, pela Editora Civilização Brasileira.




João Antônio (João Antônio Ferreira Filho, 1937-1996), filhos de pais imigrantes portugueses, nasceu em São Paulo, capital. Apesar da origem humilde, tornou-se jornalista renomado, após breve passagem pela publicidade, e finalmente escritor consagrado, dono de uma obra única na literatura brasileira.


Era chamado de “escritor do submundo” devido aos personagens e paisagens de seus textos: malandros, prostitutas, jogadores de sinuca, policiais, bêbados e vagabundos; aos quais se referia como “pingentes”, “merdunchos”, “gente descarrilada”, e que marcaram época, seja no Rio de Janeiro ou em São Paulo, em tempos passados.

Sua sintaxe particular e seu estilo coloquial (que emulava o falar dos habitantes das “bocas”) eram a marca de um escritor consciente do efeito que procurava no leitor; não apenas trazia à vida os anônimos das noites de boemia (ambiente que conhecia e habitava), como queria que tivessem personalidade única aos olhos do resto do mundo.


Seu primeiro livro, "Malagueta, Perus e Bacanaço", teve os originais destruídos por um incêndio, em 1960. Reescreveu totalmente a obra para publicação, em 1963, e conquistou vários prêmios. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1964 para trabalhar na imprensa. Atuou no Jornal do Brasil, na revista Realidade, no Pasquim e em outros órgãos da “imprensa nanica” (termo que cunhou). Fica um tempo internado num manicômio, experiência que rende “Casa de loucos", de 1976.

Passa por temporadas fora do país e é reconhecido como um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos, principalmente na Alemanha.

Continua a escrever e a defender o escritor brasileiro diante das imposturas do mercado editorial até sua morte solitária em 1996: foi descoberto duas semanas após ter falecido em seu apartamento, no Rio de Janeiro.


Seus livros estão sendo relançados pela Cosac Naify em excelentes edições: com comentários críticos e tratamento gráfico de primeira. Já estão no mercado: Malagueta, Perus e Bacanaço", "Dedo-Duro", "Ô, Copacabana", "Abraçado ao meu Rancor" e “Leão-de-Chácara”.




Oam patapai

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Senta que lá vem história...

"I am the assassin, with tongue forged from eloquence..."







Bom, não sou um cara religioso, mas como é “Semana Santa”, resolvi partilhar algo deveras "interessante".




A lenda da cruz


Ouvi essa história há alguns anos, numa manhã cansada, encostado ao balcão de uma cafeteria de um aeroporto paulista, enquanto era contada por um gringo bêbado para sua companheira brasileira: eu tomando café para enganar o sono e eles bebericando cerveja. Não sei de onde era o gringo, mas chutaria que era russo ou de algum lugar daquelas bandas. Devo ter perdido certos detalhes, mas o que ele contou era mais ou menos assim:

Há muitos anos, em algum lugar da Europa (onde hoje deve ser Romênia, Bulgária ou Hungria, eu acho) houve um proprietário de terras, de baixa nobreza, que teve sua propriedade tomada, a casa destruída e a família morta pelos invasores otomanos; enquanto se encontrava longe, combatendo os intrusos.

Era muito religioso, assim como a esposa, como convinha na época; mas em seu desespero renegou sua fé, blasfemou contra os céus e cuspiu nos que tentaram consolá-lo. Pensou em se matar, mas faltou-lhe coragem.

Desgostoso com seu Deus e sem esperança, decidiu partir para longe, na direção do sol que se põe e disposto a não parar nunca. Abandonou então sua armadura, suas armas e seu cavalo. Iria a pé como punição: não protegera a família e, pior, sobrevivera a ela.

Juntou alguns trapos numa trouxa, jogou-a às costas e partiu.



Atravessou campos, rios, montanhas. Dormiu sob pontes, árvores, ruínas. Comia o que encontrava: frutos, raízes, pequenos animais. Também mendigou e roubou. Molhou-se em cursos d’água e nas chuvas. Secou-se ao sol e ao fogo. Cruzou cidades e florestas. Fugia de ladrões e se escondia de camponeses desconfiados e de cavaleiros ameaçadores.

Perdera a conta dos dias e noites de jornada quando numa manhã, faminto e gelado, topou com um pequeno grupo de salteadores que atacava um homem montado numa mula.

Pensou imediatamente em se juntar aos bandidos e conseguir algo para si.



Correu em direção ao grupo, pegou um galho caído e arremeteu para ajudar no assalto. Girou o galho com força, mirando o homem na mula, mas escorregou e acertou um dos atacantes: sangue e dentes espirraram enquanto o corpo caía inerte.

Os outros três assaltantes se surpreenderam e vacilaram. O homem na mula conseguiu se soltar de um deles e tocou firme o animal, que rodopiou e desferiu alguns coices, atingindo um deles.

A dupla restante decidiu combater o intruso: um acertou o andarilho no braço com um velho cabo de machado; o outro arremessou umas pedras enormes e errou o alvo.

O bandido com o cabo de machado atacou novamente. O andarilho conseguiu se defender com seu galho, mas foi ao chão quando uma pedra acertou-lhe o joelho.

O atacante com o cabo de machado se preparava para dar mais um golpe quando surgiu o homem da mula, desmontado e com uma pequena espada numa das mãos.

Alertado pelo apedrejador, que batia em retirada, o bandido evitou a lâmina da pequena espada e contra-atacou brandindo o cabo de machado, que se chocou com a espada e partiu-se em dois.

O assaltante então saiu correndo, desaparecendo rapidamente no encalço de seu companheiro.

Sem saber o que fazer, o andarilho permaneceu no chão até que o homem da mula se aproximou e estendeu-lhe a mão. O andarilho aceitou a ajuda para pôr-se de pé.

O homem da mula falou algo, mas o andarilho não entendeu.

Mais uma frase pronunciou o homem.

Equilibrando-se numa perna e massageando o local onde fora atingido pela pedra, o andarilho disse algo em sua língua.

E ouviu dos lábios do homem da mula: “Obrigado, meu amigo. Parece que você está um pouco longe de casa, não?” Agora podiam entender-se.

O homem da mula agradeceu a assistência e ofereceu ajuda.

A mula estava parada a alguns metros. Um dos ladrões derrubados contorcia-se, enquanto o outro ainda encontrava-se desacordado.

“Pobres coitados.” Disse o homem da mula, que se apresentou como um ex-monge em peregrinação para espalhar a palavra de Deus.

Aproximou-se do homem que se debatia no chão pensando em ajudá-lo, mas não sabia o que fazer: o ventre do ladrão estava inchado e duro, com uma enorme marca arroxeada que se espraiava sob a pele.

Fez a única coisa que podia: rezou pelo ladrão e por seu companheiro inconsciente.

Terminada a oração, chamou o andarilho e lhe ofereceu água e pão.

Enquanto o andarilho comia, o ex-monge foi acordar o bandido inconsciente.

Despertando confuso e coberto de sangue, o bandido sem dentes tentou fugir, mas o ex-monge o impediu, dizendo que não queria machucá-lo.

Ainda pediu sua ajuda para colocar o ladrão que gemia na mula e levá-lo a algum lugar onde pudesse ser tratado. O ex-monge sabia que existia uma aldeia a algumas léguas dali.

Começaram a caminhar em direção ao povoado. O ex-monge à frente, conduzindo a mula, e, logo atrás, o andarilho e o ladrão. O bandido estropiado chorava em cima do animal.

Subiram e desceram por várias trilhas, até que avistaram a pequena aldeia, logo antes do anoitecer.

Deslocavam-se com passo pesado e, ao adentrarem o povoado, o ex-monge notou que o ladrão com a boca arrebentada sumira. “Que Deus o abençoe.”

Logo encontraram um lugar onde deixar o ladrão escoiceado para ser tratado: uma pequena igreja de madeira sob a responsabilidade de um piedoso sacerdote.

Conseguiram ainda pouso em um pequeno estábulo com palha o suficiente para garantir proteção contra o frio.

O andarilho desabou num canto e dormiu imediatamente, e não viu o ex-monge estirar um cobertor de pele sobre seu corpo entorpecido.

No dia seguinte acordou bem depois do ex-monge, que lhe ofereceu pão preto e um pouco de sopa. Conversaram então, de verdade, pela primeira vez: o ex-nobre contou sua história e sua decisão de andar em direção ao oeste; o ex-monge relatou sua vida - andanças, estudos, decepções e a decisão de espalhar, por conta própria e de acordo com sua consciência, a Palavra.

O ex-monge consolou e aconselhou o andarilho. Falou das bem-aventuranças, dos desígnios obscuros do Pai, da verdadeira fé, da recompensa dos justos e do destino dos injustos, e convidou o ex-nobre a acompanhar sua marcha para levar os ensinamentos do Senhor aos incultos e supersticiosos.

Agradecendo a comida e o abrigo proporcionados pelo ex-monge, o andarilho recusou serenamente a oferta. Naquele dia mesmo continuaria sua jornada.

O bom ex-monge então, em reconhecimento ao socorro prestado, ofereceu ao andarilho o cobertor, alguma comida, um odre com água misturada a um pouco de vinho e mais uma surpresa: de um alforje retirou várias quinquilharias, às quais foi nomeando e comentando: chifres de animais com poderes depurativos; pedras de lugares santos; sementes de árvores desconhecidas aos cristãos; unhas de animais fantásticos; palimpsestos diversos com ensinamentos secretos; e uns dois ou três pedaços de madeira, dos quais escolheu o maior e estendeu ao andarilho.

“Este é um pedaço da verdadeira cruz de Cristo”, disse. “Para você.”


O andarilho apanhou-o e inspecionou por alguns segundos: não passava de um pedaço velho e achatado de madeira, um pouco maior que suas duas mãos postas.

Já vira muitas daquelas relíquias. Todos que voltavam da Terra Santa traziam algo consigo que diziam ser “verdadeiro”, “santo” ou “sagrado”.

Mesmo não acreditando no artefato, ou em sua procedência, o andarilho agradeceu ao ex-monge, que ia dizendo quais poderes e bênçãos recaíam sobre a relíquia, e como ela protegeria seu portador.

O andarilho despediu-se e partiu com o pedaço de madeira em sua trouxa, seguindo por uma trilha que levava a uma passagem por entre as montanhas distantes, e retomou sua rotina: andar sempre, procurar comida, encontrar abrigo, acender o fogo.

Caminhou por dias e dias, enquanto o frio apertava. O cobertor de pele era bastante eficiente mas, se o frio continuasse aumentando, talvez não fosse bastasse.

Foi surpreendido pela neve numa manhã: agora as coisas iam ficar realmente difíceis.

Progrediu quase congelando, com dores pelo corpo, formigamento nas extremidades e gelo na barba e nos cabelos; e a cada dia de jornada a comida escasseava.

Com sorte, encontrou uma caverna à beira de um vale. Antigos rastros de fogueiras e ossos de animais se espalhavam pelo local. Resolveu ficar por ali até a neve amansar: estava exaurido.

Acendeu uma fogueira com alguns restos de madeira que estavam ao redor e procurou se aquecer para tomar coragem de sair e buscar algo para comer.

A investida pelos arredores da caverna rendeu algumas raízes comestíveis e galhos grossos para o fogo.

Comeu o que pôde, derreteu neve para matar a sede e adormeceu encolhido no cobertor de pele, protegido pela fogueira que queimou por um bom tempo.

Ao acordar, sem saber se era dia ou noite, depositou os últimos galhos na fogueira moribunda e saiu para uma nova inspeção nos arredores. O sol estava fraco, mas conseguiu mais alguns galhos e quase nada para comer; a neve aumentava e o frio beirava o insuportável.

De volta à caverna, avaliou as opções: era impossível chegar vivo a qualquer lugar com aquele frio cada vez pior. Se conseguisse algo mais forte para comer, além de lenha em abundância, poderia resistir alguns dias naquele buraco.

Reuniu um resto de força e saiu mais uma vez.

Colheu quantos galhos pôde e os juntou na caverna. Desenterrou uma ou duas raízes amargas onde a neve ainda permitia.

A luz já estava próxima do fim quando, retornando a seu refúgio improvisado, divisou uma lebre próximo à caverna. Quase não acreditou.

Permaneceu imóvel para não assustar o animal e ganhar tempo maquinando como agarrá-lo: talvez conseguisse afugentá-lo para dentro do abrigo.

Como se ouvisse seus pensamentos, e resolvida a colaborar, a lebre deu pequenos saltos e ficou mais perto da entrada da caverna.

O andarilho depositou sua carga no chão da maneira mais discreta possível, juntou forças e, sem nem perceber, disse uma pequena prece. Respirou fundo o ar gelado e partiu o mais rápido possível em direção ao animal.

A lebre se assustou e, como que ensaiado, partiu diretamente para a caverna, com o andarilho em seu rastro.

O homem procurou bloquear a entrada com o corpo e parou para localizar a lebre. Encontrou-a no fundo da caverna, bem afastada da fogueira e, após uma pequena perseguição, conseguiu atingir o animal com uma pedra.

Apanhou o animal do chão sujo e encarou-o, sem saber por onde começar. Abriu então o pescoço da lebre com os dentes e bebeu o sangue quente e delicioso. Resolveu guardar o resto para depois, afinal, não sabia quanto tempo ficaria por ali.

Alimentou o fogo, tomou água e retirou a pele e as entranhas da lebre. Poderia aproveitar muito bem as vísceras do animal.

Sentou-se e pendurou a carcaça da lebre num galho perto de si. Foi buscar a lenha que ficara fora da caverna, alimentou o fogo e, exausto mas alimentado, deitou-se e dormiu.

Despertou após algum tempo. Esperou o dia clarear e saiu para procurar mais lenha e comida, mas quase nada encontrou. Voltou rapidamente para a caverna quando começou uma nevasca forte.

Comeu algumas vísceras, as raízes e só.

A tempestade foi aumentando gradativamente. A neve cobria quase toda a entrada da caverna. Estava preso de vez.

Conseguiu ir atravessando os dias racionando os restos da lebre e as últimas raízes. Os galhos foram postos ao fogo com menos freqüência: com a entrada da caverna bloqueada o frio diminuíra um pouco.

Os dias foram correndo, ele nunca soube quantos, e o frio ia tomando conta do abrigo paulatinamente, até que o fogo foi realimentado pela última vez. Com menos da metade da carcaça da lebre reservada, podia comer mais duas ou três vezes, sem o fogo, porém, não sobreviveria.

Tentou sair da caverna, cavando uma passagem, mas a neve estava alta e densa demais.

Pensou um pouco e lembrou-se do pedaço da “verdadeira cruz de Cristo”. Sem pestanejar, apanhou o toco de madeira e atirou-o na fogueira.


O fogo foi aumentando e o calor expulsou um pouco do frio. Retirou um pedaço da carcaça da lebre e colocou em uma pedra ao lado do fogo para assá-lo um pouco.

Comeu e deitou-se. Não havia nada a fazer.

Assim ficou por algum tempo: agüentando a fome ao máximo, comendo pouco, dormindo e sonhando agitado.

Despertou um dia confuso com a fraqueza. Mesmo assim conseguiu colocar o resto da carcaça perto do fogo. Era sua última refeição.

O fogo continuava forte.

Retirou o derradeiro pedaço de carne de lebre dos ossos e comeu devagar. Tomou água do odre e deixou-se cair numa entrega conformada. Não tinha mais chances. Pensou em rezar e desistiu. Rendeu-se à escuridão.

Acordou num susto, atordoado pelos sonhos.

Sentou-se e olhou os ossos da lebre perto do fogo: para sua surpresa, havia um pedaço de carne pendendo da carcaça. Aparentemente descuidara dele.

Retirou o naco de carne e mastigou com gosto.

Como não o vira ali antes? A animação foi embora rapidamente: só iria prolongar sua agonia, pois lá fora a nevasca não dava descanso.

Rolou para o lado e cobriu-se com a pele. Dormiu e acordou várias vezes.

Sentiu fome novamente e pensou em roer os ossos que restaram. Não foi necessário: ao se aproximar da carcaça, viu mais um pedaço de carne preso a um osso.

Agarrou os restos, puxou o pedaço de carne e inspecionou a peça, milímetro por milímetro, certificando-se de que mais nada sobrara.

Voltou a colocar a carcaça perto do fogo e comeu a carne, desconfiado. A inanição lhe pregava peças.

Cobriu-se novamente.

De vez em quando olhava a ossada para conferir se havia esquecido um ponto qualquer.

Caiu mais uma vez num sono confuso, e novamente, ao acordar com fome, descobriu um pedaço de carne preso aos ossos da lebre.

Esfregou os olhos com força. Não podia acreditar. Já inspecionara aqueles ossos, mais de uma vez. Isso não era possível... só se fosse... será que era... só podia ser ...

E só então começou a dar-se conta do que vinha ocorrendo sem que percebesse: o fogo não enfraquecera com o tempo. Havia muito que não colocava lenha nele. Também o odre do qual vinha bebendo parecia não esvaziar, e não se lembrava de derreter água para enchê-lo, pelo menos não ultimamente; e havia a carcaça da qual a carne parecia brotar.

Com o coração disparado, foi até ao fundo da caverna, onde sobre uma pedra colocara os vegetais que colhera e já consumira. E, como já suspeitava, lá estavam algumas raízes.

Era isso então: aquele pedaço de madeira era da verdadeira cruz de Cristo.

Sem saber o que fazer, pôs-se a rezar e a chorar ao mesmo tempo. Pediu perdão pelos atos condenáveis, pelas imprecações, pela falta de fé, por ter jogado ao fogo a relíquia e agradeceu a segunda chance que Deus punha a seu alcance.

E dessa forma os dias foram passando, e nunca faltou água, comida ou fogo ao andarilho: sempre que acordava, lá estavam seus mantimentos e seu calor. Nunca viu como acontecia e nem tentou: respeito e fé.

Um dia porém, ao acordar, percebeu que a caverna estava mais fria, e ao conferir a carcaça e a pedra, verificou que nada havia.

O medo foi tomando conta dele, mas recusou-se a acreditar que fora abandonado. Levantou-se com dificuldade e se dirigiu à entrada do abrigo.

A neve já não bloqueava a saída e a nevasca se fora. O sol brilhava tênue no céu e uma fina camada de neve ainda cobria tudo até onde a vista alcançava. Ficou maravilhado. Agora já podia sair e coletar lenha e comida. Ajoelhou-se e agradeceu.

Enquanto encontrava-se persignado, olhos fechados em fervor, sentiu um cheiro leve de fumaça e de carne assando.

Saiu cambaleando e avistou uma linha de fumaça a subir por detrás de algumas árvores ao longe.

Voltou à caverna para catar seus pertences e notou que a fogueira se extinguira. Ainda tentou recolher alguma coisa, mas só encontrou cinzas, que juntou e guardou consigo. Espalhou um pouco no rosto, nos cabelos e um bom bocado no cobertor, pegou sua trouxa e saiu do abrigo como se, ressuscitado, saísse de sua cova.

Assim, o andarilho encontrou auxílio com alguns caçadores, que conduziram-no à cidade mais próxima, na qual o ex-nobre, reconciliado com seu Deus, deu fim à sua peregrinação e onde passou a dedicar seus dias à caridade e à disseminação da Palavra; ajudando os necessitados, abençoando os enfermos e, até mesmo, curando alguns desenganados com as cinzas da cruz.

E desse modo foi vivendo, até ser confrontado pela Inquisição, preocupada com sua fama crescente e curiosa com as notícias de suas pregações pouco ortodoxas, com os relatos de milagres e com os boatos acerca de cinzas curativas que proviriam da verdadeira cruz de Cristo. Porque, se isso fosse verdade, alguém cometera um grande sacrilégio. Quem destruiria tão preciosa relíquia? Era um caso grave. Uma investigação fazia-se necessária etc. etc. etc...

Mas isso, infelizmente, é uma outra história...


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De onde vem a verdadeira cruz?


A veneração de relíquias religiosas (artefatos que tiveram contato com figuras consideradas santas) é uma forte tradição da Igreja Católica. Um hábito que nasceu na Idade Média e que se mantém popular ainda hoje. Pedaços da verdadeira cruz de Cristo, entre outros “itens”, continuam a atrair fiéis e curiosos a várias igrejas e santuários espalhados pelo mundo.

A real “origem” dos pedaços verdadeiros da cruz é bastante controversa: os próprios cronistas cristãos discordam uns dos outros.


Jacopo de Varazze – ou Jacobus de Varagine, ou Voragine, ou Giacomo da Varazze ou sei lá (1230-1298) – registrou em sua Legenda Áurea (edição brasileira pela Companhia das Letras, 2003) as possíveis origens e descoberta da cruz.



Segundo o arcebispo de Gênova, que se baseou em textos mais antigos, a árvore de onde veio a madeira da cruz nasceu de um pequeno ramo que o arcanjo Miguel deu a Seth para que plantasse no monte Líbano, ou no túmulo de seu pai, Adão, dependendo da fonte.

A tal árvore (que pode ter sido uma muda da árvore que causou a queda do próprio Adão) cresceu e durou até o reinado de Salomão, que mandou cortá-la para que fosse usada na construção de seu palácio.

Marotamente, porém, ela nunca se deixou usar, pois a cada hora parecia ter um comprimento diferente, e nunca havia lugar conveniente para ela.

Os artesãos – marceneiros, carpinteiros etc. – logo desistiram dela e colocaram-na como ponte sobre um pequeno lago (não perguntem como ela resolveu, de repente, “parar quieta”), onde ficou até a rainha de Sabá passar por ali para bater um papo com Salomão.

Parece que a tal rainha teve uma visão: naquela madeira seria suspenso o Messias, o Salvador. Por isso, recusou-se a pisá-la, e na verdade venerou-a. Já em outra fonte temos que a rainha de Sabá viu a madeira e deu um toque para o Salomão que naquela madeira pregariam o sujeito que causaria a destruição do reino dos judeus.

Só para garantir – desencargo de consciência – Salomão mandou que enterrassem o pedaço de madeira.

Infelizmente, para azar de Salomão, o lugar escolhido foi transformado, muito tempo depois, num tipo de “piscina sagrada” onde vítimas de sacrifícios eram banhadas e que tinha propriedades curativas (alguns diziam que era devido a um anjo que baixava na área de tempos em tempos, outros alegavam que era por causa da madeira enterrada metros abaixo).

Quando chegou a época da Paixão, o tronco de madeira emergiu e foi utilizado para a fabricação da cruz.

Uma outra fonte alega que a cruz foi confeccionada com quatro tipos de madeira: palmeira, cipreste, oliveira e cedro. Isso porque tinha quatro partes: vertical, horizontal, superior e base. E daí vem uma enrolação que nem vale a pena comentar. É melhor voltar à história principal.

Depois da Paixão, a madeira ficou enterrada no Gólgota até ser descoberta pela mãe do imperador Constantino, Helena.

A partir daqui, o negócio fica meio confuso, pois alguns cronistas confundem os imperadores chamados Constantino e suas batalhas e eventuais conversões e batismos na mão de bispos diversos; mas parece que “um Constantino” teve uma visão da cruz antes de uma batalha e conseguiu vencer os bárbaros que ameaçavam seus domínios.

Ao buscar o significado da cruz em sua visão, deu com os cristãos e bandeou-se para a, então, “nova fé”.

Sendo agora um imperador converso, esse Constantino envia sua mãe a Jerusalém para encontrar a verdadeira cruz.

Chegando lá, mamãe reúne os sábios judeus e indaga sobre o local da crucificação. Eles dizem que não sabem. Ela ameaça queimá-los vivos. Eles se lembram, então, que o único que pode dizer onde está a cruz é um sujeito chamado, ironicamente, Judas, e apontam todos em sua direção.

Mamãe Helena dispensa os sábios, menos, é claro, o pobre Judas.

Já imagino o diálogo:

– Cadê a cruz?


– Que cruz?


– Como que cruz? A cruz onde Cristo foi crucificado!


– Cristo? Não conheço.


– Como não conhece Jesus Cristo?


– Madame, a senhora sabe como é... tem um monte de Jesus por aqui, é um nome comum, sei lá qual a senhora tá procurando...


– Jesus Cristo, o Messias, o Salvador, que deixou um monte de discípulos espalhados por aí! Crucificado por Pilatos! Não é possível que não saiba!


– Ih... mas isso tem um tempão... é da época do meu trisavô, madame.


– Então, sabe onde ele foi crucificado? Onde está a cruz? Pare de me enrolar.


– Sei não.


– Como é que é? Assim não dá...

Foi aí que a futura Santa Helena perdeu a paciência: mandou jogar o pobre coitado num poço. E eu cito: “Pelo crucificado, eu o farei morrer de fome se não me disser a verdade”.

Judas aguentou seis dias.

No sétimo dia pediu arrego e levou a impaciente senhora ao lugar provável, fez uma prece e, para sua surpresa, a terra começou a tremer e a levantar fumaça.

Aparentemente, alguém mandara construir um templo dedicado a Vênus no local, que obviamente foi posto abaixo sob o olhar enérgico de mamãe Helena.

Empolgado, Judas cavou e encontrou três cruzes. Como saber qual era a verdadeira? Simples: espera-se a passagem de um defunto, coloca-se as cruzes (uma de cada vez, obviamente) em cima do mesmo e, se ele ressuscitar embaixo de alguma, aquela é a verdadeira (isso se não for esmagado no processo – ah... detalhes, detalhes...).

Não contente em encontrar a verdadeira cruz de Cristo, dona Helena ainda mandou que encontrassem os cravos utilizados na crucificação, mas isso fica para outra hora.



O negócio é que a cruz foi “achada” e vários “pedaços” acabaram se espalhando pelo mundo (de que maneira ignoro) e hoje lascas são veneradas em lugares como: Israel – na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém; França – na catedral de Notre Dame, em Paris; Espanha – no monastério de Santo Torídio de Liébana; e Áustria – no Schatzkammer de Viena (algo como “câmara do tesouro de Viena”).



Além de pedaços de madeira de procedência duvidosa, cristãos adoram venerar outros artefatos que, supostamente, tiveram contato com figuras históricas/santificadas (a toalha de mesa da Santa Ceia, as ânforas de vinho das Bodas de Canaã, espinhos da coroa, cravos da crucificação, a lança que feriu Jesus crucificado, sangue de Cristo ou de algum santo, cadáveres embalsamados, ossos – costelas, falanges, crânios – etc.)



Pois é, cada um com sua maluquice...





p.s. Quem quiser ler mais, é só acessar http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_milagre_da_multiplicacao_de_reliquias_imprimir.html - uma das fontes desse texto.






Oam patapai



terça-feira, 24 de março de 2009

Ficção ligeira

“Can we have everything louder than everything else?”




Greetings,


Há muitos e muitos anos, numa galáxia nada distante, durante uma conversa, Ernest Hemingway afirmou que conseguiria escrever uma história com apenas seis palavras (algumas fontes dizem que foi uma aposta), que foi essa aqui: “For sale: baby shoes, never worn.”

Não tenho muita certeza se isso é lenda ou não, mas faz parte do imaginário literário mundial. E justamente por isso, o periódico americano Wired Magazine, em novembro de 2006, resolveu pedir a diversos autores de ficção científica, fantasia e horror - fossem escritores, roteiristas ou ilustradores – que enviassem suas “micro-histórias” (very short stories, short short stories ou flash fiction) para que fossem publicadas.

Algumas são ótimas, e estão disponíveis em: http://www.wired.com/wired/archive/14.11/sixwords.html

A seguir, juntei as minhas preferidas (a tradução fica a cargo dos leitores):


"Computer, did we bring batteries? Computer?" - Eileen Gunn

"Automobile warranty expires. So does engine." - Stan Lee

"Longed for him. Got him. Shit." - Margaret Atwood

"Epitaph: Foolish humans, never escaped Earth." - Vernor Vinge

"I’m your future, child. Don’t cry." - Stephen Baxter

"TIME MACHINE REACHES FUTURE!!! … nobody there …" - Harry Harrison

"In the beginning was the word." - Gregory Maguire

"Leia: "Baby's yours." Luke: "Bad news…" - Steven Meretzky

"Dorothy: "Fuck it, I'll stay here." - Steven Meretzky

E para não ficar de fora, também bolei a minha, mas em português.

Lá vai: “Chegou como princesa. Fugiu como puta...”


Ernest Hemingway (1899 – 1961), escritor americano conhecido por seu texto econômico, seco e estilizado. Alguns de seus contos são verdadeiras obras de ourivesaria, pequenas joias narrativas de concisão que mais insinuam do que revelam (“Gato na chuva”, “Colinas como elefantes brancos”, “Os assassinos”). Seu texto mais famoso, porém, é “O Velho e o Mar”, uma pequena novela que lhe valeu o Prêmio Pulitzer em 1953. Fazia parte da tradicional confraria dos escritores bebuns e tinha amor por pescarias, safáris e touradas. Estourou seus miolos em 1961, com uma espingarda de cano duplo, durante uma grave crise de depressão.



That's all folks...



Oam patapai

sexta-feira, 13 de março de 2009

"...montes de vírgulas inúteis..."

"Read some Kerouac and it put me on the tracks to burn a little brighter now..."





Entrevistador: E sobre Jazz e Bop como influências, além de... Saroyan, Hemingway e Wolfe?

Jack Kerouac: Sim, Jazz e Bop, do mesmo modo que, digamos, um tenor puxando o ar e soprando uma frase em seu saxofone até que ele fica sem fôlego, e quando isso acontece, sua sentença, sua declaração foi feita... É dessa maneira, portanto, que eu separo minhas sentenças, como intervalos de respiração mental...




Jack Kerouac (1922 – 1969) escritor norte-americano tido como o pioneiro da Geração Beat. Descrevia seu estilo como “prosa espontânea”, pouco ligando para técnicas literárias ou grandes virtuoses linguísticas: os textos fluíam como rios de idéias, como fontes jorrando palavras e pensamentos, muito improviso e nenhuma edição. Daí a comparação com o Jazz. O irônico é que sua obra mais famosa, On The Road (Pé na Estrada na tradução brazuca), foi bastante editada antes da publicação; mas por culpa do editor, é claro. Ídolo de uma geração de doidões e bichos-grilos, Kerouac na verdade era de direita, bastante reacionário em alguns momentos, e odiava todos aqueles hippies cabeludos que, às vezes, vinham bater à sua porta para dizer o quanto a literatura de Jack mudara suas vidas. Morreu de hemorragia causada por cirrose, mais um bebum das letras. Alguns de seus livros podem ser achados em português: Os Vagabundos Sagrados, Os Subterrâneos, Viajante Solitário, o próprio On The Road, e este em duas versões: a original e uma nova versão chamada On The Road – O Manuscrito Original, uma reprodução fiel do “rolo” original de Kerouac, sem edições e com os nomes reais dos personagens.




p.s. O trecho de entrevista foi retirado da entrevista concedida por Kerouac a Ted Berrigan em 1968 e publicada na revista Paris Review. Pode ser lida em inglês no site da revista (http://www.parisreview.com/).
Oam patapai

quarta-feira, 11 de março de 2009

Abordagem de leitura...

"My mother is a fish."





Entrevistador: Algumas pessoas dizem que não conseguem entender seus textos, mesmo depois de terem lido duas ou três vezes. Que abordagem você sugeriria para elas?

William Faulkner: Leiam quatro vezes.


William Faulkner (1897 - 1962), escritor americano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1949, conhecido por seu estilo experimental, inovador e, para alguns, tortuoso. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão: "Luz em Agosto", "O Som e a Fúria" e "Enquanto Agonizo". Bebum consumado na melhor tradição do escritores alcoólatras, tudo que precisava para escrever era "papel, tabaco, comida e um pouco de whiskey" (Entrevistador: Você quer dizer Bourbon? - Faulkner: Não necessariamente. Entre Scotch e nada, eu fico com o Scotch.)

p.s. O trecho de entrevista foi retirado da entrevista concedida por Faulkner a Jean Stein vanden Heuvel em 1956 e publicada na revista Paris Review. Pode ser lida em inglês no site da revista (www.parisreview.com).

Oam patapai

segunda-feira, 2 de março de 2009

Churrasquinho...

"I am the crazy man who lives inside your head..."



Mais um maravilhoso título de matéria, com os cumprimentos do jornaleco Meia-Hora, do Rio de Janeiro.





See ya,



Oam Patapai

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Amar ao próximo...

"Honey, that ain't no pistol..."




Saudações, Terráqueos...



Fuçando na "rede" encontrei estes dois excelentes exemplos de tolerância para com os nossos "irmãos infratores".

Vou arrumar um igual ao segundo para colocar lá em casa...



Atenção: "Beaten, stabbed and stomped." Seria essa a ordem correta?


Mas o pilantra sempre conta com a má pontaria das pessoas.

See ya...
Oam patapai

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Gênesis publicitário

"We gonna have a rock 'n' roll party tonight!!!"



O texto abaixo, infelizmente, só fará sentido para os que trabalham, ou trabalharam, em agência de publicidade: sobrevivendo numa dieta à base de pizza através das madrugadas. E, por isso mesmo, é a eles dedicado...


...........
...........

Diziam que no início havia a Palavra.

Mas também havia o Layout.

E ele era grandioso, equilibrado e harmonioso. Ressaltava a marca, transmitia a ideia e não interferia no texto.

E Nosso Senhor, o Diretor de Criação, viu que o Layout era bom e se orgulhou do trabalho de seu Diretor de Arte e de seu Redator; e quis então que o Cliente o visse e o aprovasse. Por isso chamou seu mais belo Atendimento e disse: “Eis o Layout, toma-o em tuas mãos, pois que é bom e está de acordo com o briefing. Leva para que o Cliente o veja e o aprove. Pois essa é minha vontade”.

Então o Atendimento recebeu o Layout e o admirou. E disse: “Mas Senhor, essas cores não parecem ser as mencionadas pelo Cliente...”

O Pai da Criação se aproximou do Atendimento e disse: “Vais contra a palavra de teu Deus?”

E muito suavemente o Atendimento respondeu: “Altíssimo, o Cliente especificou que queria tons de verde.”

“E tu por acaso enxergas vermelho?” – trovejou o Senhor.

“Parece azul aos meus olhos, Santíssimo.” – afirmou o Atendimento, recuando discretamente.

“Assim te parece, pois tens a vista toldada pela leiguice. As porcentagens de CMYK estão corretas, assim como os Pantones escolhidos, eu assim vos digo.”

“Tens certeza, Magnífico? Não estaria então descalibrada vossa celestial impressora?”

“Não.” – fez ressoar o Senhor – “Calibrada anteontem ela foi. As cores estão perfeitas e correspondem às cores na tela, e eu assim vos afirmo.”

E o Atendimento acatou o que disse o Senhor e partiu para levar o Layout ao Cliente. E partindo apressado ainda disse num último fôlego: “O Cliente certamente não gostará desses títulos.”

E a ira do Senhor sobreveio rápida e implacável, mas o Atendimento já saíra apressado, com os vouchers de táxi numa mão e o Layout na outra.

E, como era a hora do crepúsculo, houve júbilo no Estúdio, pois o Atendimento não voltaria naquele mesmo dia, e todos poderiam retornar a seus lares em horário decente.

E assim terminou o primeiro dia.


No segundo dia, animado com a criação, confiando nos e-mails do Atendimento e ignorando os apelos da Mídia e da Produção Gráfica a respeito do orçamento, o Diretor de Criação pôs-se a gerar diferentes formatos e aplicações para o Layout, e fez brotar cartazes, anúncios, rodapés e filipetas. E abusou das mídias, das facas especiais, das gramaturas dos papéis, das quantidades de dobras e das aplicações de verniz; fazendo então com que o Diretor de Arte e o Redator enlouquecessem de tanto refazer, ajustar e reaplicar.

E enquanto o Senhor elaborava em furor sobrenatural, o receio do Estúdio ia aumentando hora a hora, enquanto o Atendimento se desculpava: “Já liguei, eles estão vendo, é que tem que passar por todas as áreas, e eu não posso pressionar o Cliente, né, gente?... calma”.

E somente ao final do dia o Atendimento apanha os vouchers e vai para o Cliente.

Mas no Estúdio não houve júbilo nem aleluias, e sim confusão e fúria, já que avisados foram pelo Atendimento: “Alguém vai ter que ficar esperando pelas alterações... esse trabalho tem que sair hoje...”. E de nada adiantou explicar que as alterações eram para o Diretor de Arte e o Redator, e que havia prazo com a gráfica, e que a Mídia não havia aprovado os custos com o Cliente, e que o Estúdio era dispensável, pois o Atendimento, como de hábito, se fez surdo ao bom senso e ao que é racional; e tudo em nome do Cliente.

E assim terminou o segundo dia, com algumas infelizes almas esperando à toa, já que o trabalho, obviamente, ficou para a manhã seguinte.


No terceiro dia o Atendimento apresentou as mudanças ao Diretor de Criação e foi alvo da ira d’Ele: “Tu dissestes que o Cliente não queria produzir fotos.”

“Nada disso, ó Eterno, eu disse que ele “preferia” não produzir...”

“Não há nada disso no briefing!”

“Sim, meu Senhor, infinita é vossa percepção, não há, mas passei essa informação verbalmente, durante a reunião da semana passada.”

“Reunião?!?!?!?” – bradou o Pai da Criação, fazendo estremecer o Universo – “Aquela bagunça? Oito pessoas a beber do café com adoçante e a falar ao mesmo tempo sobre tudo? Onde tens a cabeça? Um e-mail tu deverias ter enviado, já que és pródigo nisso.”

“Perdão, ó Amantíssimo.”

“E a marca? Revitalizada e tornada mais leve, mais legível e mais moderna ela foi! Por que não haveriam de apreciá-la?”

“Apenas não gostaram, ó Senhor de Todas as Coisas. Talvez tenham-na achado moderna demais...”

“Mas vender a ideia tu não tentastes? A convencer o Cliente a aceitar a mudança não te esforçastes? Não expusestes tu a ousadia da renovação?”

“Claro que sim, Pai Celestial. Tentei e argumentei ao máximo.” – mentiu o Atendimento.

E o Senhor respirou fundo e se acalmou, já prestes a enviar o Anjo da Morte atrás do Cliente. E disse: “Tudo bem então, pra quando?”

“É urgente, Altíssimo, já prometi ao Cliente, temos que entrar em produção hoje.”

“O quê?” – rugiu o Senhor.

“Estamos atrasados, ó Poderoso.”

E então Diretor de Criação pôs o Diretor de Arte a retrabalhar o Layout, e fez com que o Estúdio ficasse na hora do almoço, e todos comeram das pizzas frias e tomaram dos refrigerantes quentes, e houve quem reclamasse que não haviam pedido pizzas vegetarianas.

Finalmente, depois de muita saliva gasta em imprecações, novas peças foram impressas e novas pranchas foram montadas, e o mais belo dos Atendimentos chegou do shopping só para pegar as peças, os vouchers e voar para o Cliente, deixando todos apreensivos: pois o Estúdio não ia dormir mesmo; a Produção Gráfica ainda não tinha todos os orçamentos das gráficas; e a Mídia precisava autorizar inúmeras inserções.

E assim terminou o terceiro dia, com todos maldizendo e amaldiçoando o Atendimento antes de irem embora, pois que este ligou depois das dez da noite para avisar que o Cliente concordara em dar mais prazo, e que tudo ia ficar para o dia seguinte. E particularmente virulentas e impiedosas foram a Mídia e a Produção Gráfica.



E no quarto dia quis o Diretor de Criação que todos chegassem na hora e que estivessem preparados para as alterações e, quem sabe, para a finalização das peças.

E eis que surge apressado o Atendimento, que fora direto para o Cliente, com mais alterações.

“Eu não disse que o Cliente ia reprovar os títulos?”

O Redator, sentindo-se ofendido e magoado, apela ao Senhor.

“Poderosíssimo, como poderiam ontem estar os títulos bons e hoje não?”

“Boa pergunta, filho meu. Tens resposta, meu mais belo Atendimento?” – diz o Senhor, ainda calmo.

“Altíssimo, como sabeis, nossos trabalhos passam por várias áreas do Cliente. Alguém não havia visto os títulos ainda, apenas isso.”

O Redator, porém, argumenta: “Mas mandei uma lista separada com inúmeras opções de títulos, eram quase cinco páginas. Reprovou todas, o Cliente? Ele leu pelo menos? Mostrastes a lista?”

“Claro, meu irmão Redator.” – mentiu o Atendimento – “O Cliente é muito severo quanto às palavras. Jamais faria com que labutasses à toa. E ele também pediu alterações nos filmes e nos spots”.

E pôs-se o resignado Redator a trabalhar em novos títulos, spots e filmes, com o coração pesado, enquanto o Atendimento retornava saltitante a sua mesa, sob os olhos desconfiados e incandescentes do Senhor.

“Atendimento, não trouxestes alterações de Layout?” – indagou o Diretor de Criação.

“Senhor do Universo, as alterações de Layout, se houverem, virão mais tarde. Ainda avaliam as mudanças nas peças.”

E o Senhor retornou a sua sala e esperou, enquanto observava o Atendimento falar longamente ao telefone e passar tarefas e mais tarefas aos estagiários e assistentes.

O dia passava, e a cada minuto o Estúdio e a Produção Gráfica tornavam-se mais desesperançados e desconsolados.

E então chega o motoboy com os Layouts a serem alterados, e o Senhor os toma nas mãos e Sua voz retumba encolerizada: “Que malditos sejam eles e suas proles!!!”

O mais belo dos Atendimentos desliza cautelosamente em direção ao Senhor e diz: “Santíssimo, não fiqueis assim, fiz tudo o que pude, mas confuso é o Cliente, e também pouco atento ao nosso sacrifício, mas sei que tudo podeis e tudo fazeis...”

“Tudo faço e tudo posso porque não és tu que ficas em casa acordado e esperando layouts para aprovar pela internet...”

“São poucas as alterações, Divino Pai.”

“Poucas para ti e teu Cliente. Veja as modificações de formato, de cores e de fontes. Veja os pedidos de retoques e de novas opções de fotos. És cego ou por acaso debochas de teu Deus?

“Jamais debocharia de Ti, Poderosíssimo, apenas inferi que as alterações fossem fáceis e prometi para hoje mesmo. O Cliente ficará esperando até a hora que for...”

E houve choro e ranger de dentes enquanto o Diretor de Arte ajustava furiosamente os Layouts e o Estúdio tentava auxiliar nas alterações de formato, e a Produção Gráfica lutava para conseguir os orçamentos para os novos formatos e quantidades. E tudo sob o olhar intenso do Diretor de Criação.

O crepúsculo foi sendo deixado para trás e o mais belo Atendimento saiu no horário porque tinha que ir à academia, e todos se penitenciaram e se resignaram às pizzas frias e aos refrigerantes quentes.

Mas ao badalar das 23 horas, liga o Atendimento e diz que o Cliente já fora para casa, pois cansado estava, e que tudo ficaria para o dia seguinte, à primeira hora.

E todos clamaram contra o Atendimento e todas as suas gerações, e disseram: “Malditos sejam os que te abençoarem e benditos sejam os que te amaldiçoarem.”

E o Pai da Criação nada disse, estranhamente. Apenas apagou a luz de sua sala e dispensou o Estúdio com um gesto grandioso.

E assim terminou o quarto dia.


Na manhã do quinto dia o Atendimento encontrou tudo conforme pedira o Cliente, e ainda assistiu aos últimos Layouts sendo montados por aborrecidos e inconformados madrugadores do Estúdio. Depois, foi serelepe para o Cliente, sem esquecer os vouchers.

E todos tombaram apreensivos, e não aliviados, com a saída do mais belo Atendimento.

Correu então a manhã e incomunicável ficou o Atendimento, cujo celular parecia desligado ou fora da área de serviço.

Aflita estava a Produção Gráfica com prazos e preços, o Estúdio temia pelo almoço e a Mídia rezava para que não tivessem que, a essa altura, uma vez mais alterar planos tantas vezes refeitos.

E eis que chegam notícias do Atendimento: “Só mais alguns ajustes, para o almoço ninguém sai.”

Muitas lamúrias correram pelo ambiente.

Então eis que aparece o Atendimento, pouco antes de o Redator entrar afobado e com olhos vermelhos: “Agora é sério, gente. Tá saindo hoje, no mais tardar amanhã cedo.”

E todos se põem a trabalhar.

Mas quis o Cliente pedir alterações de Layout que só o Diretor de Criação poderia aprovar, mas o Altíssimo não havia chegado e não atendia aos telefonemas.

Vozes se levantaram: “Ó meu Senhor, Criador de tantos universos, não nos abandone à sorte e à mercê do Atendimento! Livra-nos deste destino, ó Pai Amantíssimo!”

Mas aparentemente o Diretor de Criação estava adormecido como um rochedo, e ignorou as súplicas.

“Pode deixar.” – disse o mais belo dos Atendimentos – “Eu sei o que o Cliente quer. Posso muito bem coordenar as alterações com o Diretor de Arte ou alguém do Estúdio, pois eu represento o Cliente dentro da agência, não é mesmo? Quem se habilita?”

E o medo percorreu os corações da agência, e ninguém emitiu um som, e todos procuraram se esquivar.

“Vocês. Vamos fazer as alterações juntos.” Alguns foram escolhidos e, por isso, amaldiçoados. Almas torturadas.

Eis que sob a influência do Atendimento, que quis se igualar ao Diretor de Criação, todos trabalharam naquela tarde.

Layouts foram modificados, roteiros foram reescritos e tudo foi novamente colado em pranchas, para mais uma vez ser enviado ao Cliente.

E, ao final do dia, o mais belo Atendimento partiu apressado e empolgado, com os vouchers, para sua missão dizendo: “Ligo daqui a pouco, esperem aí, hein? Ninguém sai.”

O silêncio sepulcral que dominou o ambiente refletiu o medo e o desespero de todos. Era sexta-feira, afinal, e ninguém queria trabalhar no sábado. E nada do Senhor, o Diretor de Criação.

Mais uma vez a escuridão chegou, e dessa vez ninguém aguentava mais pizza, e por isso comida chinesa foi a escolha. Mas quentes continuaram os refrigerantes, pois negligentes foram os que se esqueceram de pedir gelo.

Então, no meio da noite, o Atendimento faz contato de um ambiente ruidoso – sons de talheres, copos e garrafas – dizendo que o Cliente deixara para aprovar no dia seguinte, porque naquele dia era aniversário da sogra e ele não tinha como faltar e, além disso, precisava da aprovação de um gerente qualquer, maldito seja, que saíra mais cedo e desaparecido ainda estava.

Os gritos que se seguiram fariam corar o mais iníquo dos homens e a mais pérfida das mulheres. E houve bateção de portas e de punhos, e chutadas foram as cadeiras e as cestas de lixo, porque era sexta-feira e ninguém ia poder beber das fermentações alcoólicas consagradas ao dia, e porque trabalhar no sábado é uma merda.

E assim terminou o quinto dia.


Na manhã do sexto dia o Diretor de Criação surpreendeu a todos. Chegou antes e esperou o mais belo Atendimento com o coração transbordando da mais divina ira.

O ar estava pesado e raios e línguas de fogo corriam pelo ambiente como serpentes inquietas.

“Como ousas interferir em meus Layouts???!!!” – fulminou o Senhor assim que o Atendimento surgiu sorridente e suave.

“Meu Divino Pai, não pudemos encontrar-Vos ontem de maneira alguma! Tudo tentamos e muito fizemos nós, Vossos filhos; mas havia urgência!”

“Urgência??? Urgência????? Há dias tu e teu Cliente falam em urgência, mas nada de urgente acontece. Estes filhos de Caim não conseguem aprovar o mais humilde dos spots! Tratam os layouts como o próprio Onã não os trataria, locupletando minha paciência e estorvando a boa vontade de todo mundo! Um dilúvio enviarei para esses bastardos da Babilônia aprenderem a ter consideração pelas pessoas e pelo trabalho delas.”

“Acalmai-Vos, ó Altíssimo. Se perdermos essa conta, pode ser que tenhamos de diminuir o pessoal.” – chantageou o Atendimento.

“Não mande teu Deus ter calma, ó maldito de retórica viperina.”

“Perdão, Divino Criador do Universo, mas acabo de vir do Cliente e está tudo praticamente aprovado, até o final do dia irá tudo para a produção.”

E a Produção Gráfica e o Estúdio se entreolham tomados por lágrimas de ódio.

“Como queres que acredite em tuas palavras? Toda essa semana apenas mentistes para teu Pai e atormentastes teus irmãos de agência.”

“Agora é para valer, Santíssimo. Já está tudo engatilhado e as alterações são apenas ajustes insignificantes.” – mentiu o Atendimento.

“Então vamos lá.” – suspirou o Pai da Criação.

E o caos e a correria surgiram no lugar: o Diretor de Arte e o Redator se atracavam com textos grandes demais para os layouts e ajustes de cores e fontes; o Estúdio lutou horas com os formatos tortuosos e com fotos que, quando não estavam em baixa resolução, vinham erradas do fotógrafo; a Mídia pedia a cabeça do Atendimento a cada mudança de veiculação, a cada cancelamento de mídia, a cada prazo perdido e prorrogado; a Produção Gráfica monopolizou os telefones e contatou todas as gráficas possíveis para segurar pessoal para rodar o material no fim de semana; e a Revisão de textos leu em horas o que não leu em semanas.

“Mídia, o Cliente quer saber se dá para remanejar o filme do telejornal de hoje para o programa de variedades de amanhã.”

“É claro que não!!!!!!!!!!! A emissora não remaneja nada em cima da hora, você sabe muito bem disso!” – desesperou-se a Mídia.

“O Cliente falou que não vai pagar.” – disse, de maneira afetada, o mais belo Atendimento.

“É claro que vai!!!” – rosnou a Mídia.

“Acho difícil, hein? Esse Cliente blá, blá, blá, blá, blá...”

E a Mídia ignorou o Atendimento e foi tratar de assuntos mais importantes, como os formatos de mídia exterior que foram passados errados pelos próprios fornecedores ou as reservas que ainda não haviam sido confirmadas.

E à medida que iam sendo abraçados pela noite, arquivos eram finalmente enviados por e-mail, FTP, CD e DVD. E discussões surgiam, e nomes eram execrados, e atitudes eram criticadas, mas no meio da madrugada todos foram embora, irritados, esgotados e desesperançados, pois no dia seguinte viriam as provas de gráfica e os filmless dos anúncios.
E assim terminou o sexto dia.



No sétimo dia, que Nosso Senhor pensara em guardar para descansar ou ir à praia ou dormir até o meio-dia, a agência estava de novo cheia.


E perguntou o Diretor de Criação: “Onde estão as provas de gráfica?”


Então Ele as tomou e as apreciou. E até que estavam razoáveis. Algumas carregadas no magenta, outras com pouco azul. Nada que fizesse desabar os céus.


Os textos também estavam basicamente corretos, com uma ou outra vírgula fora do lugar, o que seria sanado na gráfica e sem que o Cliente notasse.


Disse, pois, o Senhor: “Que leve tu, meu mais belo Atendimento, estas provas ao Cliente e que as faça aprovadas sem questionamento. E não digas ao Cliente de nossas observações e nada fale sobre as alterações na gráfica e sua possibilidade. Eu assim vos digo.”


“Sim, Potentíssimo, cumprirei Vossas ordens à risca.” – mentiu o Atendimento, que saiu apressado, mas sem esquecer os vouchers.


E todos se sentiram em júbilo ao serem dispensados pelo Diretor de Criação e a Ele ergueram preces e agradecimentos, já que a tarde do domingo, pelo menos, poderia ser salva.


Assim deveria ter acabado o sétimo dia, porém...


Enquanto em casa, acomodado em Seu trono celestial, bebendo da terceira cerveja do dia e esperando pela semifinal da copa das Doze Tribos, o Diretor de Criação recebe um telefonema do Atendimento: “Amantíssimo, tudo quase OK. O Cliente só pediu para mudar uns títulos e trocar a marca, que eles acabaram concordando que deve ser mesmo modernizada. Nas cores, eu disse que não daria para mexer para hoje, mas quem sabe amanhã, né? Já liguei para o Estúdio, para a Produção Gráfica e para a Mídia: muito pouco educados eles foram comigo. Acho melhor que o Senhor, meu Pai, reforce os telefonemas. Prometi para hoje mesmo, acho que é pouca coisa, só trocar umas besteiras. Se não der, pode ficar alguma coisa para amanhã. Será que dá para remanejar o filme do domingo? Alguns anúncios vão sair com a marca antiga, mas a gente muda o que der para mudar. Não consegui achar a Revisão. O Senhor acha que...”


Foi o bastante.


Pois mesmo o saco do Criador do Universo se enche e transborda.


E batendo com o punho no trono, com isso causando muitos relâmpagos, o Senhor despejou a fúria divina sobre o mais belo dos Atendimentos: “Que tu, ó alma de serpente, meu mais belo Atendimento, vá habitar o mais profundo dos infernos com todos de tua linhagem, onde ficarás mais perto das botas que lambes; e que lá reines como quiseres, no meio da mentira e da adulação, e possas idolatrar teu falso deus: teu Cliente. E que ninguém confie em tuas palavras, e que todos se entristeçam em tua presença e que fujam sempre que puderem, e que sejas alvo de piadas nas agências onde trabalhares, e que teus ouvidos queimem com as reclamações.”


E então o Senhor do Universo bateu o telefone, arrancou o fio da parede, desligou o celular e ligou pronta e cerimoniosamente o “foda-se” celestial.


“Que se dane o Cliente.”


E assim terminou o sétimo dia.





Oam patapai

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Esperando... esperando...

I said "gooooooooood mooooooorning..."



Para o velho Coronel, a vida se resume a cuidar do galo de briga, da esposa tísica e aguardar pelo barco que traz a correspondência, na esperança de receber uma carta; mas não qualquer carta, e sim A Carta.

Enfrentando o cansaço, o calor, a falta de dinheiro e o olhar do povoado, o Coronel não desiste de sua espera.

A história de Ninguém Escreve ao Coronel, de Gabriel García Márquez - assim como as histórias de todos os livros realmente bons -, pode ser interpretada de várias maneiras: alguns encontram um conto sobre a velhice, ou sobre a pobreza, ou sobre a solidão e o abandono etc. O que, porém, mais me salta aos olhos é a narrativa sobre a esperança, sobre a teimosia de não entregar, não se render.


O velho Coronel lutou em revoluções e perdeu. Ele pode ter entregado sua espada e seu uniforme, mas não rendeu sua integridade e sua esperança. Provavelmente desconfia que sua causa é perdida e inútil, mas desistir da visita ao correio é como desistir de viver, é como capitular frente ao que acredita e à sua própria idéia de mundo.

Ele é um cabeça-dura, um teimoso, que, como todos nessa condição, esconde, em sua persistência, o medo de estar errado, a incapacidade de admitir o erro; mas como isso é tudo que resta para seu ego, para sua auto-estima, não é vergonha nenhuma lutar uma última guerra, travar um derradeiro combate antes de perder a batalha final.

Na cabeça do velho Coronel, ainda existe esperança, mesmo no abandono e na solidão.

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Observações:
1) Essa pequena obra-prima de García Márquez possui um dos melhores finais que eu já li. Vale a pena conferir.

2) Existe um filme mexicano, de 1999, baseado em Ninguém Escreve ao Coronel. Não assisti.



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Gabriel García Márquez (Aracataca, Colômbia, 6 de março de 1927), escritor laureado com o Nobel de Literatura em 1982, é amplamente conhecido como o autor de Cem Anos de Solidão ou de O Amor nos Tempos do Cólera, seus trabalhos mais famosos. São trabalhos de fôlego e excelentes peças literárias, indicadas a todos que gostam de uma boa história, e não apenas aos críticos ou “intelectuais” da vez.

Sua obra porém não se resume apenas a estes dois trabalhos: é também romancista, contista, jornalista e roteirista.

Entre seus títulos publicados no Brasil pela Editora Record encontram-se: Crônica de uma Morte Anunciada, A Má Hora (O veneno da madrugada), Do Amor e outros Demônios, O General em seu Labirinto, Memória de Minhas Putas Tristes, A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada (contos), Os Funerais da Mamãe Grande (contos), A Revoada (O enterro do diabo), O Outono do Patriarca, Olhos de Cão Azul (contos) entre outros. Todos mais do que indicados.

Grande parte de seu trabalho pode ser encontrado, como dizia o reclame, nas melhores livrarias.

See ya...








Oam patapai








terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Lavoura Arcaica: ou a volta do filho pródigo

Greetings,




O personagem principal e narrador do romance Lavoura Arcaica (Companhia das Letras), de Raduan Nassar – André –, é o filho que abandona a casa paterna para retornar trazendo consigo graves conseqüências.

André é então mais um “descendente” daquelas notórias figuras bíblicas, de parábolas ou não, que se rebelaram contra o pai (a Lei) e que tiveram, a seu tempo e modo, o castigo ou o perdão merecidos.

De certa forma, o primeiro homem a habitar o mundo, Adão, também se rebelou contra seu Criador, comendo da “árvore do conhecimento” e enfrentando a expulsão do Paraíso e a conseqüente luta pelo próprio sustento.

No romance, André não foi expulso de casa, mas saiu para ter acesso ao “fruto proibido”, ao conhecimento que não passava pelo crivo do pai, aos ensinamentos do mundo.


A “punição” de André é auto-imposta, o que talvez ocorra com Adão, que desobedece a Deus sabendo da gravidade de seu ato (apesar da culpa recair sobre Eva e a serpente, as duas figuras femininas da narrativa bíblica... mas isso fica para depois), a ponto de sentir-se envergonhado quando é argüido pelo Senhor, ou seja, tinha conhecimento de que seria punido e estava disposto a aceitar tal castigo (uma “fuga passiva”?).

Outra figura que faz conexão com o narrador de Lavoura Arcaica é o próprio Lúcifer, O Guardião da Luz, também denominado Satã, Diabo, Belzebu, etc. Segundo algumas versões, o anjo mais belo do firmamento, o preferido do Senhor, contra Ele se rebela, sendo derrotado em batalha e então banido para o Reino do Inferno. Na versão judaica do exílio de Satã, este é expulso do paraíso por recusar-se a reverenciar o homem, o qual achava indigno, pois era feito de pó enquanto ele, Lúcifer, era feito da própria essência de Deus. Uma verdadeira demonstração de rebeldia e, por que não, liberdade de opinião. Numa terceira versão, o guardião da luz escolhe o banimento, pede para ser enviado ao Inferno, para que pudesse vir a desvincular o Deus-Pai de toda a iniqüidade que ocorresse no mundo, ou então por preferir viver longe do poder censor do Pai Celestial e exercer com mais liberdade suas ações (e por aí vão as diversas e inesgotáveis interpretações...).

Não há uma batalha aberta entre o pai e André: sua luta é interna, sofrida e angustiante, e então, por sentir-se derrotado ou percebendo-se dono de carga que poderia vir a macular a sacralidade do lar, escolhe por seu próprio exílio, indo habitar seu inferno pessoal.

Numa outra conhecida passagem dos Evangelhos, mais precisamente em São Lucas (Lc, 15, 11), podemos localizar mais um “antepassado” do narrador de Lavoura Arcaica: o Filho Pródigo da parábola, que abandona a casa paterna e por fim retorna ao lar do pai depois de muito sofrer, inclusive sendo obrigado a comer da lavagem dada aos porcos. Diferentemente de André, porém, arrependeu-se da fuga e sentiu que a casa da família é o melhor dos mundos. No caso do texto de Nassar, o que traz o fugitivo de volta ao seio familiar é o irmão mais velho, o mesmo que ao final do romance atua de maneira questionável, talvez por ciúme, um sentimento também encontrado no irmão mais velho da parábola, que reclama para o pai das homenagens prestadas a seu irmão que regressa.


No universo de Raduan Nassar, André representa o arquétipo do homem, que vai em busca da verdade (verdade a seu modo), não desejando submeter-se às leis, e que prefere errar (num duplo sentido: se enganar e vaguear), cometer seus pecados, bater com a cabeça, mas guiado por sua consciência, pelo livre-arbítrio. Ele escolhe a punição à obediência cega para formar seus próprios conceitos e juízos, sem nenhum censor pairando sobre sua cabeça.

Quando André abandona a casa de sua família, está fugindo do jugo do pai, que domina, quase que de maneira onisciente, a vida de todos. Ele, o pai, é o grande pilar de sabedoria, o legislador-mor, o “dono” de toda a verdade e conhecimento, que faz sua pregação diária na cabeceira da mesa de jantar, durante as refeições, com impostura de voz e idéias, aconselhando os filhos a terem paciência, pois só os rigores da paciência, da espera, seriam recompensados, ou seja: incita os filhos a nunca se afastarem do perímetro da família.

Ao perceber (compreender) finalmente a atitude, o discurso e o comportamento do pai, André some de casa, confuso com seus pensamentos, com os fatos ocorridos e decepcionado por tentar acreditar no pai.

A atitude do pai de André, porém, é bastante comum e até compreensível: qualquer pai deseja livrar seus rebentos das decepções e sofrimentos da vida. Por isso, outorgam-se de suprema autoridade e têm-se como indiscutíveis possuidores da verdade, o que pode, às vezes, negar à prole sua liberdade, já que detêm conhecimento e experiência de vida – do mundo exterior.

Os filhos, porém, podem encarar a proteção de forma negativa, como uma tentativa por parte dos pais de “censurar a vida”, de se negar conhecimento, que por uns é encarado como um tesouro e por outros, como maldição.

Deus negava o acesso de seus filhos ao fruto do conhecimento por querer mantê-los longe das dúvidas e das inquietações que hoje são inerentes a qualquer ser humano, para poupá-los de decepções: daí a proibição e também a ameaça de punição.

Com a expulsão de seus filhos do Paraíso, a atitude de Deus acaba por ser exatamente oposta a sua proposição inicial: se querem experimentar do conhecimento, mesmo que seja por meio da desobediência, então que mergulhem fundo na vivência e na interação com o mundo.

Por outro lado, numa visão mais agressiva, tanto Deus quanto o pai do romance queriam apenas servos dóceis. O Deus bíblico não aceita questionamento de nenhuma ordem, Ele é a Lei, todos estão atrelados a Sua presença, qualquer mostra de dúvida ou questionamento será passível de punição capital, não há discussões ou mudanças de planos, tudo está traçado e assim será, inclusive os rebeldes, que previstos já estavam nos desígnios do Senhor Deus Todo-Poderoso, numa mostra de onisciência e poder total.

Tendo isso em vista, tudo aquilo que André e seus correspondentes bíblicos buscavam era apenas uma alternativa, uma outra opção àquela apresentada pela figura dominante do Deus-Pai.

Por isso, todos, devido a suas escolhas, tiveram destinos singulares. Porém, em certos pontos, parecem compartilhar mais similaridades do que seria de se esperar: figuras díspares e, apesar disso, similares.

Todos os “fugitivos” acabam sendo, ao final, diferentes modalidades do Filho Pródigo da parábola:

- Lúcifer é o filho que ainda não voltou;

- Adão (a humanidade) é aquele que volta, após a morte, mas depende do aval do Pai, pois seus pecados e suas ações serão avaliados:

- André é o que retorna mas não traz conciliação; ao contrário, traz o confronto, a revelação e drama.



The End ?


Quem é Raduan Nassar?

Raduan Nassar nasceu em Pindorama-SP, em 27 de novembro de 1935, filho de imigrantes libaneses.

Na adolescência, foi para São Paulo com a família, onde cursou Direito e Filosofia na Universidade de São Paulo. Estreou na literatura em 1975, com o romance Lavoura Arcaica.

Com apenas três livros publicados (além de Lavoura Arcaica lançou Um Copo de Cólera, 1978 – novela – e Menina a Caminho, 1997 – reunião de contos já publicados) é considerado pela um dos grandes escritores brasileiros, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, graças à extraordinária qualidade de sua linguagem e à força poética da sua prosa. Cultuado por um pequeno círculo de leitores, Raduan se tornou mais conhecido do público em geral com as versões cinematográficas de Um Copo de Cólera e Lavoura Arcaica.

Nassar deixou de escrever em 1984 e vive hoje em um sítio em sua cidade natal. (Minibiografia adaptada da Wikipédia)

Oam Patapai

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Bela manchete

A quick one...


Esse jornal do Rio de Janeiro, Meia Hora, preserva a tradição do velho Notícias Populares e de tantos outros periódicos "pinga-sangue", tão saudosos quanto escatológicos... divirtam-se...

Oam patapai

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Formação para a perdição

Eu vim em paz...




Para Henry Chinaski, a grande descoberta de sua juventude não foi o amor, ou uma vocação ou a literatura: foi a bebida, o álcool. Desde o dia em que provou, escondido, o vinho na casa de um colega, Chinaski soube que aquilo era seu Graal, sua passagem para o paraíso. O elixir que transforma a realidade e a torna melhor, nem que seja por poucas horas.


Diferente de muitos outros romances que tratam da formação de um indivíduo, da transformação da criança em adulto e de todos os seus dilemas, decepções, vitórias e amadurecimento, Misto Quente (Coleção L&PM Pocket, 2005), livro de Charles Bukowski (16 de agosto de 1920 – 9 de março de 1994), nos traz a odisséia desencantada, amarga, mas também bem-humorada de um garoto lutando para entender e se adaptar a um mundo que o rejeita com vontade.


A vida de Chinaski (alter ego de Bukowski, como querem alguns) não é nada fácil: pobreza, pai violento, mãe submissa, espinhas tomando o rosto e o torso, dificuldade em fazer amigos: tudo parece empurrá-lo para a revolta, a agressividade e a solidão. Porém, enquanto Holden Caufield, o anti-herói de O Apanhador no Campo de Centeio (Editora do Autor, 1999), de J. D. Salinger (1º de janeiro de 1919), transforma sua decepção com o mundo adulto em raiva acumulada, Chinaski apenas passa de desilusão em desilusão numa aparente apatia, na constatação de que o mundo é mesmo injusto e que revolta agressiva não leva a nada.



Fugindo um pouco da tradição da maioria dos “romances de formação”, onde o protagonista realmente aprende e tem um final “feliz” ou “otimista”, o livro do velho Buk é mais pessimista, não dando muita chance ao futuro de Chinaski. O que não é problema, já que o protagonista encara sua vida com tal objetividade, desencanto e desesperança, que se o futuro for melhor, vai parecer uma injustiça, um engano.



Misto Quente pode ser lido como uma “resposta” ao Apanhador no Campo de Centeio: enquanto Holden Caufield reclama da vida e da falsidade dos adultos; Henri Chinaski apenas aceita o destino e se protege com uma armadura de indiferença e cinismo, regada, em tempo, com boas doses de álcool.

A aparente alienação de Chinaski não parece causar estranhamento, pelo contrário, é desta perspectiva, que vai se tornando confortável, que pode melhor analisar o mundo e decidir como encará-lo, seja compactuando com seus “habitantes” ou desviando-se calma e insolentemente de suas regras e expectativas.

Enquanto a alienação de Holden Caufield aumenta à medida que sua compreensão do mundo cínico e falso dos “adultos” vai se construindo, Henri Chinaski parece encontrar um certo conforto nessa posição de “alienado”: Caufield é um lutador fadado ao fracasso, um questionador; Chinaski é um defensor que sabe que já perdeu, um fatalista.



Esse sentido de fatalidade, de que não adianta lutar contra o “sistema”, permeia a obra de Bukowski, mas pode ser enganador, pois o velho Buk, mesmo tendo se tornado famoso já depois dos quarenta anos, após penar em péssimos empregos e relacionamentos piores, conseguiu, afinal, enfrentar o sistema: tornou-se conhecido, foi publicado em várias línguas, e conseguiu mostrar um pouco do submundo de Los Angeles e da escória que o habitava a toda uma geração, e tudo isso bem na cara do “sistema”.

Ao contrário do que consta em sua lápide – “Don’t Try” – Charles Bukowski tentou e, mesmo que um pouco tarde, conseguiu. Longe de ser um pessimista, era apenas um cínico observador de seu tempo, que lutou em seus próprios termos.







Oam Patapai

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O talento, sua falta e a arte

(Esta é uma adaptação de um texto publicado no blog Palavras Gentis, nos idos de novembro de 2003.)

algum tempo assisti a um filminho bastante interessante cujo título original é “Max” (foi lançado em 2002, com John Cusack e Noah Taylor no elenco - não consegui descobrir o título em português, se é que existe) e que tem uma trama bem legal, tratando, ficcionalmente, da vida de Adolf Hitler como pintor ou seja: teria o sucesso como artista evitado que se envolvesse seriamente com a política?

Será que sua aceitação no meio artístico da época teria evitado que seu impulso natural de se tornar "grande" tomasse o rumo de uma guerra mundial e do extermínio de seres humanos em escala industrial?

Foi a completa falta de talento como pintor, como artista, que fez com que viesse a aprimorar sua capacidade retórica e, por assim dizer, propagandista, fazendo com que se envolvesse com a polítca incendiária da República de Weimar? Que desenvolvesse o movimento nazista?

É claro que o filme é um exercício ficcional, que abusa da “liberdade histórica” em nome do enredo, mas ainda assim dá um pouco o que pensar: será que todo grande artista é, lá no fundo, um cruento ditador? Ou que todo ditador, ou todo político-filho-da-puta (ôps, olha a redundância), toda pessoa que deixa a "autoridade" subir-lhe à cabeça e para agir como autêntica "otôridade" seria apenas mais um artista frustrado?

Talvez alguns de nossos alcaides sejam apenas um bando de pintores gorados, de cantores de banheiro cujos esforços infrutíferos para aparecer no programa do Chacrinha tenham se acumulado no fígado, ou no intestino grosso: daí o cheiro de desforra e de vingança que cobre muitas administrações desses verdadeiros feudos em que transformaram cidades e estados, cujos cargos políticos e administrativos são distribuídos como presentes e cala-bocas a um bando de incompetentes e facínoras.

Quem sabe tenhamos escapado de algo pior que o golpe militar de 64: Roberto Carlos poderia ter se transformado num grande político e chegado ao poder no lugar de algum dos presidentes militares e se tornado um Stálin tupiniquim, perpetuando-se no poder e descontando toda sua fúria e recalque nos descendentes daqueles que não compraram seus discos.

Brincadeiras à parte, o que gostei do filme (além da atuação de Noah Taylor como Hitler) foi que me deixou pensando por alguns momentos sobre a arte e aquilo que leva muitos a tentar caminhar nesse terreno imprevisível e falsamente mapeado para, no final, saírem frustrados, e se isso vale realmente a pena.

Sempre achei, como Oscar Wilde, que a arte, qualquer uma (principalmente a dança, que acho simplesmente insuportável, injustificável), fosse algo completamente inútil.

Alguns asseguram que essa inutilidade é que possibilita a alguma coisa ser considerada arte (outros defendem que apenas o fato de se colocar algo num museu ou galeria já caracteriza o objeto como arte, vide Marcel Duchamp); e devo esclarecer que a "inutilidade" da arte é naquele sentido utilitarista-concreto da coisa, ou seja, podemos viver sem as obras-primas de Jackson Pollock ou as partituras de Phillip Glass, mas não sem comida, água, oxigênio, álcool etc.


Porém, mesmo achando que a arte em geral não possui uma "utilidade" concreta, reconheço que esse vício de criação e interpretação artística já mudou a vida de muita gente, mesmo que num sentido restrito, local ou íntimo, e que, se não fosse por esses milhares (milhões?) de artistas frustrados que andam pelas ruas e que trabalham e se casam e bebem e têm filhos e pagam impostos e compram porcarias e votam e xingam a sogra, talvez essa droga de planeta fosse um lugar bem pior, onde notas musicais não fossem cantaroladas e onde imagens e palavras não alcançassem aquele lugar bem lá no fundo da alma, que muitas vezes esquecemos que existe, e que quando é estimulado, por bem ou por mal, ajuda a todos nós a agüentar mais um dia de sol e incerteza.

Ou seja: a arte, afinal, vale a pena.


Au revoir...



Oam Patapai